Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MARCHA DO TEMPO > REDEMOCRATIZAÇÃO, 20 ANOS DEPOIS

As primeiras horas da agonia de Tancredo Neves

Por Ricardo Noblat em 15/03/2005 na edição 320

Segunda e última parte da “cobertura” produzida pelo jornalista Ricardo Noblat (http://noblat.blig.ig.com.br/index.html) sobre as primeiras horas da agonia do presidente eleito Tancredo Neves, 20 anos atrás, nos estertores do último governo militar. O relato cobre 24 horas de adrenalina pura.




15/03/2005 01:30



15/03/1985 01:30 – ‘Renault, pelo amor de Deus…’



Recostado na cama do seu quarto na granja do Riacho Fundo, a 20 minutos de carro do Palácio do Planalto e do prédio do Congresso, o presidente eleito Tancredo Neves suplicou ao médico Renault de Mattos que estava de pé diante dele:

– Renault, pelo amor de Deus, segure até que eu assine o termo de posse amanhã. Eu prometo sair de lá imediatamente para o hospital a fim de ser operado. A situação política é complicada. É importante que eu tome posse. Preciso estar lá.

O médico respondeu que ele corria risco de morrer e que precisava ser operado imediatamente.

O cirurgião Francisco Pinheiro da Rocha, que estava ao lado de Renault, concordou com ele.

– Eu lhe dou um documento isentando-o de qualquer culpa – barganhou Tancredo.

Renault respondeu:

– De que me servirá esse papel se o senhor morrer? O senhor tem que estar vivo e por isso deve se operar.

A cena ocorreu ontem à noite por volta das 21 horas.

Aecinho sugeriu que o avô fosse removido para São Paulo. Arranjaria rapidamente um avião e em menos de 3 horas Tancredo daria entrada no Hospital do Coração.

Pinheiro da Rocha foi contra a idéia. Argumentou que o presidente poderia morrer durante a viagem. E disse que se essa fosse a decisão da família, ele não acompanharia Tancredo até São Paulo.

Tancredo só concordou em ser removido para o Hospital de Base depois Renault mentiu para ele.

Garantiu que ele apenas tomaria soro e que a operação ficaria para depois da posse.



15/03/2005 01:40



15/03/1985 01:40 – Ele mal conseguia tocar no abdômen



Soube há pouco que Tancredo sente dores no abdômen desde janeiro, mas que elas se agravaram há menos de uma semana.

Anteontem à noite, sem que ninguém soubesse, Tancredo entrou no carro do médico Renault de Mattos e foi com ele até o Centro Radiológico de Brasília na avenida W-3.

Os exames provaram a necessidade de ele ser operado.

Mas Tancredo não quis.

Ontem à noite, depois da missa celebrada no Santuário Dom Bosco, o presidente mal conseguia tocar com a mão no abdômen tamanha era a dor que sentia.



15/03/2005 01:45



15/03/1985 01:52 – Vocês não vão acreditar!



Digam aí uma coisa impensável de acontecer logo com um presidente da República enfermo, internado às pressas e correndo risco de vida…

Pois Tancredo ficou quase uma hora em cima de uma maca empurrada por médicos e enfermeiros do Hospital de Base que não sabiam direito para onde levá-lo. Estava grogue pela ação de remédios que tomou e nu coberto apenas por um lançol.

Rodaram com Tancredo por dentro do hospital atrás de uma passagem interna que os conduziria a determinado centro cirúrgico.

A equipe que operaria Tancredo estava em outro centro.



15/03/2005 02:05



15/03/1985 02:05 – ‘É você, Sarney’. ‘Não, é você’



O que conto agora aconteceu pouco antes da meia-noite.

Sarney, Ulysses e o general Leônidas Pires Gonçalves conversavam em uma das suites do quarto andar do Hospital de Base a pouca distância do apartamento onde médicos e enfermeiras preparavam Tancredo para ser operado.

Não sei dizer quem tocou primeiro no assunto – só sei que não foi Sarney.

– Você vai tomar posse amanhã – disse Ulysses.

– Não, Ulysses, eu não vou. Tome você – respondeu Sarney.

– Eu li a Constituição e é você, Sarney.

– Não tenho condições, é uma questão pessoal.

– Não tem questão pessoal. Quem assume é você, Sarney.

Fernando Henrique Cardoso, futuro líder do governo no Senado, estava por perto quando Ulysses e o general decidiram dar um pulo na granja do Ipê onde mora o chefe da Casa Civil do governo Figueiredo, o jurista e ministro João Leitão de Abreu, gaucho e torcedor fanático do Grêmio.

– Vamos conversar com dr. Leitão – determinou Ulysses.

Sarney respondeu que iria para casa. E que lá aguardaria informações. Fernando Henrique foi com Ulysses e o general ao encontro do ministro Leitão.

Era para ser uma visita secreta. Mas na porta da granja encontraram o repórter Jorge Bastos Moreno, de O Globo.

O grupo entrou. Moreno ficou esperando o resultado do encontro.



15/03/2005 02:11



15/03/1985 02:11 – Avança a operação



‘O pior acabou acontecendo’.

Essas foram as últimas palavras ditas pelo presidente Tancredo Neves antes de sucumbir de vez aos efeitos da anestesia.

Ele está sendo operado na sala F do Centro Cirúrgico Efetivo do Hospital de Base de Brasília desde 1h10.

Tem 17 pessoas dentro da sala, quase todos médicos, enfermeiras, atendentes, uma freira irmã de Tancredo que reza agarrada a um terço, o senador Mário Maia (PMDB-AC) e o deputado Carlos Mosconi (PMDB-MG). Os dois políticos são médicos e amigos de Tancredo.

A sala tem uma pequena janela de vidro de 50 por 40 centímetros.

De vez em quando, para quem está dentro, aparece na janela pelo lado de fora um rosto conhecido.

Até aqui já apereceu mais de uma vez o rosto de Antonio Carlos Magalhães, futuro ministro das Comunicações. E o do deputado Pimenta da Veiga, futuro líder do governo na Câmara. E também o do embaixador Paulo de Tarso Flexa de Lima.

Do lado de fora, pela janela, não se vê nada – a não ser um grupo de pessoas vestidas de branco que formam um semicírculo.

O cirurgião Pinheiro da Rocha, paraibano, 55 anos, pegou um bisturi de cabo número 4, e uma lâmina 20, e fez o primeiro corte de 18 centímetros de extensão na altura do abdômen de Tancredo.

Pouco antes da 1h30, as lâminas manejadas pelo cirurgião estavam perto de alcançar o peritônio, tecido que envolve a parede do abdômen. Só quando chegassem ao peritônio se teria acesso ao local da infecção – que pode estar no apêndice, nos intestinos ou em qualquer outro ponto do lado direito da barriga.

Apesar de dispôr de três bocas de ar-condicionado, faz calor na sala iluminada por 24 lâmpadas fluorescentes.



15/03/2005 02:25



15/03/1985 02:25 – Contra a Constituição, não



Depoimento que me passou há pouco por e-mail o futuro secretário-geral do Ministério da Justiça, José Paulo Cavalcanti Filho:

’14 de março. Aeroporto de Brasília. Entre 9 e 10 da noite.

Lá estava porque chegavam Maria Lectícia, minha mulher e, mais, seus pais para a festa da posse de Tancredo.

Um servidor da Polícia Federal me encontra, rosto assustado, e dá a notícia:

– O Presidente está morrendo. Dr. Ulisses será o próximo Presidente. Dr. Fernando Lyra está lhe esperando no gabinete do Dr. Dorneles.

Susto. Lectícia e os pais tomam táxi para o hotel. Vou no carro da Polícia Federal. Comigo, o amigo Joaquim Falcão.

Eu me volto para Joaquim e digo:

– Não vou assumir o cargo amanhã.

Ele, sem entender direito, pergunta por que.

Digo que, pela Constituição, quem deveria assumir seria Sarney. Nosso primeiro ato, em um Ministério que era o da Justiça, não poderia ser rasgar a própria Constituição.

Ficamos em silêncio durante todo o resto do percurso. Um silêncio pesado.

Subimos ao sétimo andar (ou oitavo) do Ministério da Fazenda onde ficava o gabinete de Dorneles, futuro ministro da Fazenda. Até ontem ele era o Secretário da Receita Federal.

No grande salão de espera do gabinete já estavam quase todos os futuros Ministros. Alguns bem tranqüilos – como o da Saúde, Carlos S´Antana (Bahia). Outros, ao contrário, visivelmente angustiados -como o da Agricultura, Pedro Simon (Rio Grande do Sul).

Esse ficava andando em um mesmo círculo com a mão na cabeça. Até pensei em uma revista de criança, que lia tempos atrás, com Tio Patinhas andando em uma ‘Sala das Preocupações’. A comparação, sob um viés plástico, era inevitável.

Ali, naquele grande espaço, estavam os figurantes menos importantes do drama. Em uma pequena sala, contígua, estavam as ‘autoridades’.

Lyra sai e conversamos. Me diz da cogitação de que assumisse Ulisses. Digo-lhe que deve assumir José Sarney, como vice; prestar o compromisso, como vice; e, como vice, exercer interinamente a presidência, substituindo o presidente que não tomara posse.

Assim deveria ser até que Tancredo, recuperado, fosse ao Congresso, firmasse o compromisso de presidente e afinal assumisse. (Espero que isso ocorra em breve.)

Lyra voltou à pequena sala.

Ignoro como se deu a trama de posse de Sarney. A informação que tive há pouco é que ele assumirá. O General Leônidas Pires Gonçalves, futuro Ministro do Exército, teria bancado a posse. Ele não estava naquele edifício.

Só então começaram – Dorneles, Lyra e outras pessoas – a redatilografar as nomeações que Tancredo já havia assinado.

Elas serão assinadas mais tarde por Sarney – isso se tudo se der como estabelece a Constituição’.



15/03/2005 02:33



15/03/1985 02:33 – De vocês, leitores



Enviado por: Xico

‘Ontem, 14 de março de 1985, minha irmã estava fazendo 24 anos. Aqui em casa havia uma festa e a notícia na TV Globo deixou todos atônitos. Eu estou me preparando para o vestibular e fiquei ouvindo a conversa dos mais velhos.

-É golpe, é muita coincidênica ele ser operado um dia antes da posse – disse um dos meus tios.

-Que nada, ele está velho demais, foi muito estresse, viagem, e muita emoção nos últimos meses. Está esgotado.

-Não sei não, mas é muito estranho. Esta noite pode ser decisiva para o Brasil.

Ouvindo aquela conversa, pensei comigo mesmo: estou começando a vida, será que irei enfrentar os que os jovens da década de 60 enfrentaram? Haverá esperança no futuro, haverá properidade no Brasil? O que o futuro guarda para o meu país, e para mim? Socorro, mamãe!’



15/03/2005 02:40



15/03/1985 02:40 – Afonso Arinos vai falar na Globo



O jurista Afonso Arinos de Melo Franco, a quem Tancredo encomendara um ante-projeto de Constituição, jantava na casa de Vera Brandt, dona de uma imobiliária em Brasília e amiga de muitos notáveis da Nova República, quando soube que o presidente eleito acabara de ser internado no Hospital de Base.

Havia muita gente na casa de Vera na QI-19 do Lago Sul. E logo foi deflagrada a discussão sobre quem assumiria a presidência da República caso Tancredo fosse de fato operado.

– Assume Sarney, a Constituição é clara quanto a isso – observou Afonso Arinos sem levantar o tom da voz. E passou a explicar por que.

O deputado Israel Pinheiro Filho (PMDB-MG) escutou tudo em silêncio, depois deu alguns telefonemas do escritório da casa, voltou ao encontro de Afonso Arinos e propôs:

– O senhor tem que repetir tudo que disse aqui na TV Globo. Vamos para o estúdio da emissora conceder uma entrevista.

As demais pessoas ali reunidas concordaram com a idéia.

Então Afonso Arinos e Israelzinho partiram para o estúdio da Globo logo no começo da W-3 Norte.

Àquela altura, na TV Manchete e na própria Globo, falava-se da possibilidade de Ulysses assumir – e não Sarney.



15/03/2005 02:51



15/03/1985 02:51 – O que Afonso Arinos disse na Globo



‘Não existe possibilidade nenhuma de solução que seja contra o texto constitucional.

O artigo 77 diz o seguinte: ‘Substituirá o presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á no de vaga, o vice-presidente’.

Quer dizer, temos que partir primeiro da consideração factual, e evidente, de que o vice-presidente da República não é vice-presidente do presidente. Ele é vice-presidente da República.

E a República é regida absolutamente nos termos dos dispositivos constitucionais.

Acima da vida do presidente, acima da vida do vice-presidente, acima de todos os sucessores que a Constituição prevê, está a legalidade constitucional.

O artigo 78 acrescenta: ‘Em caso de impedimento do presidente e do vice-presidente, ou de vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da presidência o presidente da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, e do Supremo Tribunal Federal’.

Agora, o vice-presidente toma posse não como presidente, mas como vice-presidente em substituição ao presidente. E a República continua, e a Constituição continua, e o vice-presidente pode tomar posse perante o Congresso Nacional.

Então é isso que acontecerá porque o próprio deputado Ulysses Guimarães, meu mestre, meu amigo, companheiro de Câmara há 40 anos, acaba de declarar que a situação vai ser solucionada de acordo com o texto da Constituição. E o texto é este que estou lendo. Então não há dúvida nenhuma.

O país tem que se preparar para uma sucessão periódica, e que seja a menos duradoura possível, porque graças a Deus o presidente da República Tancredo Neves estará em condições de reassumir a sua função dentro de pouco.’



15/03/2005 03:02



15/03/1985 03:02 – ‘Que seja Sarney’ (por Alexandre Garcia)



Esta será uma noite inesquecível. Nada parece verdadeiro. Quando tudo estava pronto para a cobertura da posse do primeiro presidente civil depois de outra longa noite inesquecível que começou em 1964, chega a notícia quase inverossímil: Tancredo foi hospitalizado e vai se submeter a uma cirurgia de emergência.

Não pode ser. Depois de tanto trabalho para uma boa cobertura da posse, a gente iria descansar, e agora isso. Deve ser boato. Afinal, são tantos…

Ligo para o Hotel Nacional, onde está a cúpula do futuro governo, e vem a confirmação. É verdade. O Aecinho saiu correndo para o Hospital de Base. O Doutor Pinheiro da Rocha vai operar Tancredo. E agora?

Confirmada a notícia absurda, assumi o estúdio que a TV Manchete havia montado junto a uma das secretarias da Câmara dos Deputados. Fiz o anúncio e entramos ao vivo já do Hospital de Base, mostrando luzes em janelas que supostamente seriam as da sala de cirurgia. Ouvimos alguns depoimentos e procurei na Constituição (de 1967) a solução legal para a questão. Ela diz que se o presidente ou o vice não tomar posse em 10 dias, será decretada a vacância, assume o Presidente da Câmara e convoca eleições para dentro de 90 dias. Como já está aprovada a emenda das diretas, eu acabei de anunciar que assume o Doutor Ulysses e que haverá eleição direta em três meses se o Doutor Tancredo não puder assumir a Presidência da República em 10 dias.

Algum tempo depois do meu anúncio, o colega Roberto d´Ávila invadiu o estúdio esbaforido: ‘Não é, não é! Assume o Sarney. O Afonso Arinos está dando entrevista na Globo dizendo que o ‘ou’ equivale a uma vírgula e que pode ser dada posse ao Sarney como vice no exercício da Presidência.

Muito bem, então será o Sarney. Reli a Constituição, duvido da interpretação, mas, afinal, é a palavra do Afonso Arinos contra a minha leitura. Que seja o Sarney. Não vai haver vacância, não vai haver Doutor Ulysses na Presidência.

Está prevalecendo a tolerância tropical. Melhor assim para não termos uma crise institucional, justo no ponto crucial da transição. Agora vamos à posse. Tomara que o Doutor Tancredo melhore. Bom dia!’



15/03/2005 03:15



15/03/1985 03:15 – É um tumor, não um divertículo



– Olha só – diz o cirurgião Pinheiro da Rocha para o médico Aloisio França, seu primeiro auxiliar.

Pinheiro da Rocha acabava de ter o primeiro contato visual com o local infectado no abdômen do presidente Tancredo.

Ele usa uma pinça arredondada nas pontas com 20 centímetros para levantar o tubo do intestino delgado. Aparece um calombo do tamanho de um limão-galego.

– Isto é aquilo? – pergunta Gustavo Ribeiro, presidente da Associação Médica de Brasília, convidado por Pinheiro da Rocha para testemunhar a operação.

– Pode ser divertículo – responde o cirurgião.

‘Aquilo’, no caso, queria designar tumor. E era. Resta saber se benigno ou maligno.

Ribeiro sai da sala com Gustavo Arantes, diretor do hospital, e Renault de Mattos. Do lado de fora, repete:

– É um tumor.

– O Pinheiro viu que era um tumor? – insiste Arantes, nervoso.

– Claro, não há dúvida.

(Quem me deu essa informação assistiu a cena e ouviu o diálogo.

O Jornal do Brasil teve a mesma informação.)



15/03/2005 03:32



15/03/1985 03:32 – Acabou a operação. Tancredo respira mal



Em torno das 2h45, o cirurgião Pinheiro da Rocha deu por encerrada a operação a que submeteu Tancredo.

Tancredo ficará na sala de cirurgia por mais duas ou três horas até seu quadro clínico se estabilizar.

Ao sair do centro cirúrgico, Pinheiro da Rocha foi cumprimentado pelo senador Mário Maia:

– Belo trabalho!

As pessoas que estavam do lado de fora começaram a deixar o hospital. Não sabem que Tancredo quase teve uma parada cardíaca durante a operação e que respira com dificuldade.

O tumor extraído, que médicos e enfermeiras chamam de ‘peça’, será agora cuidadosamente examinado por especialistas.

Pinheiro da Rocha espera saber ainda esta manhã se o tumor é benigno ou não.



15/03/2005 03:45



15/03/1985 03:45 – O peso da frustração (por Bob Fernandes)



Quando tudo acabou, falei com a redação e decidi ficar um pouco mais na minha sala do quarto andar do Hospital de Base, ainda escondido. As notícias são de que correu tudo bem. Estou exausto e daqui a pouco tem a posse. Do Sarney!!!

Entro num táxi, moído pela tensão… e aquela semente de frustração, agora já quase plena.

Peço ao motorista para que me deixe procurar uma música. Passeio pelo rádio. De repente, esbarro. Um choque. Milton Nascimento canta:

-…quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda….coração de estudante….

A campanha, recém acabada, me vem à cabeça, em fotogramas. As praças do Brasil entupidas de gente emocionada. O quebra–quebra provocado em cada aeroporto pela excitação de quem quer chegar perto do ‘dotô Trancredo’.

Os comícios festivos, a euforia que cerca a caravana em todo o país. O Brasil se move. E o momento ensaiado, aguardado, antes, durante e no encerramento de cada comício, antes do hino:

‘Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda….coração de Estudante…

Tancredo foi operado e passa bem, segundo os médicos. Mas na madrugada de Brasília, entendo, enfim, a frustração. E ela se liquefaz.



15/03/2005 04:12



15/03/1985 04:12 – Entre verdades e mentiras



Madrugada de muitas histórias – umas falsas, outras não.

Verdade: o general Walter Pires, ministro do Exército do ainda presidente João Figueiredo, procurou o ministro Leitão de Abreu, Chefe da Casa Civil, tão logo soube que Tancredo seria operado.

Disse a Leitão que iria para o prédio do Ministério do Exército. E que sondaria seus colegas de farda para tomar uma posição.

Era favorável à prorrogação do mandato de Figueiredo – pelo menos até que Tancredo pudesse assumir o cargo.

Desistiu de qualquer idéia quando Leitão lhe disse que, por engano, a demissão dos atuais ministros já fôra publicada no Diário Oficial.

– Então não sou mais ministro? – espantou-se o general.

– Nem o senhor, nem eu – respondeu Leitão.

O ministro foi dormir.

Verdade: os ministros do Supremo Tribunal Federal, moradores do mesmo prédio da Superquadra 313 Sul, se reuniram no apartamento do ministro Moreira Alves no início desta madrugada. Moreira é quem preside o Supremo.

Analisaram informalmente a Constituição para saber quem deveria tomar posse – Sarney ou Ulysses. A maioria concluiu que deveria ser Sarney. Dois ministros acharam que deveria ser Ulysses.

Verdade: o general Figueiredo telefonou já tarde da noite para o ministro Leitão de Abreu e disse que não transmitirá a faixa presidencial a Sarney.

A desculpa: presidente só passa faixa para outro presidente, e Sarney é vice. Motivo real: Figueiredo não perdoa Sarney por ter renunciado à presidência do PDS e aderido à candidatura de Tancredo.

Mentira: Ulysses pensou em assumir no lugar de Tancredo e estimulou parte do PMDB a exigir sua posse.

De fato, alguns deputados e senadores do PMDB mais exaltados cobraram a posse de Ulysses. O senador Pedro Simon, futuro ministro da Agricultura, ficou inconformado quando soube que assumirá Sarney.

Mas Ulysses foi ao Congresso nesta madrugada acalmar os ânimos.

Reuniu-se com José Fragelli, presidente do Senado, e com diversos líderes do PMDB. E foi firme com eles: Sarney tomará posse. É o que determina a Constituição.



15/03/2005 04:30



15/03/1985 04:30 – Ao invés de posse, agonia



Segue o depoimento que recebi há pouco de Valdir Zwetsch, editor do Jornal Nacional:

‘Brasília, 14 de março de 1985, ali pelas dez da noite.

Restaurante do Hotel San Marco. Numa mesa, cerca de trinta jornalistas da TV Globo. Repórteres, editores, produtores. Somos o time que a emissora importou do Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e outras praças para a transmissão da posse.

Todo mundo está comendo no hotel mesmo, pra deitar logo e acordar bem cedo. O dia amanhã vai ser histórico, e duro. Praticamente todas as emissoras vão transmitir em pool, e a Globo tem câmeras exclusivas em vários pontos, um helicóptero, e repórteres espalhados ao longo de todo o trajeto que o presidente Tancredo vai percorrer.

O perfeccionismo do chefão da cobertura, Woyle Gumarães, é um dos temas do jantar. No final da tarde ele reuniu a equipe inteira, quase cem pessoas, repassou o script da transmissão, e checou ponto por ponto o que cada um vai fazer. Aí recomendou que todo mundo fosse dormir cedo, e ficou lá, sozinho, revendo o plano mais uma vez.

No hotel, um garçom se aproxima da animada mesa com um telefone sem fio e pergunta: ‘Alguém aqui é o Gianey?’ Na mesa tem o Gilney Rampazzo, chefe de redação da Globo Brasília, e o Pinheirinho, coordenador de produção de jornalismo da Rede Globo, cujo primeiro nome é Wianey. Alguém brinca: ‘Tem Gilney e tem Wianey, qual você prefere?’ Outro completa: ‘Ih, só pode ser o Woyle. Esse cara não sossega!’

O Pinheirinho atende o telefone e fica branco. ‘Pessoal, vambora. O Tancredo acaba de ser internado pra uma operação de emergência’. É piada, né? ‘Não é. O Woyle acaba de botar um plantão no ar’. Saímos à toda do hotel. As notícias não são nada boas. A noite vai ser longa. Em vez de posse, temos que preparar a transmissão de uma agonia para todo o país.’



15/03/2005 04:45



15/03/1985 04:45 – Quem assistiu, me conte



Perdi o capítulo de ontem de ‘Corpo a corpo’, a novela das 8h.

Juro que acompanho a novela do Gilberto Braga desde o começo.

É verdade que de vez em quando não dá.

Mas perdi justo o capítulo onde Vânia tentaria convencer Teresa a procurar um médico, já que nem o padre conseguiu demovê-la da idéia de separar Eloá e Osmar para sempre.

Quem tiver assistido me diga como foi.

Rebeca também perdeu o capítulo. E até esta hora está na Globo.



15/03/2005 05:15



15/03/1985 05:15 – Depoimento de Fernando Henrique Cardoso



Futuro líder do governo no Senado, Fernando Henrique Cardoso (PMDB-SP) mandou por escrito seu depoimento a respeito do que viu e viveu nas últimas 48 horas. Ei-lo:

‘Estou me preparando para ir dormir. São três da manhã.

Meu Deus, que dias!

Dia treze, à noitinha, estava no bar do restaurante Piantella quando me chamou Fernando Lyra pelo telefone. Ele soubera que o Dr. Tancredo estava com apendicite e queria assuntar o que eu sabia, uma vez que eu tinha almoçado com Tancredo na véspera.

Eu não sabia nada. Fui ter com ele na Granja do Riacho Fundo para esclarecer que história era aquela de me haver designado para uma função nova, líder do governo no Congresso.

Eu soubera da novidade pelo Dr. Ulysses que me telefonou para indagar e não pude esclarecer nada porque estava por fora do assunto. Pedi, então, à dona Antônia, secretária do presidente Tancredo, uma conversa com ele. Lá estava Miguel Arraes e, depois de esperar um tempo, fui recebido por Tancredo em um alpendre e tivemos uma conversa rápida.

Ele me disse: não se preocupe; já falei com o Fragelli (presidente do Senado) e disse para ele derrubar umas paredes por lá e preparar para você uma sala bem grande, assim eles compreenderão quem será meu interlocutor.

Fiquei pensando: será que está me enrolando ou será assim mesmo? Em seguida me convidou para almoçar.

Durante o almoço, com dona Risoleta, Arraes e o casal Gigliotti, a única coisa que notei foi que Tancredo, a instâncias de sua mulher, teve de me passar o copo no qual lhe haviam servido vinho. Tomou uma sopa e comeu ligeiramente. Falamos sobre como era boa sua saúde. Despedimo-nos, e Tancredo levou Arraes e a mim a meu carro, muito amavelmente.

Ao sair, na portaria da estrada, disse aos repórteres que talvez ele estivesse com uma dor de garganta. Daí que a informação de Fernando Lyra me surpreendeu, mas não me inquietou.

Hoje, depois de tudo que aconteceu, talvez tivesse mesmo notado que algo não ia tão bem assim com o presidente. Mas, são águas passadas.

Vamos aos fatos. Dia agitado o de ontem, e eu que esperava um jantar calmo na embaixada de Portugal. Para lá fui. Havia muita gente. Mário Soares (que veio para a posse), Dr. Ulysses, o Pimenta e muitos outros mais. Tudo ia muito bem, com discurso e tudo mais até que, lá pelas dez horas, nós à mesa, veio a ligação telefônica: Tancredo estava no Hospital de Base.

Nem terminamos de comer e fomos para lá. Até agora não sei bem se foi isso mesmo o que aconteceu, tal minha surpresa.

O fato é que lá chegando, como eu tenho acesso à família, fui para a ante-sala do quarto onde Tancredo estava. Naquele momento ele conversava com o Dornelles. Logo depois, Dornelles saiu e disse que Tancredo concordara em se operar de apendicite ou qualquer outra coisa no aparelho digestivo, não estava claro.

Alguns minutos depois (que pareceram horas), vejo a maca transportando Tancredo que passou por onde eu estava e foi para o elevador. Resolvi descer um andar para conversar com quem andava por lá. Muitos seguiram para a sala de operações.

Conversei, em pé, no corredor, com Ulysses, Sarney, Fragelli, o general Leônidas e outros mais. Discutimos quem tomaria posse no lugar de Tancredo amanhã (hoje, na prática, porque já é de madrugada).

Sarney disse que faria o que nós achássemos certo, mas que não tinha posição definida, pois poderia ser Ulysses o sucessor constitucional. A certa altura Ulysses, com o sentido prático e realista que tem, disse: vamos ver com o Leitão como ele pensa.

Fomos, no carro do general Leônidas, bem apertados, os que anotei antes, menos o Sarney. Ninguém percebeu nossa manobra, salvo… que outro podia ser? O jornalista Moreno, que estava no portão da casa onde chegamos.

Tive a impressão de que o prof. Leitão de Abreu já estava dormindo. Demorou um tanto e chegou de gravata e paletó (esses gaúchos são tão formais…). Aí houve aquela discussão meio no ar: é o senhor quem o substitui, dr.Ulysses, disse o Leitão. Eu, não, é o Sarney. Resolvemos ler a Constituição juntos. Ulysses, Leitão e Fragelli podiam opinar. O general Leônidas e eu, não: nem advogados somos.

O general foi claro: vocês, dirigindo-se aos três, decidem. A decisão foi que seria o Sarney mesmo quem, pela Constituição, deveria tomar posse, provisoriamente, no lugar de Tancredo. Ainda houve uma pergunta sobre se Figueiredo passaria a faixa, mas o prof Leitão foi claro: Presidente só passa a faixa para outro Presidente. Negócio fechado.

Saí e fui com o Ulysses para a Câmara, agora há pouco. O pessoal fervilhava, o Freitas Nobre (deputado do PMDB) à frente de todos. Estavam certos de que seria o Ulysses quem amanhã (quer dizer, hoje) vai tomar posse. Ponto para o PMDB.

Nada disso, vai ser o Sarney mesmo. Todos ficaram jururus, mas a gente sabe como é o Dr. Ulysses: decidiu, está acabado.

Agora, na volta para casa eu vim pensando: será que vai dar certo? Enfim é só por uns dias, e o Tancredo logo volta do hospital e tudo entra nos eixos. Agora vou ver se consigo dormir.’



15/03/2005 05:45



15/03/1985 05:45 – Que estranha festa (por Beliza Ribeiro)



Oi Noblat, nem dormi ainda e já passa das 5h da manhã. E eu que estava chateada de ter ficado com o ‘pior’ trecho do pool que as emissoras de TV decidiram fazer para cobrir a posse, hein?

Pois é, na divisão a Band ficou com o Congresso e realmente achei que ia ser um deserto por lá, o trajeto do Tancredo tendo como pontos altos, pensava, a transmissão da faixa e o discurso.

Já era tarde e eu estava do lado do Fernando Lyra, no Piantella, ele brincando de ‘me belisca’ para acreditar que era o ministro da Justiça. Foi o Marco Aurélio, dono do pedaço, quem veio à mesa e avisou: ‘Telefone para o senhor, ministro’.

Lá foi o Lyra e voltou como uma bala, pegou o paletó nas costas da cadeira e nem disse tchau. Como o pernambucano não é de largar prato nem copo à toa, saí correndo e quem quase acabou internada depois fui eu. Tancredo estava com diverticulite. Isso foi anteontem.

Ontem, quando ele foi internado no Hospital de Base, fui uma das primeiras a saber e liguei para a Sílvia Jafet, minha diretora na TV, e pedi para ligar o link. A partir daí fiquei ao vivo, direto, até umas três ou mais da matina. No fim, quase tudo aconteceu no Congresso. Queriam dar o golpe no Sarney.

Era uma turma grande a consultar juristas e mais juristas e constitucionalistas para dar um jeito do Dr. Ulysses assumir. Os corredores do Congresso foram se enchendo e o entra e sai no gabinete do Velho não parava.

Todo mundo que tinha vindo para a posse foi pra lá. Até o Olavo Monteiro de Carvalho circulava, um tanto alto, e me deu entrevista assim mesmo, mas valia. Só umas duas horas depois de eu ter feito a primeira chamada é que a Globo chegou. Glória Maria, né?

No final, depois de se ter cogitado até da volta das Diretas Já, passando por outra votação no Colégio Eleitoral, o Ulysses Guimarães foi quem nos deu a notícia:– assume o José Sarney. Impressionante como a nossa noção de democracia ainda é fraca, não? Na verdade, não tinha o que se discutir. O Sarney é o vice, eleito pelas regras vigentes do jogo e ponto final.

Mas nesse país em que simpatia é quase amor, confesso que também passou pela minha cabeça que ‘seria legal’ o Ulysses, depois de tanta luta, chegar à Presidência. Legal, mas não legal.

Agora vamos torcer para o mineiro sair logo do hospital. E com aquele jeito dele de sempre, que com aquela carinha de santo… adora puxar o elástico do nosso sutiã!

Vou dormir, a gente se vê à noite na festa do Itamaraty. Que festa estranha vai ser essa, não?



15/03/2005 06:22



15/03/1985 06:22 – Vejam, aqui, o que a Globo mostrou



Às 7h em ponto entrará no ar o ‘Bom Dia’ da TV Globo apresentado pelo jornalista Carlos Monfort. Ele e os jornalistas Ricardo Pedreira e Paulo José Cunha entrevistarão o ministro Fernando Lyra, da Justiça, e o senador José Fragelli (PMDB-MT), presidente do Senado.

O ‘Bom Dia’ exibirá reportagens sobre alguns episódios que ocorreram de madrugada e que foram transmitidos ao vivo pela Globo.

Seguem, aqui, três vídeos:

1. Entrevista de Aécio Neves em que ele anuncia o fim da operação de Tancredo e diz que ele poderá tomar posse amanhã;

2. Pronunciamento do deputado Ulysses Guimarães, presidente do PMDB e da Câmara, onde ele diz que quem tomará posse no lugar de Tancredo será o vice-presidente José Sarney;

3. Entrevista do porta-voz da presidência da República, jornalista Antônio Brito, onde ele dá oficialmente as primeiras informações sobre o estado de saúde de Tancredo.



15/03/2005 06:47



15/03/1985 06:47 – As manchetes dos jornais



Folha de S. Paulo: ‘Tancredo é operado e se não puder assunmir Sarney toma posse’;

Estado de S. Paulo: ‘Tancredo operado. Sarney assumirá a Presidência’;

Jornal do Brasil: ‘Tancredo é operado e Sarney toma posse’;

O Globo: ‘Tancredo operado de apendicite aguda. Sarney pode tomar posse’.



15/03/2005 07:58



15/03/1985 07:58 – Para ler o que perdeu



Se você entrou agora ou há pouco neste blog e deixou de ler o que foi publicado desde o meio-dia de ontem, vá na caixinha aí do lado esquerdo, no alto, chamada ‘Arquivo’.

Clique na linha correspondente ao mês de março. E poderá ler tudo que foi postado até agora.

Aí do lado esquerdo, na caixinha chamada ‘Especiais’, tem artigos sobre Tancredo e o país que ele deveria começar a governar a partir de hoje. Tem também a íntegra do um livro lançado anteontem – ‘O Complô que elegeu Tancredo’.

O livro conta como Tancredo se elegeu e porque sua eleição apressou o fim do regime militar que completaria 21 anos no próximo dia 31.




15/03/2005 08:00



15/03/1985 08:00 – O risco de uma aventura inimaginável



Comentário da cientista política Lucia Hippolito:

‘O país amanheceu hoje completamente desorientado.

Depois de tanta esperança, depois de tanta festa, a decepção. Tancredo Neves não vai tomar posse no Congresso Nacional. Quem vai tomar posse é o vice, José Sarney.

Tancredo foi operado às pressas, e o Brasil inteiro reza para que ele se recupere.

Afinal, não sofremos tanto para, no final, entregar o poder a um filho da ditadura.

A transição brasileira caracterizou-se por ser uma ‘transição pela transação’, isto é, sem grandes rupturas, sem radicalismos, nem revanchismos, incorporando na nova ordem vários integrantes do antigo regime.

Até mesmo a eleição de Tancredo foi negociada, e a oposição precisou engolir como vice um dos políticos mais vistosos do regime militar.

Tudo para que houvesse uma transição pacífica. O país ainda não pode se dar ao luxo de um acerto de contas com a História.

A inflação, a dívida externa de 100 bilhões de dólares, a dívida pública na estratosfera, tudo isto recomenda muita prudência.

Por isso, o dr. Tancredo é o homem certo para liderar a transição.

O ministério escolhido por Tancredo é o resultado de uma rede tecida com habilidade e cautela. A equipe é fruto de alianças regionais e composições partidárias.

Por todas as razões, a recuperação de Tancredo é fundamental para que o novo governo possa implantar os planos e programas para o país. Caso contrário, embarcaremos numa aventura de conseqüências inimagináveis. A sociedade brasileira não merece passar por mais sofrimento.’



15/03/2005 08:31



15/03/1985 08:31 – O que Tancredo diria, se pudesse



Trechos do discurso que o presidente eleito Tancredo Neves não poderá ler hoje na cerimônia de posse dos seus ministros – talvez na próxima semana ele leia, quem sabe?

* ‘Este ministério terá sob os ombros a tarefa de implantar as transformações econômicas, políticas e sociais que constituem nossa plataforma eleitoral e que responde aos mais legítimos interesses da sociedade brasileira’.

* ‘Nesta mesa se reflete uma característica essencial da Nova República: a unidade do governo expressada em pluralidade partidária ampla e ponderável’.

* ‘Enquanto não for realizado esse trabalho e não for estabelecida uma prioridade de acordo com as diretrizes do meu programa de governo, a ordem é a seguinte: é proibido gastar’.

* ‘Que cada brasileiro, enfim, dê o melhor de si no exercício da responsabilidade intransferível de, com seu esforço consciente, plasmar para si e para seus filhos o futuro deste país’.




15/03/2005 08:51



15/03/1985 08:51 – Depoimento de Fernando Lyra



‘Como seria a estratégia política do início do governo? Este foi o assunto da longa conversa – das dez da manhã a uma hora da tarde – que eu tive com o Dr. Tancredo, na granja do Riacho Fundo, no último dia 10.

Ali mesmo ele me apresentou o coronel Alencar Araripe, que havia escolhido para ser o diretor-geral da polícia federal (aliás, o único cargo do ministério da Justiça que não foi diretamente escolhido por mim).

No dia seguinte, estive o tempo todo com Cristovam Buarque – que será o meu chefe-de-gabinete no Ministério da Justiça. Fazíamos os preparativos da posse que deveria ocorrer hoje.

Já eram oito horas da noite quando cheguei em casa. Minha mulher – Márcia – me avisou que Aecinho (Aécio Neves) havia telefonado e perguntado pelo número de telefone do Dr. Renaud Matos, diretor do Serviço Médico da Câmara dos Deputados.

Imediatamente tentei falar com Aécio, mas não consegui. Então, tentei o Dr. Renaud, que me informou que Aécio o havia procurado dizendo que uma irmã de Dr. Tancredo não estava passando bem.

Ansioso por notícias, logo fiquei sabendo de algo que me deixou ainda mais apreensivo: era o Dr. Tancredo que estava com uma crise de apendicite. Mesmo sabendo que o Dr. Pinheiro – médico cirurgião da Câmara – estava no Riacho Fundo cuidando dele, não diminuiu a minha preocupação. Nem quando tentaram me tranqüilizar dizendo que tudo seria controlado com medicamentos.

Não soube maiores novidades da evolução do quadro no dia seguinte. Mas ontem, o Dr. Pinheiro confirmou o que eu já temia: o quadro era de operação. Ele, porém, conseguiria contornar a situação para que a cirurgia só fosse feita depois da posse.

A partir daí a preocupação se transformou em angústia. Desde o último dia 10, só estive com Dr. Tancredo apenas na noite em que a revista Manchete lhe ofereceu um jantar. Não compareci à missa, ontem, porque fui representá-lo no jantar que lhe ofereceu o presidente português Mário Soares na embaixada do seu país. Lá estavam, entre outros, Fernando Henrique Cardoso e José Aparecido.

Em meio ao jantar, um telefonema de urgência aumentou o meu sobressalto. Era o senador José Sarney me informando que o Dr. Tancredo havia sido internado naquela hora mesma, no Hospital de Base. Ficamos como loucos, pedimos licença, e fui com Fernando Henrique para lá.

Dr. Ulysses, José Sarney, Francisco Dornelles, o general Leônidas Pires, o general Ivan – do SNI – e José Hugo Castelo Branco, estavam juntos, numa sala no andar cirúrgico. O assunto era um só: Dr. Tancredo sendo operado, quem tomaria posse? Ulysses – presidente da Câmara – ou Sarney – vice-presidente?

Saíram do hospital para reuniões com Leitão de Abreu – chefe da casa civil do presidente Figueiredo – e com o jurista Afonso Arinos de Mello Franco. Mais de duas horas foram ocupadas nisso. Voltaram com a decisão de que tomaria posse o vice, José Sarney.

Resolvida a angústia de quem tomaria posse, tivemos de ir – eu e Francisco Dornelles – à diretoria da Receita Federal no Ministério da Fazenda para refazer todos os ofícios com a nomeação dos ministros que haviam sido assinados por Dr. Tancredo e deverão, hoje, ser assinados por José Sarney.

De madrugada, às três horas, terminamos tudo.

Há pouco, por volta das sete e meia, tomei o café-da-manhã com Sarney no apartamento dele. Sarney consegue esconder bem o nervosismo, eu nem tanto.

Em breve, iremos até à Catedral de Brasília e de lá, no Rolls-Royce presidencial, Sarney seguirá para o Congresso onde tomará posse. Os médicos que operaram o presidente Tancredo garantem que ele deixará o hospital dentro de poucos dias. E que estará apto a assumir a presidência da República.

É o que desejo. Creio que é o desejo de todos os brasileiros.’



15/03/2005 09:00



15/03/1985 09:00 – Café com Sarney (por José Negreiros)



Cheguei ao Senado há pouco, depois de passar pelo apartamento do senador José Sarney na Superquadra 308 Sul. Fui a pé até ao apartamento que fica bem em frente ao meu.

Havia uma multidão lá. Todos ainda sob o forte impacto da tumultuada internação e cirurgia de Tancredo Neves. O rosto cansado e muito vermelho de Sarney traía a noite em claro.

Ele ficou até pouco depois da meia noite no Hospital de Base no meio da polêmica sobre quem deveria tomar posse – ele ou Ulysses Guimarães, presidente do PMDB e da Câmara dos Deputados.

Ao se despedir ainda no hospital do senador Marco Maciel, cérebro da dissidência do PDS que garantiu a eleição de Tancredo, Sarney lhe disse que ia embora porque não se sentia bem ali, onde a família Neves sofria com a doença de Tancredo.

Temia que pudessem vir a tê-lo na conta de um usurpador. ‘Na minha opinião, ele deveria ter ido para São Paulo, mas não me ouviram’, segredou a Maciel. Em seguida, recomendou a Maciel que acompanhasse de perto a tentativa de se levar o jurista Afonso Arinos de Melo Franco a conceder uma entrevista à TV Globo.

A tentativa deu certo. O que disse o jurista na televisão serviu para sufocar o debate em torno de quem deveria assumir a presidência da República.

Afonso Arinos disse que era Sarney. Expressou a opinião quase unânime dos maiores juristas do país.

No café da manhã, há pouco, e ainda muito tenso, Sarney mencionou mais de uma vez que a entrevista de Afonso Arinos havia sido muito importante para assegurar a estabilidade política do país.

No centro da mesa e das atenções, ele demonstrava preocupação principalmente com um núcleo de ‘resistência’ ao seu nome localizado no Senado. Dele faz parte seu conterrâneo e adversário Alexandre Costa, malufista.

Sarney é muito religioso. Até a hora de sair de casa para tomar posse falava em Deus. Difícil dizer onde estavam seus pensamentos. A cabeça dos políticos de seu grupo estava na decisão tomada pelo ainda presidente Figueiredo de negar-se a passar a faixa a Sarney. Figueiredo considera Sarney um traidor.



15/03/2005 09:20



15/03/1985 09:20 – A História oficial contada por Aécio



‘A cirurgia, segundo os médicos, foi um sucesso’, disse-me Aécio Neves, ao telefone, nesta manhã de 15 de março. ‘Afirmam que Tancredo está lúcido, se recupera bem e que estará pronto para tomar posse, mesmo que seja aqui no hospital’.

Secretário particular e neto do presidente eleito, Aécio integra o grupo que permaneceu reunido, durante a noite, no apartamento do Hospital de Base de Brasília. Ali estavam, entre outros, o deputado Ulysses Guimarães, o vice-presidente eleito José Sarney, o general Leônidas Pires Gonçalves, já escolhido para o cargo de ministro do Exército, e o senador Fernando Henrique Cardoso. Discutiram alternativas para o caso de Tancredo Neves não se recuperar a tempo de tomar posse, hoje.

Há três semanas, segundo Aécio, depois de cumprir em vários países uma estafante agenda de reuniões com chefes de Estado, Tancredo foi levado reservadamente a uma clínica em Brasília. ‘Ele não sentiu nada na viagem, mas desde que desembarcara no Brasil, ao final de fevereiro, queixava-se de dores abdominais.’

Diz que o avô resistia, desde então, aos apelos da família para consultar um médico. A visita à clínica ocorreu à noite depois de o presidente eleito encerrar uma jornada de reuniões e consultas para formação do ministério.

Tancredo deixou o escritório em que despachava na Fundação Getúlio Vargas e concordou em se submeter a um exame clínico acompanhado do neto e de Renault de Mattos, médico e amigo particular.

Lembra o alívio que sentiu ao ouvir a confirmação do diagnóstico feito vinte dias antes: a causa das dores era uma inflamação no divertículo, que exigia solução cirúrgica, mas que não dava motivo para alarme ou urgência, segundo avaliação dos médicos. Lembra também o que Tancredo disse a eles, na clínica:

– Eu preciso tomar posse. Depois, façam de mim o que quiserem.

Aécio conhecia bem os temores do presidente que dizia receber informações privilegiadas da área militar. Uma internação antes da posse poderia por em risco todo o processo construído desde a vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro.

Ele temia que uma internação hospitalar desse pretexto para um ato de retrocesso.

Tancredo voltou ao ritmo intenso de reuniões, tomando remédios e sendo monitorado pelos médicos através de exames de sangue diários. E seguiu assim até a noite passada, quando tudo mudou.

De manhã, parecia bem. Durante o almoço, compartilhado apenas com o neto e com a mulher, dona Risoleta, o avô se mostrara mais silencioso do que o costume.

Pouco antes das seis da tarde, a família completa (Tancredo, mulher, filhos e netos) seguiu até a Catedral Dom Bosco para assistir a uma missa. Ali, de tempos em tempos, Tancredo punha a mão no abdômen. De volta ao Riacho Fundo, o sinal de alarme.

Eram quase oito horas da noite e, à mesa do lanche, o avô sente-se mal, põe os talheres de lado e vai para o quarto em silêncio.

Aécio diz que começou imediatamente a procurar, por telefone, os doutores Renault e Pinheiro, médicos que acompanhavam o avô desde os primeiros exames. Ligou para vários lugares e levou quase uma hora para encontrá-los. Tancredo tremia no quarto dele.

Nesse meio tempo, chegou ao Riacho Fundo José Hugo Castelo Branco, indicado por Tancredo como ministro da Casa Civil, para recolher a assinatura do presidente nos atos de nomeação do ministério. O diálogo travado com Tancredo, no quarto em que ele descansava, volta inteiro à memória do neto:

– Meu avô, está aí o José Hugo com os atos do ministério. Vou pedir para ele voltar em outra hora.

– Não faça isso – responde Tancredo. – Dispensa o José Hugo, mas traz para mim esses atos. Vou assinar agora, pois eles são a garantia da transição.

E assinou. Daí em diante, o que Aécio consegue resgatar da memória é uma seqüência de acontecimentos quase desvinculada do tempo real. A chegada dos médicos, o exame rápido e a determinação de internar Tancredo no Hospital de Base.

Para a sugestão que apresentou de levar o avô para São Paulo, a resposta categórica do Dr. Pinheiro: ‘Se a família quiser ir para São Paulo eu simplesmente não acompanho. A minha responsabilidade termina aqui’. Debilitado na cama, Tancredo é informado apenas de que teria de fazer novos exames.

‘Uma situação difícil. Tancredo mal e o médico falando que sequer o acompanharia a São Paulo. Houve um consenso nosso de acatar a decisão deles’, justifica Aécio.

Tancredo de chinelos, numa irritação enorme, entra no carro do doutor Pinheiro, com doutor Renault e dona Risoleta. São seguidos, em outro carro, por dois de seus três filhos, dona Inês Maria e Tancredo Augusto, e por Aécio.

Na memória do neto tudo se torna mais rápido a partir da chegada ao hospital. Ele e Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo, dão ao presidente a notícia de que a cirurgia teria de ser realizada naquela mesma noite. ‘Foi difícil convencê-lo, mas, por fim, cedeu’. A notícia da internação se espalha atraindo jornalistas, amigos e desconhecidos ao hospital. ‘Aí começou um circo tremendo, porque levaram o Tancredo na maca para um local errado. Ele teve que passar por diferentes corredores. A notícia vazou nas rádios, as pessoas começaram a chegar ao hospital’, relata.

Alheia ao que ocorria nos corredores, a família aguarda no quarto. Aécio conta que nenhum dos familiares sabia que pessoas diversas, parlamentares, autoridades e funcionários entraram indevidamente na sala de cirurgia. ‘Não soubemos de nada. Estávamos num quarto do hospital aguardando o final da operação’.

Termina a cirurgia. Os médicos vêm com palavras de otimismo: ‘Foi feita, era um divertículo, está tudo resolvido. Tancredo está ótimo’, foi o que disseram a Aécio, segundo ele.

‘Nos dão a expectativa de que Tancredo estará bom, inclusive para tomar posse, mesmo que não seja formalmente, no Congresso’. Poderia tomar posse no hospital. Nesta manhã, Tancredo acordou e fez uma primeira caminhada pelo quarto.



15/03/2005 09:46



15/03/1985 09:46 – O novo governo



Eis os ministros do presidente eleito Tancredo Neves que logo mais serão empossados pelo presidente da República em exercício José Sarney:

Ministério da Justiça: Fernando Soares Lyra

Ministério da Marinha: Henrique Sabóia

Ministério do Exército: Leonidas Pires Gonçalves

Ministério das Relações Exteriores: Olavo Egydio Setúbal

Ministério da Fazenda: Francisco Oswaldo Neves Dornelles

Ministério dos Transportes: Affonso Alves de Camargo Netto

Ministério da Agricultura: Pedro Jorge Simon

Ministério da Educação: Marco Antonio de Oliveira Maciel

Ministério do Trabalho: Almir Pazzianotto Pinto

Ministério da Aeronáutica: Octávio Júlio Moreira Lima

Ministério da Saúde: Carlos Corrêa de Menezes Sant´anna

Ministério da Indústria e do Comércio: Roberto Herbster Gusmão

Ministério do Desenvolvimento Industrial, Ciência e Tecnologia: Roberto Cardoso Alves

Ministério das Minas e Energia: Antônio Aureliano Chaves de Mendonça

Ministério do Interior: Ronaldo Costa Couto

Ministério das Comunicações: Antônio Carlos Peixoto de Magalhães

Ministério da Previdência e Assistência Social: Francisco Waldir Pires de Souza

Ministério da Cultura: José Aparecido de Oliveira

Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente: Flávio Rios Peixoto da Silveira

Ministério da Habitação, Urbanismo e Meio Ambiente: Luiz Humberto Prisco Viana

Ministério da Habitação e do Bem-Estar Social: Luiz Humberto Prisco Viana

Ministério da Ciência e Tecnologia: Renato Bayma Archer da Silva

Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário: Nélson de Figueiredo Ribeiro

Ministro de Estado Extraordinário para Assuntos de Administração: Aluizio Alves

Ministro de Estado Extraordinário para Assuntos de Irrigação: Vicente Cavalcante Fialho






15/03/2005 10:10



15/03/1985 10:10 – Frases que a História guardará



* ‘Eu peço, pelo amor de Deus, me deixem até amanhã, e depois de amanhã façam de mim o que vocês quiserem. Mas eu tenho a obrigação…’ (Tancredo, já internado no Hospital de Base, mas ainda insistindo em tomar posse e resistindo a ser operado imediatamente.)



*’Minha maior preocupação é que o Figueiredo não transmita o cargo ao Sarney’. (Tancredo)



*’Conseguimos convencer o doutor Tancredo! Ele vai se operar’.

(Francisco Dornelles aos políticos reunidos na sala ao lado do apartamento onde Tancredo estava internado.)



*’Na minha área não há qualquer problema. Os senhores podem ficar tranqüilos’. (General Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército escolhido por Tancredo, aos políticos reunidos no hospital.)



* ‘Tem que ser o Sarney, Dornelles’. (Tancredo Neves, internado no hospital, a Francisco Dornelles.)



* ‘Não, eu não sou. Não quero criar dificuldade nenhuma’. (José Sarney, vice-presidente eleito, ao grupo de políticos que discutia, no hospital, quem deveria tomar posse.)



* ‘Mas o que diz a Constituição?’ (General Leônidas.)



* ‘Então assume o Sarney’. (Ulysses Guimarães, concordando com a interpretação de políticos e do general Leônidas de que, segundo a Constituição, o vice-presidente eleito deveria substituir Tancredo.)



* ‘Se é assim, eu tomo posse’. (Sarney)



* ‘Olhe, Pedro, já temos essa infelicidade que é a doença do Tancredo. Você acha que nós podemos criar um outro problema, com todos esses chefes de Estado aqui, esperando a posse? Se veio o ministro do Exército e disse que é o Sarney, e você vê o Sarney querendo assumir, como é que eu vou criar um problema dessa natureza?’ (Ulysses ao senador Pedro Simon, que insistia na tese de que Ulysses deveria tomar posse no lugar de Tancredo.)



* ‘E ninguém vai me mudar de opinião!’ (General Leônidas, depois da decisão do grupo em favor de Sarney.)



* ‘Disso eu não entendo nada. O que os senhores decidirem nós vamos fazer’. (General Leônidas aos políticos que, um pouco mais tarde, discutiam a Constituição e a posse de Sarney com o chefe do Gabinete Civil, Leitão de Abreu, na casa de Leitão.)



* ‘Não, o doutor Sarney não pode. Ele não assumiu! Como é que ele vai assumir, se ele não é vice-presidente? Ele é vice-presidente eleito, mas não empossado. Como é que ele vai substituir alguém que não foi empossado também?’ (General Figueiredo, ainda presidente, falando no telefone com Leitão de Abreu que estava reunido em sua casa com Fernando Henrique, Ulysses Guimarães, o general Leônidas e o presidente do Senado, José Fragelli.)



* ‘A faixa não se passa. Só de presidente para presidente’. (Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil de Figueiredo, para o presidente do Senado, que estava preocupado com o cerimonial da posse de Sarney.)



* ‘Sarney é vice-presidente do Brasil, não de Tancredo’. (Pimenta da Veiga, líder do PMDB na Câmara dos Deputados, citando frase do jurista Afonso Arinos, em discussão, no Congresso, com o deputado Freitas Nobre e parlamentares que queriam dar posse a Ulysses e não a Sarney.)






15/03/2005 11:07



15/03/1985 11:07 – Quer voltar a ser João



O último presidente da ditadura militar inaugurada no país em 31 de março de 1964 não passou a faixa ao seu sucessor, não desceu a rampa do Palácio do Planalto e preferiu literalmente escapar pelas portas do fundo.

Há 10 minutos, nervoso e apressado, o general de cavalaria João Baptista de Oliveira Figueiredo entrou no carro oficial que o aguardava e foi pela última vez à granja do Torto onde morou os últimos 12 anos – seis deles como presidente da República.

Ali, encontraria sua mulher, dona Dulce, pegaria ‘umas coisinhas’ e seguiria direto para a Base Aérea de Brasília. Deverá desembarcar no Rio de Janeiro no início da tarde. E viajar amanhã para seu sítio em Nogueira, região serrana do Estado.

No seu último expediente como presidente da República, destratou Sarney em conversas privadas e foi cordial com o presidente eleito Tancredo Neves. Visitou-o no Hospital de Base de Brasília. Não pôde vê-lo. Mas cumprimentou dona Risoleta Neves.

‘Voltarei a ser o João’, repetiu diversas vezes para os poucos ex-ministros do seu governo que foram vê-lo embarcar na Base Aérea. E se desculpou junto a jornalistas por ter dito há pouco tempo que gostaria de ser esquecido.

Não tem do que se desculpar. De resto, será esquecido, sim, e logo.






15/03/2005 11:20



15/03/1985 11:20 – Com os olhos de ontem



Dois trechos do discurso de menos de 10 minutos que o presidente da República em exercício José Sarney acaba de pronunciar ao dar posse ao novo ministério:

‘Eu estou com os olhos de ontem. E ainda prisioneiro de uma emoção que não se esgota. O Deus da minha fé, que me guardou a vida, quis que eu presidisse a esta solenidade.

Ele não me teria trazido de tão longe se não me desse também, na sua bondade, as virtudes da paciência, do equilíbrio, da coragem, do idealismo, da firmeza e da visão maior das nossas responsabilidades perante esta Nação e sua história.

(…)

Os nossos compromissos, meus e dos senhores agora empossados, são os compromissos do nosso líder, do nosso comandante, do grande estadista Tancredo Neves, nome que constitui a bandeira de união do país.’



15/03/2005 11:56



15/03/1985 11:56 – A festa de tia Jurema (por Ateneia Feijó)



Brasília acordou sem repicar de sinos, sem som de bandas de música e buzinaços programados para hoje, a partir das 6hs da manhã. Perplexos diante das manchetes dos jornais, os cidadãos comuns parecem duvidar da história de que Tancredo Neves foi submetido a uma cirurgia de emergência nesta madrugada, no Hospital de Base.

Aos poucos, a tristeza, o clima de desconfiança e o nervosismo diminuem com a notícia que vai se espalhando: Tancredo não está mais sob o efeito da anestesia e passa bem.

Sarney realmente tomará posse em seu lugar. Agora, a ordem oficial é a de manter a programação da festa. Comemorar a inauguração da Nova República! O povo não se faz de rogado. O trio elétrico de Vitória da Conquista aciona imediatamente suas bandas Chicletes com banana e Te conquista, na Esplanada dos Ministérios, bem em frente ao prédio do DASP. São 7hs e 45min.

Do outro lado, um grupo de maranhenses acende a fogueira, próximo ao prédio do Ministério das Comunicações. Aquece os pandeiros de couro de bode e madeira de jenipapo para o batuque do bumba meu boi de Sobradinho. Sentada defronte ao Ministério da Justiça, espalhando a saia rodada de filó de nylon amarelo no gramado, Jurema da Conceição Mateus não perde a esperança ‘de vender pastéis no Palácio, para Dr. Tancredo’.

Nascida no Morro da Mangueira, íntima de Dona Neuma, Clementina de Jesus, Zica e Cartola, vive em Brasília desde quando seu marido ‘servia o Presidente Juscelino’. Para quem a conhece de perto, ela é a tia Jurema.

Às 9 horas, os estudantes goianos Wilma Alves, 20 anos e Daniel Rocha Couto, 26 anos, que madrugaram na esplanada para ver Tancredo subindo a rampa, não se dão por vencidos. Aproveitam para namorar e declarar com simplicidade: ‘Se o povo esperou 20 anos, não custa nada esperar mais alguns dias’.

Junto deles, vestidas nos seus hábitos cinzentos e com lenços brancos na cabeça, duas irmãs de caridade passam ligeiras, evitando conversa: ‘Viemos aplaudir o presidente civil’. O sol começa a esquentar. A multidão aumenta.

Uma tropa de cavaleiros gaúchos pampeiros, de bombachas, botas, guaiacas e lenços maragatos desfila pela via asfaltada de acesso ao Congresso. As moças, de vestidos longos e colorido exibem-se no gramado lateral.

Na frente do Palácio do Planalto, nove bandas de música das cidades mineiras de Caetés, Lafayete, Matozinho, Uberlândia, João Monlevade, D.Silvério, Ipiranga e Mariana afinam o tom. Ouve-se de longe as músicas Peixe Vivo e Oh Minas Gerais tocadas e cantadas em alto som. No meio do povão, o auditor fiscal do Ministério da Fazenda, Newton Alves de Oliveira, 52 anos, e eleitor antigo de Tancredo Neves glorifica-se contando que durante a campanha eleitoral de 1982 hospedou em sua casa, no Carmo do Parnaíba, o então candidato Tancredo.

Algumas pessoas olham seus relógios com inquietação. A posse está atrasada. Já passa das 10 hs quando finalmente é aberta a sessão no plenário do Congresso. O povo acompanha a sucessão presidencial por meio dos alto-falantes instalados na Esplanada. Aplausos para o nome de Tancredo e vaias para o de Sarney… Começa a divulgação dos nomes das autoridades estrangeiras presentes. Mais aplausos, principalmente para o Presidente Alfonsin, da Argentina. E mais vaias para Strossner, do Paraguai e George Bush, Vice-Presidente dos Estados Unidos.

Na praça do Congresso, um corre-corre. No meio da multidão, o menininho Ariata, de um ano, filho do controlador de vôo matogrossense Ademir Faria e da paraense Cristina, passeia completamente nu no gramado. Alguns fotógrafos disparam em sua direção para retratá-lo como ‘símbolo’ da Nova República. Ariata, incomodado, veste o short. ‘A Nova República ainda está acanhada’!!! grita alguém, sem dar para ver de onde.

De bolsa branca bordada, saia de linho bege e uma bengala, Dona Francisca Daniel da Silva, cearense, 78 anos, sorri e cochicha: ‘Espero chegar aos 100 anos para acompanhar essa nova geração crescendo dentro desse processo democrático’.

Ao meio-dia, a multidão se dispersa. Entre o Ministério do Exército e o prédio do Departamento Administrativo do Serviço Público, um jovem casal de gaúchos se destaca. Brinca montado a cavalo, trotando pelo gramado. Bem próximo, está a carioca tia Jurema, do Morro da Mangueira. Ela suspende levemente a ponta da saia rodada de filó amarelo e desfila imponente pela Esplanada dos Ministérios, integrada à paisagem festiva da Nova República.

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