Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Imprensa cultua Gegê e esquece o Estado Novo

Por Alberto Dines em 24/08/2004 na edição 291

Os três jornais nacionais, mais do que os semanários, abriram grandes espaços ao 50º aniversário do suicídio de Getúlio Vargas. A ênfase, naturalmente, foi dada aos aspectos mais dramáticos do episódio e a famosa carta-testamento volta à cena com a velha discussão sobre a sua autoria.


A questão foi esclarecida há mais de uma década: como sempre fazia, o presidente, homem culto, anotou à mão algumas idéias-força e as entregou ao fiel assessor Maciel Filho que, sem conhecer a destinação, as desenvolveu. A carta converteu-se num dos mais belos documentos da nossa história política. A autoria é uma questão menor, feita sob medida para satisfazer os apetites de um sensacionalismo retrospectivo.


Também o papel do governo Vargas no primeiro surto de desenvolvimento é uma questão incorretamente enfocada. O país era agrícola, o grande capital era agrícola, os bancos estavam envolvidos com o crédito agrícola, o capitalismo era agrícola. Vargas era oriundo da aristocracia agrícola.


Exceto os Matarazzo, os Klabin, os Jafet, os Lodi e um punhado de empresas voltadas para o desenvolvimento industrial, o resto da economia estava atrelado ao café e ao açúcar. Para organizar essas atividades, Getúlio criou duas agências reguladoras, o IBC (Instituto Brasileiro do Café) e o IAA (Instituto do Açúcar e do Alcóol), nos moldes do que fazia o seu contemporâneo, o presidente americano Franklin Roosevelt.


Quando a ampliação da guerra e mais o bloqueio naval nazista mostraram que o país não podia depender das fábricas situadas no exterior, evidenciou-se a necessidade de iniciar um processo de industrialização em grande escala. Como não havia capitais disponíveis na iniciativa privada – e o crédito internacional estava absorvido pelo esforço de guerra – a solução só poderia ser estatal. Não foi opção, foi a única saída.


Prioridades e ilusões


No capítulo da política trabalhista cometeram-se pelo menos duas grandes omissões-distorções. A primeira em torno de Lindolfo Collor – avô do presidente defenestrado Fernando Collor de Melo. Foi ele o artífice da política trabalhista de Vargas. A natural má-vontade com o neto não deveria prejudicar o resgate da imagem do avô.


Mas o grande inspirador do trabalhismo varguista não era brasileiro e, sim, italiano: Benito Mussolini, o líder socialista que no espaço de 10 anos esqueceu o esquerdismo e tornou-se o paradigma mundial do populismo de direita. O espírito e o aparato sindical-trabalhista de Vargas foi vincado no sindicalismo fascista. Só mais tarde, nos anos 1950, é que Vargas interessou-se pelo fenômeno do Labour Party inglês.


É preciso não esquecer que a Ação Integralista Brasileira (com 600 mil filiados em todo país) dava muita atenção à questão sindical. Lourival Fontes, braço direito intelectual de Vargas, era um dos maiores especialistas mundiais em matéria de fascismo.


O Estado Novo de 1937, proclamado por Getúlio Vargas, foi um pastiche do fascismo europeu que, àquela altura, espalhava-se pela Península Ibérica, Áustria, Hungria, Polônia e Romênia.


Os comunistas, socialistas e anarquistas brasileiros não perceberam o perigo desse desvio sindical, absorvidos por outras prioridades e ilusões – uma delas a tomada do poder pelos militares. A primeira grande desgraça que abateu-se sobre a esquerda brasileira foi a aventureira "Intentona" de 1935 (a segunda foi o "manda brasa" comandado por Brizola em 1963-64).


Ambíguo e complexo


E aqui chegamos a Olga Benário e a uma das maiores e aberrantes omissões neste cinqüentenário da morte de Vargas. Apesar do fabuloso esforço publicitário para o lançamento do filme Olga, de Jayme Monjardim, a mídia praticamente esqueceu o terror do Estado Novo. Não juntou a efeméride ao filme, tratou-os separadamente, com as raras e honrosas exceções (como o depoimento de Ruy Mesquita, no Estado de S.Paulo) que acabam soterradas pela homogeneização.


Nossa imprensa tratou do filme como se a sua história fosse algo fortuito e acidental. Foi incapaz de identificar a sinapse entre os dois fenômenos – o varguismo e a repressão do Estado Novo.


Em matéria de violência, os primeiros anos da ditadura que assumiu-se em 1937 nada têm a dever aos métodos implantados pelos militares a partir de 1968.


As pessoas desapareciam, a tortura imperava, a Justiça não funcionava, o governo espionava a correspondência e as ligações telefônicas. A imprensa estava amordaçada não apenas pelos censores mas também pela prazerosa adesão das elites, inclusive intelectuais.


Hoje, quando se fala em anti-semitismo imaginam-se pichações de túmulos. Mas o anti-semitismo que se infiltrou no Brasil não era tão inocente: incluía linchamentos e pedradas, invasão de entidades sob o pretexto de caçar agentes bolcheviques internacionais, prisões arbitrárias e deportações. O ideário integralista associado ao reacionarismo católico e aos preconceitos raciais teve uma presença muito forte na vida brasileira. Nossos militares, com raríssimas exceções, admiravam a fibra de Hitler e as bravatas xenófobas de Mussolini.


Olga Benário foi entregue à Gestapo pelo governo de Vargas não porque era comunista, mas porque era judia. Isto precisa ser dito com todas as letras. Outros estrangeiros implicados na "Intentona" como Norman P. Moore e o espanhol Francisco Canuto não foram parar em campos de concentração. Mas a amiga de Olga, Machla ("Sabo") Berger, também alemã, também comunista e também judia teve o mesmo fim. Seu marido "Harry" Berger, também judeu, ficou doido de tanto apanhar da nossa polícia. Prestes foi apenas esmurrado por um brutamontes da Polícia Especial.


Como todas as grandes figuras da história, Getúlio Dornelles Vargas não pode admite uma classificação linear. Seu perfil é necessariamente ambíguo, obrigatoriamente complexo. Aos historiadores cabe desvendar as duplicidades. E, aos jornalistas, mostrá-las de forma equilibrada – sem subverter e, sobretudo, sem omitir.

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