Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Herói carismático ou garoto-propaganda de Hitler?

Por José Vicente Dias em 09/03/2004 na edição 267

Neste ano, quando o mundo das Histórias em Quadrinhos comemora o aniversário de 75 anos de um dos seus mais carismáticos heróis – Tintin –, a ONG Mensagem Subliminar reacende a polêmica das influências político-ideológicas no imaginário infanto-juvenil.

Consegue a criança diferenciar um gesto considerado justiceiro e inocente, praticado por um herói, de uma ação premeditada, com traços marcantes da ideologia nazi-fascista exteriorizada nos traços despretensiosos de Hergé, o belga colaboracionista e informante de Hitler após a invasão de sua pátria na Segunda Guerra Mundial?

Nos idos da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler, na sua sede insana de dominar toda a Europa, invadiu a Bélgica, encontrou em Georges Rémy um tremendo colaborador. Até aí, nada de especial, se Georges não fosse o dono do pseudônimo ‘Hergé’, e se Hergé não fosse o criador de Tintin, um dos heróis mais famosos e mais antigos de HQ de todos os tempos.

O pai de Tintin e de seu inseparável cão terrier Milou criou seus personagens mais famosos em 1929, seis anos depois de começar nos quadrinhos. As Aventuras de Tintin, nas quais o herói percorre o mundo a bordo do navio do capitão Haddock, já passaram por todos os continentes, distribuídas em mais de 20 línguas.

Melhor refletir

A Segunda Guerra mudou o destino de muitas pessoas e do mundo. Hergé, por questões que os quadrinhos não contam, optou por ficar com os invasores. Após a derrota de Hitler, todos os que de alguma maneira foram colaboradores do nazi-fascismo, tanto italianos, franceses ou belgas, foram processados. O único anistiado nesta história hedionda foi Hergé, justamente por ser um grande artista, já famoso na época por causa de Tintin. Segundo Álvaro de Moya, estudioso de quadrinhos, a Bélgica poupou seu filho, sem saber que, apesar de anistiado, continuaria, embora escondido, ajudando financeiramente nazistas foragidos.

Analisando alguns quadros de Tintin, o destemido repórter, encontramos várias referências – ora subliminares , ora muito explícitas – que acabam corroborando esta tese. Por vezes, as cenas retratam táticas e/ou disciplinas militares alemãs, algumas muito longe do politicamente correto.

Algumas perguntas aos fãs do personagem e aos estudiosos de HQ:

** Tintin não é repórter? Por que invariavelmente está com uma arma na mão? Não deveria estar com uma câmera fotográfica ou um caderno de anotações?

** O que, numa de suas aventuras, estaria fazendo com uma pistola Lüger, alemã, em plena Escócia? Seria presente do amigo Hitler?

** Ao tentar fazer justiça com as próprias mãos o personagem não estaria infringindo a lei? Não seria um desrespeito à autoridade competente agir por conta própria?

** Em Tintin na África, quando imaginamos o herói, que completa 75 anos, enaltecendo a fauna do continente, na verdade o que se vê é uma verdadeira matança de animais. Tintin, mais uma vez abandona a função de repórter e literalmente detona um rinoceronte com uma banana de dinamite, mata um pobre jacaré e, não se contentando em matar friamente um indefeso chimpanzé, ainda arranca a pele do bicho. Por quê?

Sem dúvida, melhor do que comemorar este aniversário seria refletir com profunda seriedade: até quando estas ‘aventuras’ atendem aos verdadeiros anseios de nossas crianças?

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Presidente da ONG Estudos e Pesquisas em Mensagem Subliminar e mestrando em Educação e Comunicação (www.mensagemsubliminar.com.br)

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