Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MARCHA DO TEMPO > CENTENÁRIO DO CAMARADA LOROTOFF

Eduardo Palmério satirizou costumes burgueses

Por André Azevedo da Fonseca em 30/05/2006 na edição 383

Neste dia 24 de maio, o jornalista Eduardo Palmério, o impagável crítico da burguesia paulista e carioca dos anos 40 a 60, completaria 100 anos. Irmão mais velho do escritor Mário Palmério, Eduardo nasceu na cidade de Sacramento, no Triângulo Mineiro, em 1906. No final da década de 1910, mudou-se com a família para Uberaba, o pólo cultural da região, que naqueles tumultuados anos de contendas emancipacionistas era considerada a ‘capital do Triângulo’. O pai, o italiano Francisco Palmério, era engenheiro formado em Milão e atuava também como advogado no Brasil. Francisco foi o responsável pela edificação de uma série de obras importantes em Uberaba, entre elas o Parque Fernando Costa, onde até hoje é realizada uma grande exposição mundial de gado Zebu.

Na década de 1920, Eduardo Palmério foi morar no Rio de Janeiro para estudar Odontologia e ficou deslumbrado com a produção cultural carioca, manifestada sobretudo na imprensa da capital. De volta a Uberaba, seu entusiasmo pelos livros levou o jovem dentista a fundar a Livraria ABC, que nos anos seguintes tornou-se um movimentado ponto de encontro dos intelectuais uberabenses.

O combate a favor da leitura seria um tema sempre presente nas crônicas que viria a escrever na imprensa paulista. Em um artigo publicado na década de 1940, Palmério manifestaria seu entusiasmo perante o fato de que os livros custavam relativamente pouco naquela época. ‘Pode-se morrer de fome no Brasil por falta de dinheiro para comprar comidas, mas ninguém morre de burrice por falta de dinheiro para comprar livros’, dizia. Para demonstrar sua tese, Palmério comparou alguns preços: ‘Um romance de Eça de Queiroz vale bem mais do que um quilo de bacalhau, e custa bem menos’, contabilizava, lembrando também que era possível encontrar, nos sebos paulistas, livros de Jorge Amado pelo custo de ‘dois palmos de lingüiça’ e cartilhas escolares pelo preço de um maço de cigarros. Para ele, o problema era que as pessoas, em geral, não davam valor aos livros. O próprio político mineiro Benedito Valadares, ironizava, era desses que não entrava em livraria nem para se esconder da chuva. Sua conclusão para esse caso é antológica: ‘Ninguém é burro por falta de dinheiro, – a maioria o é por excesso…’

Ainda em Uberaba, na década de 1920, o animado Eduardo Palmério já escrevia regularmente nos jornais locais, como o Lavoura & Comércio, O Triângulo e o Correio Católico. Ele chegou a fundar seu próprio periódico, mas era uma coisa pequena, e não foi para a frente. Somente após 1943, quando se mudou definitivamente para São Paulo, é que passou a dedicar-se integralmente ao jornalismo.

Atento ao ridículo

Eduardo Palmério tornou-se um comentarista deliciosamente satírico ao refletir sobre os costumes de grã-finos, empresários e políticos em suas colunas ‘Ponto e Vírgula e ‘São… Pauladas’ (cujo slogan era: ‘O único jornal que vive à sombra dos outros, sem que outros percebam isso’). Em crônica sobre a proliferação de pulgas na capital, por exemplo, Palmério foi implacável: ‘O mais interessante é que as pulgas dão preferencialmente aos bairros elegantes. Talvez por uma questão de estética, por isso que entre morder a perna de uma granfina e a perna de uma pobre operariazinha, é natural que se escolha a perna da granfina. Estas granfinas têm cada perna! Uma coisa louca.’

O cronista argumentava que, como as pulgas se alimentam de sangue, e dentre todos os sangues, o mais gostoso e de maior valor alimentício era o dos humanos, acontecia que ‘nos indivíduos mal nutridos, o sangue é ralinho, possui poucos glóbulos vermelhos e não dá para alimentar convenientemente uma pulga mais ou menos robusta. Daí a preferência que as pulgas dão aos locais onde se reúne gente bem instalada na vida, isto é, alimentada. Por conseguinte, os cinemas, quanto mais granfos, mais empulgantes.’

Talvez mais por diversão do que por algum receio em assinar seus textos, Palmério passou a adotar vários pseudônimos. O mais famoso deles era ‘Camarada Lorotoff’, uma dupla zombaria com a retórica anticomunista e ao mesmo tempo com a lorota comunista. Com esse pseudônimo, Palmério publicou, em 1948, o livro A grande mamata, uma série de reportagens hilárias sobre a indústria do leite.

No ano seguinte, reuniu seus melhores artigos e publicou a antologia 100 comentários. Em 1951 lançou Solteiros no civil e no religioso, seu primeiro romance, todo encenado no ambiente característico dos jornais paulistanos da velha guarda. Eduardo Palmério lançaria ainda, pela editora José Olympio, o romance A noite é nossa, sempre com aquele espírito bolchevista anárquico, atento ao ridículo das convenções e das máscaras sociais que procuram maquiar a violência das injustiças na sociedade.

Ordem natural

Eduardo Palmério continuou escrevendo e publicando até as vésperas de sua morte, no dia 4 de janeiro de 1976, aos 69 anos de idade. Todos os seus livros estão esgotados e fora de catálogo (alô alô, editoras!). Mas, felizmente, o filho de Eduardo, o jornalista Chiquinho Palmério, tem procurado preservar a memória do pai com a organização e a divulgação de seus escritos na imprensa de Santo André, sobretudo por ocasião deste centenário. Os milhares de textos de Eduardo Palmério publicados entre a juventude uberabense em 1920 e a maturidade paulistana nos anos 1960 são exemplos candentes de um jornalismo engajado e utópico que hoje em dia anda meio fora de moda…

Sim, Eduardo Palmério era um utópico. Em seus textos satíricos fica evidente a crítica social e o esforço para se pensar uma nova ordem para o Brasil. E essa disposição ficou registrada pelo próprio autor, no prefácio que ele mesmo escreveu para um de seus livros:

‘Afirmam os homens sensatos que é perigoso mudar a ordem natural das coisas. Mas pergunto: essa ordem é natural? Acredito que, no desejo de melhorar nossas condições particulares ou gerais, toda insensatez é perfeitamente justificada. Mais vale errar por conta própria do que deixar que acertem por nós.’

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Professor da Universidade de Uberaba (Uniube) e autor de Cotidianos culturais e outras histórias (Uniube, 2004)

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