Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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1964 – A chanchada

Por Joaquim Ferreira dos Santos em 01/04/2014 na edição 792

A História tem muitas maneiras de ser contada, e a que eu prefiro de 1964, o ano que não devia ter acontecido, é a do lançamento da Fanta Laranja, do sucesso de Dercy Gonçalves cantando “A perereca da vizinha” e da mulherada na praia querendo esconder os peitos atrás da tira fininha do monoquíni. Foi uma chanchada: uns generais enciumados deram um chute no traseiro do presidente gaúcho, um fazendeiro de pernas tortas que namorava as vedetes Angelita Martinez e a deliciosa “Joãozinho Boa Pinta”, assim alcunhada por ser da pá virada e ter o corte do cabelo feito à navalha.

Jango passava o rodo, os milicos passaram o tanque. Sobrou pra nós.

Um desses generais mal-amados, Olympio Mourão Filho, foi sincero. Disse na capa da revista “O Cruzeiro” cumprir a missão cívica de botar o sujeito coxo para fora da coxia do Alvorada e da garçonnière de Copacabana: “Não sei nada de política, sou uma vaca fardada”. Outro militar, o mais carrancudo e sem pescoço da generalança, ganhou perfil curto e grosso do Millôr: “O presidente Castello Branco continua grande patriota, homem certo para a mais alta investidura da nação, honesto e reto, seguro e forte, mas bonito não é não”.

Uma das poucas coisas bonitas nesta História de 1964, o ano que precisa de um copidesque mais bem-humorado, foi Brigitte Bardot. Ela fundou a cidade de Búzios, um vilarejo sem luz e sem pousadas. Foi fotografada chafurdando na lama de um chiqueiro de porcos, transou com o namorado ao luar da deserta Praia dos Ossos. Quando foi embora, BB deixou um bilhete com a versão franco-tropicalista do brasileiro cordial do Sérgio Buarque. “Adorei a revolução no Brasil, sem morto nem tiro. Os brasileiros são adoráveis. Resolvem seus casos sem briga.”

(Vinte anos depois, a americana Kate Lyra faria na “Praça da Alegria” uma atualização do pensamento de BB. Diante do assédio dos homens, todos dispostos a chafurdar com ela numa lama qualquer, Kate, meio sem entender, meio de sacanagem, se fazia de songamonga e puxava o bordão cheio de sotaque para agradecer tanta atenção desinteressada: “Brasileiro é tão bonzinho!”.)

100% nylon…

“1964” foi um golpe de vento encanado, daqueles que matavam crianças na frente da janela entreaberta. Foi uma prise de lança-perfume Dó-Ré-Mi, a grife ruim que anunciava sua lata ouro-metálica na “Manchete” e tentava tirar o mercado da Rodouro, infinitamente superior. Daí veio o bode, o calhambeque do Roberto e o atropelamento da razão. Um tenente-coronel invadiu a casa do editor Ênio Silveira e confiscou-lhe fitas de Brahms. O Padre Peyton, notório pinguço irlandês financiado pela CIA, dava uma de “Deus e o diabo na terra do sol”, o filme do ano, e carregava mulheres às ruas no cortejo da “Família que reza unida permanece unida”.

A mais bonita brasileira ficou de fora da reza desse terço imperialista e foi vista inflando as massas no comício de 13 de março, na Central. Maria Teresa, a mulher do presidente, era moderna, invejada pelas mal-amadas. Quando a Tergal lançou a saia plissada, a maldade humana apelidou-a de “Saia Maria Teresa”, porque “era cheia de machos”.

Se ainda houvesse espaço para outro livro sobre 1964, o ano que não fez sentido, eu sugeriria o mesmo título da revista estreada em julho no Teatro Recreio. “Tem bololô no bulelê” seria perfeito para resumir o nonsense do ano em que o Brasil mandou a Cannes, com direito a desfilar pelo tapete vermelho da Croisette, a cachorra Baleia, estrela do filme “Vidas secas”. Como epígrafe eu usaria uma estrofe de “Bigorrilho”, a marchinha de maior sucesso do carnaval, mais exatamente o trecho do “Trepa Antônio, o siri tá no pau, eu também sei tirar o cavaco do pau”.

Nunca se escreveu tanto sobre um ano, mas a sensação é de que ele foi disparatado demais para ter acontecido do jeito que contam. Cacilda Becker depondo de Dior no Dops e confessando que, sim, havia declamado “Mães de Stalingrado”, de Jorge Amado, 20 anos antes, no Municipal – isso é realidade ou roteiro de uma de suas peças?

É verdade mesmo, como está em “Almanaque 1964”, de Ana Maria Bahiana, que um juiz de menores do Rio radicalizou o moralismo da revolução e, estimulado pelas vacas fardadas, pôs a tropa de fiscais nos cinemas para impedir na plateia beijos tão escandalosos quanto os da tela?

É ironia dos historiadores ou documento real para se interpretar os tempos a coincidência de que, no mesmo ano em que os militares começam a torturar os dissidentes políticos, a indústria têxtil lança nas lojas as camisas 100% nylon, a Ban-Lon e a Volta ao Mundo, com o reclame de que “Nunca amarrotam”?

Fogo na roupa

“1964” é o verdadeiro ano que não acaba nunca – e eu recomendaria com ele mais cuidado do que Millôr teve. Ao lançar a “Pif-Paf”, o grande filósofo sem estilo anunciou a linha editorial da revista com prudência: “Será de esquerda às segundas, quartas e sextas. De direita, às terças, quintas e sábados.” Millôr esqueceu do domingo. Deve ter sido por isso, pelo silêncio subversivo pressentido ali, que os militares fecharam a revista no oitavo número.

Foi fogo na roupa. Doce, em 1964, só o Yuky.

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Joaquim Ferreira dos Santos é colunista do Globo

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