Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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50 anos de golpe midiático

Por Alice Martins Morais em 08/04/2014 na edição 793

“50 anos do golpe militar: como afeta a economia do Brasil até hoje?” Foi assim que o Bom Dia, Brasil, jornal da manhã da Rede Globo, se referiu à data histórica de 31 de março de 2014, dia em que o golpe militar brasileiro completou 50 anos. A ditadura militar brasileira durou mais de duas décadas e deixou cerca de 400 mortos e desaparecidos. Diante de tudo isso, questiono: seriam os efeitos na economia o assunto de maior relevância para se colocar em um dos telejornais mais vistos no país? Será que não tinha nenhum aspecto de maior interesse público a se abordar?

Gostaria de iniciar falando um pouco do que é interesse público. Esse é um conceito sociopolítico que serve como pilar ético do jornalismo: exercer a profissão de forma a servir a sociedade que atinge, oferecer um serviço público, não apenas centralizando as atenções ao que supostamente dá audiência à empresa. Diante disso, podemos verificar que há um grande desvio da Rede Globo, exemplificado no jornal de hoje citado acima, quanto ao pilar do interesse público, descumprindo, dessa maneira, o dever ético da profissão jornalística. Mas você pode estar se perguntando se eu não estou fazendo tempestade em copo d’água e enxergando coisa onde não tem. Pois bem, deixe-me explicar meu ponto de vista.

Primeiro, vamos fazer um levantamento dos assuntos debatidos nos principais meios de informação. Não é difícil de perceber que a temática do Golpe de 1964 está presente de forma assídua nos meios de comunicação e nas rodas de debate brasil afora. Nos jornais impressos e televisos, não achei um que não tivesse abordado o assunto. Agora, chegando a revistas, vejamos as capas desta semana:

Compromissada com a população e com o país

Será coincidência que apenas a Veja e a Exame não falam da ditadura? Será coincidência também que as duas revistas trouxeram como manchetes a economia, enfoque da matéria do Bom Dia, Brasil? Analisemos.

Seria perfeitamente compreensível que os três veículos abordassem essa temática se fossem todos declaradamente noticiosos econômicos. Mas não é o caso. Apenas a Exame se intitula dessa maneira. Poderia também ser uma coincidência se fossem veículos isolados. Mas não são. Veja e Exame fazem parte do mesmo grupo editorial, grupo esse que apresenta ligação tão direta com a Rede Globo que já existe um termo usado por parte da imprensa que se refere ao grupo Globo/Abril como um todo: PiG – Partido da imprensa golpista, criado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim. Também seria aceitável isso tudo se não houvesse um contexto histórico por trás e se o tema escolhido para desvio não fosse o escolhido.

Comecemos pela Rede Globo e seu caso com a ditadura. O primeiro programa da emissora foi iniciado em 2 de maio de 1965, Santa Missa em Seu Lar, um programa católico. O Jornal Nacional iniciou quatro anos depois, em 1969, ano em que o general Médici assume a presidência do Brasil, dando começo ao que ficariam conhecidos como anos de chumbo. De acordo com o princípio ético de responsabilidade social, de interesse público, o dever desse telejornal (que, por acaso, seria o primeiro em rede nacional) seria assumir uma posição de investigação a respeito do que tivesse acontecendo no Brasil. Mas a rede optou por escolher o caminho mais fácil e economicamente mais sensato: o de compactuar com o regime, recebendo benefícios no lugar da cobertura omissa e manipulatória. A própria Globo reconheceu em editorial lido no Jornal Nacional, 49 anos depois e pressionada pelas manifestações de junho de 2013, que o apoio o golpe militar de 1964 e ao regime subsequente foi um “erro”.

Aqueles que consideram a ditadura como um bom período na História do Brasil ressaltam exatamente o boom econômico que as classes mais favorecidas ganharam durante o período militar. A Globo, inclusive, fez questão de focar nisso durante e após a época, e agora, num arrependimento minimamente convincente, tenta mudar seu discurso. Do que adianta Miriam Leitão falar que a ditadura militar estragou a economia do país se não falar dos problemas sociais e dos impactos nos próprios direitos humanos que a época causou? Que adianta mudar o discurso público se a linha editorial permanece a mesma? Qual é o sentido de se autointitular uma emissora parcial e compromissada com a população e com o país se dedica todas as suas forças para criminalizar aqueles que combateram a ditadura (como a própria presidenta Dilma) e tem como maior comentarista de todos os assuntos possíveis do jornal da manhã Alexandre Garcia, que trabalhou como secretário de imprensa (porta-voz) do governo militar de João Baptista Figueiredo.

Dilma impediria crescimento da economia

Passemos, então, à revista Veja, uma revista autointitulada de imparcial (assim como a Rede Globo se nomeia) e nascida durante a ditadura, em 1968. O principal a ser falar da revista é que sua linha editorial é marcada pelo alinhamento à direita. Sua primeira edição trouxe como manchete “O grande duelo no mundo comunista”, mostrando, de primeira, sua cara. Entre outros artigos, trazia “Rebelião na Galáxia Vermelha”, “A Romênia quer resistir” e “Checos têm esperanças”, fazendo o possível para tornar o vermelho comunista em algo confuso, problemático e que não dá certo – lembrando que à época se vivia Guerra Fria no contexto internacional e o Brasil se ancorava nas decisões norte-americanas.

Quase 50 anos depois, a revista mantém a mesma linha editorial e vem perdido cada vez mais seu domínio na formação de opinião, pelos recentes níveis de apelação que o público em geral vem percebendo em relação a essa demonização do vermelho, agora representado no PT.

O que a revista Veja fez na última edição é o que o sociólogo francês chamaria de “ocultar mostrando”, que é quando o jornalista desvia a atenção de um debate que se tem dado enfoque no momento (que muitas vezes está ligado ao interesse público e neste caso se refere aos 50 anos do golpe militar) através da exposição de outro assunto (que neste caso é a relação entre Dilma e a bolsa de valores). E por que a Dilma e a bolsa de valores foram os “personagens” escolhidos? Minha teoria é: Dilma tem uma ligação muito forte e direta com a ditadura militar, no sentido do combate a ela, tanto enquanto militante quanto como instituidora da Comissão Nacional da Verdade. A bolsa de valores é um fator que parte significativa da população não entende e, mesmo assim, dá bastante relevância, considerando um fator importante. Fazendo uma relação inversa entre a presidenta e a bolsa, há a tentativa de mostrar um conflito: Dilma seria um impedimento ao crescimento da economia do Brasil (mais uma vez, a economia está presente).

Petrobras não pertence ao regime “organizado” dos militares

Não vou me prolongar na história da revista Exame, até porque, por ser da mesma editora da Veja (Grupo Abril), suas linhas editoriais são bem semelhantes, com a diferença de a Exame ser declaradamente uma revista especializada em economia e negócios, com esse público-alvo claro. Vou, então, focar na razão de se falar na Petrobras na semana em que o golpe militar completa 50 anos.

A Petrobras nasceu de fato em 1953, ainda durante o governo Vargas. Durante o regime militar, a empresa foi resguardada e monitorada pela ditadura, fato revelado pela Comissão Nacional da Verdade recentemente. A despeito de todas as liberdades econômicas e a garantia dos direitos humanos trabalhistas, nesse período a Petrobras se tornou líder na comercialização de derivados no país e garantiu destaque no plano internacional, mais um fato que os saudosistas reacionários afirmam como argumento para falar da ditadura como época de ouro da política brasileira.

Quando a Exame pergunta ao consumidor em sua capa “Dá pra salvar a Petrobras?”, a primeira informação que o veículo fornece é: a Petrobras está em decadência, a ponto de ser quase impossível se achar uma solução. Mais a fundo, a Petrobras, hoje, não mais pertence ao regime “organizado” dos militares, não funciona mais. Coincidência?

Como a economia está indo…

Regime ou ditadura militar brasileira foi o regime autoritário, militar e nacionalista que se instalou no governo do país entre 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985. A implantação da ditadura começou com um golpe de Estado em 1964, quando as Forças Armadas do Brasil derrubaram o governo do presidente eleito democraticamente João Goulart e terminou quando José Sarney assumiu o cargo de presidente, quando o país foi redemocratizado e teve início a Nova República.

A revolta militar foi fomentada por Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, por governadores dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, e por grande parte dos grandes veículos de comunicação. O regime militar brasileiro inspirou o modelo de outros regimes militares e ditaduras por toda a América Latina, sistematizando a “Doutrina de Segurança Nacional”, que justificava ações militares como forma de proteger o “interesse da segurança nacional” em tempos de crise (informações históricas em textos de Boris Fausto e Eduardo Gonzales, reproduzidos no site Wikipédia).

Aproximadamente 400 pessoas foram assassinadas ou desaparecidas, além de outras centenas exiladas e toda uma nação impactada por um golpe político marcado por uma das piores épocas da história da humanidade: o período dos regimes ditatoriais e totalitaristas.

Tudo isso e a grande mídia escolhe centralizar as atenções em como a economia está indo…

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Alice Martins Morais é estudante de Jornalismo, Belém, PA

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