Segunda-feira, 25 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Criador e criatura: 110 anos

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite em 16/06/2015 na edição 855

É notória a contribuição dos gaúchos nas mais diversas áreas do conhecimento. No universo da Arte, um nome deixou sua marca indelével de criatividade e talento: Antônio Caringi Filho (1905-1981).

Nascido em Pelotas no dia 25 de maio, o “Escultor dos Pampas” era filho de Antônio Caringi, conhecido chapeleiro, e de Josephina Sicca Caringi. Em Bagé, completou o ensino primário e ginasial, bacharelando-se, na capital gaúcha, em Ciências e Letras.

Desde menino, nosso renomado escultor demonstrava sua aptidão artística. Com o professor Francis Pelichek, estudou desenho no Instituto de Belas Artes. No ano de 1925, participou do Salão de Outono na capital gaúcha, expondo alguns de seus trabalhos. Este evento tornou público o talento do jovem artista, despertando admiração de todos os presentes. Em setembro de 1925, a revista carioca Ilustração Brasileira registrou:

“Caringi (Antônio Caringi Filho) é um grande escultor… de 18 anos que deve apenas à própria e maravilhosa intuição tudo o que sabe. Que energia singular lhe dá à obra tão funda expressão de força e de beleza!” Conquistando com sua arte o mundo, Caringi difundiu seus trabalhos, em galerias particulares e oficiais nas cidades de Munique, Berlim, Nápoles, Havana e Nova York.

Exposição do Centenário Farroupilha

Cidadão cosmopolita, o nosso artista conviveu com Hans Stangl, Hermann Hahn e Arno Breker (o escultor preferido de Hitler), com os quais aprimorou sua técnica, angariando notoriedade na qualidade de escultor. O contato com esses mestres se deu a partir de sua viagem à Europa, em 1928, como adido cultural no Consulado do Brasil em Berlim. Na cidade de Munique cursou Escultura na Academia de Belas Artes, especializando-se, depois, na cidade de Berlim, em plástica monumental com a figura ícone de Arno Breker.

Seus momentos de intenso fluxo de aprendizado e criação contrastam com os horrores da Segunda Guerra (1939-1945). Em entrevista realizada pelo saudoso pesquisador Rodrigues Till, a filha do escultor, Fernanda de Assumpção Osório Caring, declarou que seu pai auxiliou muitos judeus a obterem visto em seus documentos, visando a emigrarem para o Brasil. À noite, por motivo de segurança, Caring, em seu carro, deslocava-se para outros lugares, evitando, desta forma, deparar-se com a surpresa de um bombardeio.

Concluído os dez semestres de seu curso, em Munique, Caringi realizou importantes trabalhos que lhe encomendavam do Brasil. Entre outros, destaca-se o monumento a Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), presidente da República Rio-grandense. Este monumento foi esculpido em seu atelier na cidade de Munique. Inaugurado, em 15 de janeiro de 1936, com a presença de Caringi, constituiu-se num grande evento cívico no encerramento das comemorações do Centenário Farroupilha (1835-1935). Durante a gestão do prefeito Alberto Bins (1869-1957), cinco anos transcorridos, essa estátua foi transferida para a Praça Piratini. O Correio do Povo, o jornal mais antigo em circulação, na capital gaúcha, anunciou o evento na edição dominical de 12 de janeiro de 1936:

“Quarta-feira próxima será solenemente encerrada a Exposição do Centenário Farroupilha, o certame máximo da América. O programa desse dia é extenso e deverá servir para encerrar de uma maneira brilhantíssima o grandioso certamente que teve repercussão internacional.”

Um marco de gauchicidade

A Revista do Globo (1929-1967), verdadeira referência cultural da mídia impressa em nosso Rio Grande, registrou a trajetória cultural do mestre Caringi na Alemanha, constituindo-se em importante fonte para os pesquisadores. Entre outras matérias, a edição de 26 de setembro de 1931, que faz parte do acervo do Museu da Comunicação Hipólito José da costa, com o título “Uma das glórias do Brasil moço”, comentou:

“Acha-se em Munique, em estudos de aperfeiçoamento, o jovem escultor porto–alegrense A. Caringi. Temos o prazer de estampar nesta página a reprodução de alguns trabalhos do vigoroso artista (…).”

Na condição de diretor da Revista do Globo, a partir de 1932, Erico Veríssimo deu destaque ao talento de Antônio Caringi, Nessa importante revista, foi publicada uma série de artigos sobre o jovem e talentoso artista. Nosso escritor também foi homenageado por Caringi que o retratou numa escultura. Erico e Caringi foram contemporâneos, pois ambos nasceram em 1905. Além do fato cronológico, é a história do Rio Grande do Sul que está presente em suas obras. O primeiro, em sua genial produção O Tempo e o Vento, desenvolveu a história da formação do Rio Grande do Sul, enquanto o segundo elegeu como temática, em muitas de suas esculturas, a figura do homem gaúcho.

Antônio Caringi retornou ao Brasil em 1940, trazendo em sua mala a experiência sofrida da guerra e a fama de “Escultor dos Pampas”. Dois anos depois, em setembro, ele se casou com a poetisa Noemi de Assumpção Osório, também, natural de Pelotas. Desta união nasceram seis filhos.

Entre seus importantes trabalhos, destaca-se a estátua “O Laçador”. Inaugurada em 20 de setembro de 1958, está presente no imaginário popular como um marco de gauchicidade, sendo reproduzida em postais, cartazes, chaveiros e camisetas que povoam as lojas que fomentam o turismo no estado.

Uma referência a um evento importante

A ideia de criar um monumento, que representasse a cultura e a tradição do povo gaúcho, remete-nos ao Centenário da Revolução Farroupilha (1935) e ao ano de 1940 na gestão do prefeito Loureiro da Silva (1902-1964).

Por ocasião das festividades do Centenário Farroupilha (1935), organizado pelo prefeito Alberto Bins (1869-1957), foi aprovada, em concurso, a escultura do artista Marcos Bastos. Este trabalho, denominado de Bombeador, representava um gaúcho a cavalo, tendo recebido, na época, efusivos elogios das autoridades e do escritor Alcides Maya (1878-1944), primeiro gaúcho a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1914.

Passados cinco anos, em 1940, o prefeito José Loureiro da Silva (1902-1964), durante os festejos do bicentenário de fundação de Porto Alegre, propôs a inauguração de um monumento que representasse a cidade. Nessa ocasião, o prefeito se lembrou da escultura premiada de Marcos Bastos para ser colocada na entrada da Avenida Farrapos. Naquela época, o ano de 1740 era considerado o marco da fundação de Porto Alegre, porém, em 1971, um documento comprovou o equívoco histórico, mudando-se àquela data para 26 de março 1772. Com o título “Um Monumento na Avenida Farrapos”, o jornal A Nação de 18 de maio de 1940, registrou a proposta de Loureiro da Silva na seção de Diversas Notícias:

“Ao que estamos informados, o prefeito Loureiro da Silva pretende enriquecer o patrimônio artístico da cidade com uma obra de real mérito escultural e profunda significação rio-grandense. Trata-se da fundição, em proporções gigantescas, da maquete intitulada Bombeador, de autoria do escultor Marcos Bastos, para colocação na entrada da Avenida Farrapos (…).”

O ideal de Loureiro da Silva não se concretizou pois a estátua não saiu da maquete de gesso. Infelizmente, apagou-se da memória esse monumento e seu idealizador, Marcos Bastos, que, também, foi um dos organizadores do Pavilhão Cultural da monumental Exposição do Centenário Farroupilha (1935) durante o governo do general Flores da Cunha (1880-1959). O Correio do Povo de 12 de janeiro de 1936, na página 10, fez o registro fotográfico da escultura “O Bombeador”. A denominação, que o local recebeu de Parque Farroupilha, é uma referência a este importante evento que assumiu dimensões internacionais.

Símbolo oficial de Porto Alegre

Dentro do contexto político do Estado Novo (1937-1945), criado por Getúlio Vargas (1882-1954), os partidos políticos foram extintos, queimaram-se as bandeiras estaduais e foram banidos os símbolos regionais. É provável que, naquele período de intensa repressão política, o projeto de Loureiro da Silva, em inaugurar uma estátua que exaltasse os ideais farroupilhas, não se concretizasse.

Ainda transcorreriam dezoito anos para que, finalmente, pelas mãos talentosas de Antônio Caringi, o ideal do prefeito José Loureiro da Silva se concretizasse. Inaugurada em 20 de setembro de 1958, “O Laçador” marcou as comemorações do 123º aniversário da Revolução Farroupilha (1835-1845). Medindo quatro metros e quarenta centímetros de altura e pesando em bronze três mil e oitocentos quilos, a estátua teve várias denominações: Bombeador, Boleador e, finalmente, Laçador. Além desta obra, que é considerada um ícone da tradição gaúcha, várias personalidades foram imortalizadas pelas mãos de Caringi, como Getúlio Vargas (1882-1954), Loureiro da Silva (1902-1964), Raul Pilla (1892-1973), Alcides Maya (1878-1944) Daltro filho (1882-1938), entre outros.

“O Laçador” nasceu no Rio de Janeiro, no ateliê de Caringi, na Praia de Botafogo. Durante as festividades do IV Centenário de São Paulo, a estátua esteve exposta no Parque do Ibirapuera no Pavilhão do Rio Grande do Sul. Adquirida pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, foi inaugurada, na entrada da Avenida Farrapos numa homenagem à figura do gaúcho. Antônio Caringi se inspirou na figura do homem campeiro, tendo sido modelo, durante a execução da obra, o tradicionalista João Carlos d’Ávila Paixão Côrtes, nascido, em Livramento, no dia 12 de julho de 1927.

Como patrimônio da cidade, por lei complementar nº 279 de 17 de agosto de 1992, “O Laçador” foi tombado, pela Secretaria Municipal da Cultura, de acordo com edital publicado na imprensa, em 17 de julho de 2001. Ainda, em 1991, por votação popular, a estátua foi considerada símbolo oficial de Porto Alegre, confirmando a expressão Vox Populi Vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus).

A formação histórica da cidade

Antes da inauguração oficial d’O Laçador, ocorreu uma homenagem junto à estátua de Bento Gonçalves da Silva (1778-1847) na Praça Piratini, cujo trabalho, também, foi executado por Antônio Caringi.

No ato de sua inauguração, em 20 de setembro de 1958, o prefeito Leonel de Moura Brizola (1922-2004) discursou na Praça do Bombeador, destacando a grandeza do Rio Grande, seu povo e sua tradição. Suas palavras emocionaram a multidão presente. Alguns consideram que seu discurso foi fundamental para alavancar sua campanha para governador do estado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Os detalhes do evento foram registrados pelo Correio do Povo de 21 de setembro de 1958.

Passados quarenta e oito anos da sua inauguração, o monumento foi transferido, em 11 de março de 2007, para o Sítio do Laçador, localizado em frente ao antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, a uma distância de seiscentos metros do seu antigo lugar. O monumento se encontra numa elevação que recebeu a denominação de Coxilha do Laçador. Os custos financeiros foram de um milhão de reais e o motivo de sua transferência foi a construção, naquele local, do Viaduto Leonel Brizola.

Na ocasião da sua transferência, o tradicionalista Paixão Côrtes, que serviu de modelo a Caringi, não acompanhou a mudança da estátua em virtude de uma hospitalização causada pela emoção de ver o monumento transferido do local onde fora inaugurado em 1958.

Há discussões quanto à representatividade da estátua “O Laçador” como símbolo de Porto Alegre. Estas questões se elucidam a partir de pesquisas aprofundadas acerca da formação histórica da nossa cidade, realizada por importantes nomes da nossa historiografia, como Sérgio da Costa Franco, Sandra Jatahy Pesavento (1946-2009), Helga Piccolo, Vera Maciel Barroso, Zita Possamai, entre outros abnegados pesquisadores, que garimpam, nos arquivos e bibliotecas, as informações tão esclarecedoras acerca do nosso passado.

Última obra foi um Cristo crucificado

O jornalista Walter Galvani, em seu livro A difícil Convivência (2013), aborda com muita propriedade a situação política de Porto Alegre no contexto da Revolução Farroupilha (1835-1845). Os grandes centros urbanos à época, como Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, permaneceram na maior parte do tempo em poder dos imperiais. A ideia de que a capital comungava com os ideais farroupilhas é equivocada.

Um breve histórico pode nos esclarecer quanto a esta discussão sobre a legitimidade da estátua “O Laçador” constituir-se em símbolo de Porto Alegre. Invadida pelos farroupilhas em 20 de setembro de 1835, a capital da província retornou ao poder imperial em 15 de junho de 1936, sob o comando do major Manuel Marques de Souza (1804-1875), futuro Conde de Porto Alegre. Apesar das tentativas de retomá-la novamente, não houve êxito por parte dos revolucionários, que a sitiaram por três vezes, entre 1836 a 1840, permanecendo a mesma nas mãos dos legalistas até o Acordo de Paz de Ponche Verde em 1845.

Por ter resistido ao cerco dos farroupilhas, a capital gaúcha recebeu do imperador D. Pedro II, em 1841, o título de “Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre”, registrado no brasão da cidade que foi criado pela lei 1030, em 22 de janeiro de 1953. A lei foi assinada pelo prefeito Ildo Meneghetti (1895-1980), sendo o responsável pelo desenho o artista Francisco Bellanca (1895-1974).

Diante da realidade dos fatos históricos, somos direcionados a refletir… Por que um monumento, inaugurado com grande destaque, no dia 20 de setembro, data magna da Revolução Farroupilha (1835-1845), é símbolo oficial de uma cidade que recebeu do imperador um título por sua lealdade ao regime monárquico?

Há os que defendem que a estátua seja símbolo do Rio Grande do Sul, pois o arquétipo do gaúcho campeiro se insere dentro do contexto da nossa formação histórico-cultural.

Ainda que “O Laçador” suscite discussões quanto à sua representatividade como símbolo de Porto Alegre, ele segue, ao longo dos anos, recebendo quem chega a nossa cidade. Como um velho amigo, ele abraça todos com o laço da hospitalidade gaúcha.

A última obra de Antônio Caringi foi um Cristo crucificado. Enquanto esculpia, nosso artista sofreu um acidente vascular cerebral, vindo depois a falecer. O criador d’O Laçador nos deixou para esculpir querubins no dia 30 de maio de 1981.

Referências Bibliográficas

ASSIS Luiz Antônio; GOMES, Paulo. Antônio Caringi – O escultor dos pampas. Porto Alegre, Ed. Nova Prova, 2008.

GALVANI, Walter. A Difícil Convivência. Porto Alegre: Ed. AGE, 2013.

PAIXÃO, Antonina Zulema. A escultura de Antônio Caringi – Conhecimento, Técnica e Arte. Pelotas: Pelotas, Ed. Universitária UFPel, 1988.

TILL, Rodrigues. Antônio Caringi – O escultor do Rio Grande do Sul em seu centenário. Porto Alegre, Ed. Evangraf, 2005.

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Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do setor de Imprensa do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa

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