Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Luta armada foi resistência legítima à ditadura militar

Por Bernardo Mello Franco em 01/04/2014 na edição 792

Líder estudantil em 1968, o jornalista Cid Benjamin, 65, participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, a mais ousada ação da luta armada.

Ele diz que a guerrilha foi uma forma legítima de resistência à ditadura militar. “Eu me orgulho de ter participado deste movimento.”

Preso e exilado por nove anos, Benjamin hoje atua na Comissão da Verdade do Rio e defende que os torturadores sejam julgados por seus crimes. Lançou suas memórias, “Gracias a la Vida” (José Olympio), em 2013.

O sr. pertenceu a uma geração que optou pela luta armada após o AI-5. Por quê?

Cid Benjamin – A sociedade, em 1968, já era amplamente contrária à ditadura. Pensávamos que o Brasil estava caminhando para uma guerra revolucionária. O Vietnã e a Revolução Cubana eram coisas muito fortes nas nossas cabeças.
Dado o grau de insatisfação com o regime, a desigualdade e a miséria, pensávamos que um processo de luta armada no campo e na cidade fosse aglutinar mais e mais gente. A longo prazo, constituiríamos um exército popular que poderia fazer a revolução. A história mostrou que nossa perspectiva estava incorreta.

Como foram as primeiras ações armadas e o sequestro do embaixador americano?

C.B. – Apesar da nossa inexperiência, foram um sucesso. A repressão estava despreparada. Os bancos não tinham portas giratórias. A gente assaltava e levava as armas dos guardinhas. O sequestro surgiu da preocupação com os presos políticos, muitos sob tortura. Um dia, estava com o Franklin Martins [ex-ministro no governo Lula] em uma rua de Botafogo e passou o carro do embaixador americano, com bandeirinhas no capô e sem segurança nenhuma.
A ideia foi usá-lo como moeda de troca por nossos presos, especialmente o Vladimir [Palmeira, líder estudantil de 1968]. A execução foi muito simples, e a devolução, digna de filme de ação americano. Quando nos livramos da perseguição, tomamos uma cerveja para comemorar o êxito da ação.

O que fez depois?

C.B. – Fiquei dois meses entocado, mas tinha virado a bola da vez. O MR-8 era a organização mais ativa no Rio, e sabiam que eu era o responsável pelo setor armado. Quando fui preso, ouvi no DOI-Codi que era o militante com mais ações armadas no Rio. Desde que entrei, comecei a ser torturado.

Como foram as torturas?

C.B. – Ao chegar, sangrava muito na cabeça. Chamaram um médico, Amílcar Lobo, que costurou a frio. Depois, foram dias de tortura. Pau de arara, choque elétrico e afogamento eram o cardápio principal.

Em seu livro, o sr. diz que os torturadores não eram monstros. Por quê?

C.B. – Não havia um só um tipo de torturador. Havia os sádicos, perversos, monstros. Mas também havia jovens oficiais do Exército, imbuídos da luta contra o comunismo da Guerra Fria. Não me surpreenderia se hoje alguns estiverem arrependidos do que fizeram. Ainda havia os policiais antigos, que eram os melhores torturadores, torturaram bandidos a vida inteira. Eram capazes de sair dali e fazer um churrasco com os amigos, serem bons pais, bons avôs. Ao dizer isso, não estou passando a mão na cabeça dos torturadores. Estou mostrando como nossa sociedade é atrasada e permite que eles tenham vida social relativamente normal.

C.B. – O pior da tortura não são os maus-tratos, é que ela tenta desumanizar o ser humano. Através da dor física, procura fazer com que o preso renegue seu sistema de valores, se despersonalize. O objetivo é quebrar o torturado como pessoa.

Os torturadores ainda devem ser julgados por seus crimes?

C.B. – Um país que não conhece sua história está condenado a repetir seus erros. O Brasil está começando tarde. A ditadura acabou em 1985, e a Comissão da Verdade só foi criada em 2012. Os torturadores devem ser julgados e, se culpados, condenados. Não digo isso porque tenha ódio deles, mas porque acredito que o futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores. Se eles forem condenados, as pessoas vão pensar duas vezes antes de torturar.

Sem luta armada, a ditadura teria acabado mais cedo?

C.B. – Fujo dessa armadilha. É como culpar um torturado pela tortura, ou culpar a resistência por barbaridades nazistas em territórios ocupados. A luta armada, embora equivocada politicamente, foi uma parte legítima da resistência. Eu me orgulho de ter feito parte deste movimento.

******

Bernardo Mello Franco, da Folha de S.Paulo

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