Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MARCHA DO TEMPO > 1964 + 50

JK, assassinato ou acidente?

Por José Paulo Cavalcanti Filho em 06/05/2014 na edição 797
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 28/4/2014; intertítulo do OI

Em 1976, morreram os ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek e, meses depois, Carlos Lacerda. A ideia de que tenham sido assassinados por agentes do governo militar se disseminou no imaginário coletivo.

Quanto a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por problemas de saúde e nunca teve interesse em maiores investigações. O caso de Jango está sob exame – com fragmentos de seus ossos já em laboratórios para identificar a presença (ou não) de cianureto. Confirmando (ou não) a tese de que teria sido envenenado. O terceiro é JK – ao morrer, para o povo brasileiro, a mais nítida esperança em voltar à democracia numa eleição direta.

A Comissão Nacional da Verdade acaba de concluir o exame deste caso. Apresentou laudo firmado por cinco renomados peritos, em 139 páginas. A conclusão é que tivemos apenas um acidente automobilístico. Não assassinato, só acidente. E estamos tranquilos. Porque nosso compromisso, na comissão, vai muito além das circunstâncias. É só com a verdade.

A seguir, uma tentativa de resumir o laudo por temas:

1. Local. O acidente se deu numa reta. Com o Opala de JK e o ônibus da Viação Cometa indo na direção do Rio de Janeiro. Do outro lado da pista, na direção de São Paulo, um caminhão Scania com 30 toneladas de gesso, que seria o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro. Era plana a separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes. Certo que, fosse mesmo um atentado, seria outro o local escolhido. Provavelmente uma curva. Junto a um precipício.

2. Abalroamento. Fosse atentado, o último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. E cheio de passageiros. Bem mais eficiente seria um carro de placa fria. Com a vantagem de um menor número de testemunhas. Valendo lembrar que o ônibus estava em velocidade menor que a do Opala. E em sua trajetória normal. A batida se deu com o Opala invadindo a sua pista.

3. Trajetória depois do acidente. O Opala se desgovernou, ultrapassou o canteiro central e se dirigia para o acostamento da pista contrária. Caso continuasse nessa trajetória, teria seguido em frente, com danos de pouca monta para o veículo. Segundo o laudo, entre o abalroamento e o choque, se passaram dois segundos. Os peritos sabem que o tempo médio de reação humana, em casos de acidente, é de 1,5 segundo. Ocorreu que o motorista do Opala, passado o breve instante de torpor, reagiu virando à direita. Impedindo que o veículo fosse para o acostamento, como aparentemente pretendia. Como se quisesse evitar danos. Por azar não conseguindo passar ao lado do outro veículo pelo acostamento. Chocando a parte frontal direita de seu Opala com a parte frontal direita da Scania.

A história tem dessas tramas

4. Toque de outro veículo. Também a versão não se sustenta, dado que as únicas marcas de abalroamento no Opala são rigorosamente coincidentes com as que ficaram no ônibus. Sem registro de nenhuma outra.

5. Bomba. A versão de que o Opala foi vítima de bomba tampouco se sustenta por não haver vestígio dos resíduos de plásticos ou pólvora na estrada ou no veículo.

6. Tiro no motorista. Igualmente essa versão não se sustenta. Primeiro porque o crânio do motorista de JK não tinha lesão, conforme se vê nas fotos da época. E segundo porque, caso tivesse sido atingido por uma bala no crânio, jamais poderia, logo depois do abalroamento, ter alterado a trajetória do veículo que dirigia. Como fez. E com lucidez.

7. Bala. Foi localizado um objeto de metal no crânio do motorista. Em fenda de uns dez centímetros. Com bordas claras, prova de ter sido uma fratura posterior no tempo. Essas fraturas acontecem com frequência, dada a fragilidade dos ossos em decomposição. E o metal não era um composto de liga de chumbo, próprio dos projéteis de bala. Era ferro doce. Simples e barato. Tendo o objeto diâmetro muitas vezes menor que o de um projétil de revólver 38. Sem contar que, em caso de atentado, seriam provavelmente usados projéteis 44 ou 45. Provando o laudo se tratar apenas de um cravo, exatamente similar aos usados para pregar a fazenda que ficava por dentro da madeira naquele caixão de defunto.

Quem tiver interesse basta acessar o site da comissão com a íntegra do laudo e seus anexos. A história tem dessas tramas. Faltando só lembrar que o regime militar certamente ficaria feliz em ver morto JK. Mas é como se o destino, esse “Deus sem nome”, como queria Fernando Pessoa, tivesse agido antes. Essa é a verdade.

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José Paulo Cavalcanti Filho é membro da Comissão Nacional da Verdade

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