Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Castello e minhas vírgulas

Por Paulo José Cunha em 08/03/2005 na edição 319

Tudo começou por causa de umas vírgulas. Explico: recém-desembarcado na redação do Jornal do Brasil, em 1976, a convite de Juarez Bahia, que chefiava provisoriamente a sucursal, travei conhecimento com um time de repórteres e comentaristas que formavam a nata do jornalismo brasiliense/brasileiro de então. Confira só o nível: Tarcísio Hollanda, Abdias Silva, Carlos Max Torres, Teresa Cardoso, João Emílio Falcão, Walfrânio Carvalho, Luiz Inácio de Castro, Luiz Orlando Carneiro, Flamarion Mossri e muitos outros. Sobrepairando acima de todos nós, um cidadão baixinho, atarracado, andar acelerado e uma voz terrível, engrolada, que mais parecia entrar que sair da boca, sinal, talvez, da vocação de veroz devorador de informações que, processadas naquela cabeça redonda e chata, transformavam-se na leitura obrigatória de quem quisesse, no Brasil de então, saber das coisas da política e, muitas vezes, da economia e das relações internacionais.

Era assim aquela figura que, carinhosamente, todos nós chamávamos apenas de Castello ou Castellinho. E as vírgulas? Pois então. Já vou contar.

Naquela época, a redação fazia um rodízio, e cada plantão tinha um chefe escalado pela direção. Este chefe do plantão tanto podia ser um experiente João Emílio Falcão como um estreante Paulo José Cunha. Um sábado de manhã, poucos dias depois de ter começado no JB (escrevia a coluna ‘Falecimentos’, veja só…) fui escalado para chefiar um plantão. Coisa de 9, 10 da manhã, entra na redação, esbaforido e falando com aquela voz ininteligível para os não iniciados, o nosso Castellinho. Foi entrando e já me entregando as duas laudas da famosa ‘Coluna do Castello’, escrita em espaço 1 – truque que aprendera com Nelson Rodrigues, para evitar que bisbilhoteiros metessem a caneta e adulterassem o sentido das palavras. Entendi, daquele estranho dialeto javanês com traços de ídiche, que era para eu transmitir pelo telex para a edição de domingo. E alguma coisa como: ‘Revisa aí’.

Noite insone

O texto queimava nas mãos. Ora, quem era Paulo José Cunha para revisar um texto – uma peça pronta e acabada como aquela? Deu meia-volta e foi curtir o sábado dele. E lá fiquei eu, aguardando a chegada do teletipista. Mas a curiosidade, atributo fundamental a qualquer repórter digno deste nome, iria me trair. Comecei a passar os olhos no texto. Frases curtas, diretas. Gracilianamente despidas de adjetivos. Texto quase seco. Preciso. Mas, aqui e ali, fui dando pela falta de umas vírgulas que bem poderiam amenizar aquela aridez. Os acentos, lembro bem, estavam todos lá, embora desnecessários porque o telex não os transmitia. Tudo no telex era em maiúsculas e sem acentos. Mas, já que me havia recomendado que revisasse, mandei brasa: uma virgulazinha aqui, um ponto acolá – que tal um ponto-e-vírgula para deixar mais elegante este raciocínio aqui? E assim fui salpicando o texto, até então imaculado, com alguns sinais de pontuação. Afinal, eu era o chefe do plantão. Tinha de zelar pelo material transmitido. E se alguma coisa ficasse sem revisão? A culpa seria atribuída a mim. Logo, vamos canetear o texto, aprimorá-lo. Afinal, todo mundo comete seus pequenos deslizes. E Castello, certamente, na pressa de entregar a coluna para aproveitar o sábado, teria cometido lá seus pecadilhos. Ajudá-lo, pois. Burilar. Melhorar.

Dia seguinte, lá pelas 10 da manhã, chega o jornal, e lá estava a coluna. Conferi tudo. Perfeito. Vírgulas, pontos e pontos-e-vírgulas, tudo no seu devido lugar: a perfeição. Isto até tocar o telefone e aquela voz abissal e engrolada de quem falava com duas bolas de bilhar na boca perguntar: ‘Quem mexeu no meu texto?’ E eu, orgulhoso: ‘Eu’. ‘Pois amanhã cedo eu quero ter uma conversa com o senhor. Na minha sala’. A última frase já foi dita claramente, com todos os efes e erres, sílabas escandidas, dicção segura. Parecia até locutor de rádio.

Claro que não dormi de domingo pra segunda, literalmente apavorado e só então me dando conta do sacrilégio – maior que atrevimento – que cometera: havia caneteado o texto do maior comentarista político do Brasil. Com certeza, viria punição. Punição é pouco: demissão sumária, o nome escrito no rol dos culpados de crime inafiançável. Além da pena capital na cadeira elétrica ou no garrote vil.

Alinhavando texto

Cedinho estava na sala dele, que ficava ao lado da redação, à direita do elevador. Tinha direito a sala e secretária exclusivas. E eu? Piauiense perdido no Planalto Central, sem eira nem beira, ali, esperando a espinafração ou execução a bala. Chegou, não me cumprimentou, entrou e, depois de algum tempo, mandou me chamar. À frente da mesa, estático, ouvi a pergunta: ‘Foi você?’

– Foi.

– Com que autorização?

– A autorização de chefe do plantão, que deve zelar pela qualidade do material transmitido para o Rio – recitei o que havia decorado na noite de agonia.

– De onde você é?

– Sou do Piauí.

– Ah, pensei que fosse cearense.

Sobre a mesa, o texto original e minhas malditas vírgulas. Demorou-se um tanto observando, até dizer, para minha estupefação:

– Até que não ficou ruim. Melhorou algumas coisas. Você deve ter feito um bom ginásio. Mas não faça de novo.

E, para minha felicidade, cumprimentou-me, perguntando:

– Há quanto tempo não vai ao Piauí?

O resto foi o início de uma gostosa amizade que se estendeu até perto de sua morte. Uma vez, fomos juntos a Teresina, participar do lançamento de um livro de Vanderley Pereira. Coquetel no Luxor Hotel. Vanderley, jornalista-repentista, deu um show. Castello assistiu a tudo. De repente, cadê Castello? Havia desaparecido. Procuramos pelas redondezas, nada. No quarto do hotel, nem notícia. Onde se enfiara?

Dia seguinte, pela manhã, ele estava no café do hotel. Contou que não resistira à saudade. E, animado por alguns goles no coquetel, saíra andando a esmo, à procura de uma Teresina antiga, a Teresina de seu tempo. Passara a noite caminhando solitário pelas ruas. Fora à Praça do Liceu, rever a escola onde havia estudado. Esticara até à Rua da Estrela. Percorrera um roteiro de lembranças. Não disse se chorou. Mas o semblante calmo denunciava um doce reencontro com o passado. O maior comentarista político do país, terror de poderosos de todos os naipes, tinha virado um menino emotivo, naquela noite.

Na redação, em Brasília, era sempre a figura mais paparicada. Vez por outra dava o ar da graça. Um dia, o hoje ministro e presidente do STJ Edson Vidigal, então repórter, que tinha mesa ao lado da minha, rasgou sem querer um texto que acabara de redigir. Na falta de cola ou durex, conseguiu sabe-se lá onde, agulha e linha. E ali mesmo pôs-se a recompor, feito costureira, as páginas dilaceradas. Chamei a atenção do Castello: ‘Olha aquilo ali’. E ele, maroto: ‘E eu pensava que alinhavar um texto era outra coisa…’ A gargalhada foi unânime, em toda a redação. Nem Vidigal, até então aborrecido com o acidente involuntário, agüentou. Caiu na risada.

Que errasse sozinho

De outra feita, fizemos um almoço em homenagem a Falcão, no restaurante da Câmara. Castello compareceu, e ficou ao lado de Petrônio Portella, à mesa. Virou várias doses do precioso líquido escocês. O almoço rolava. E Castello, o tempo todo, colado em Petrônio. Saiu de lá baqueado, como de resto saímos todos os convivas, lá pelas 4 da tarde. Dia seguinte, o milagre: na famosa Coluna, Castello reproduzia (sem reparo algum por parte de Petrônio), uma entrevista reveladora sobre o chamado Pacote de Abril, quando se criaram os famosos senadores biônicos. Furo nacional, repercussão obrigatória em toda parte. Nem o scotch era capaz de turvar memória tão prodigiosa. E olha que não anotava nada: guardava tudo na cabeça. Depois, vim a saber que aplicava este truque com freqüência – dava um pileque no interlocutor e este, supondo que também ele estava de pilequinho, abria a guarda. E quando se deparava com todas as informações na Coluna caía pra trás, sem entender onde diabos aquela figura miúda conseguia reter tanta informação.

É assim que guardo a lembrança de Castello. Sobretudo, da frase que me serviu de estímulo para seguir nessa profissão maluca. O fulminante ‘com que autorização?’ transformara-se no ‘até que não ficou ruim. Melhorou algumas coisas’.

Chefiei vários outros plantões mas, para não cair novamente em tentação, limitei-me durante os seis anos seguintes a receber o texto da coluna e entregá-lo diretamente ao teletipista. O mestre que errasse sozinho. O que, aliás, não acontecia, tanto que ele foi parar na Academia. Eu é que tinha sido pretensioso. Afinal, quem era Paulo José Cunha para se meter a besta de corrigir um texto assinado por Carlos Castello Branco?

******

Jornalista, professor e pesquisador em Comunicação; esta coluna faz parte de seu projeto acadêmico na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (pedidos para paulojosecunha@uol.com.br). Edições anteriores: http://caid.sites.uol.com.br/.

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