Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MARCHA DO TEMPO > 1964 + 50

JK foi assassinado

Por Gilberto Natalini em 07/05/2014 na edição 797

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 6/5/2014; intertítulo do OI

Ao contrário do que sustenta a Comissão Nacional da Verdade (CNV), o ex-presidente Juscelino Kubitschek não morreu em acidente de trânsito, mas foi assassinado pela ditadura militar. O levantamento federal despreza evidências, testemunhos e provas da investigação da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog (CMVVH) de São Paulo, de onde JK saiu para morrer em 22 de agosto de 1976, após cruzar a divisa São Paulo – Rio de Janeiro, na rodovia Presidente Dutra.

Em artigo neste espaço (“JK, assassinato ou acidente?“, 28/4), José Paulo Cavalcanti Filho, da CNV, escreveu que o desastre ocorreu numa reta. JK morreu após sequência de quatro curvas, sendo que a última, em leve aclive à direita, não foi completada pelo motorista do presidente, Geraldo Ribeiro. E nada justifica que o experiente Ribeiro fizesse manobra arriscada, ultrapassando um ônibus pela direita em curva, a não ser extrema emergência.

Quase 38 anos depois, a CNV ressuscita “investigação” da ditadura que responsabilizou o motorista da Viação Cometa, Josias Nunes de Oliveira. Segundo a acusação, o ônibus bateu no automóvel, lançando-o desgovernado para a outra pista, onde colidiu contra um caminhão.

A CNV menosprezou os testemunhos dos passageiros do ônibus que, unanimemente, informaram não ter havido choque com o Opala de JK. Oliveira foi absolvido na década de 1970 em dois julgamentos nos quais a acusação ousou apresentar laudo de tintas sem assinatura.

Em sua “investigação”, a CNV não leva em conta que JK e Ribeiro morreram três minutos após deixarem o hotel-fazenda Villa-Forte, cujo proprietário era o brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, um dos criadores do Serviço Nacional de Informações (SNI), ligado ao então ministro da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, e ao chefe do SNI em 1976, general João Baptista Figueiredo. Assim como a CNV, autoridades policiais do Rio jamais investigaram a parada de JK no hotel.

Candidato declarado

Na perícia da ditadura, o lado esquerdo da traseira do Opala está intacto em fotografia da noite do “acidente”, mas danificado no dia seguinte, para justificar a batida, após uma troca estranha de peritos.

Em depoimento à CMVVH, ignorado pela CNV, o jornalista Ivan Machado, que cobriu o “acidente”, relatou que policiais rodoviários alteraram a posição do Opala na Dutra, antes da perícia, cumprindo ordens.

Em suas conclusões, a CNV elogia a Polícia Civil e o Instituto de Criminalística do Rio de Janeiro, que “não mediram esforços para elucidar o acidente”, mas não emite parecer, por exemplo, sobre a falta de radiografias no cadáver de Ribeiro.

A CNV manteve-se alheia à ameaça de morte à jornalista que reportou que Sarah Kubitschek, viúva de JK, acreditava no assassinato do marido. Da mesma forma, deixou de lado declaração do motorista da Viação Cometa sobre a oferta de suborno que recebeu para assumir a responsabilidade pela morte de JK.

Outro depoimento ao qual a CNV fez vistas grossas foi o do motorista Ademar Jahn, que declarou ter visto o motorista de JK com a cabeça caída entre o volante e a porta do Opala antes do choque com o caminhão. Ou seja, Ribeiro não completou a curva à direita, e o Opala seguiu descontrolado para a contramão da Dutra porque, provavelmente, o motorista já estava sem vida.

O “Relatório JK”, da CMVVH, traz 103 itens que demonstram o assassinato de JK. Em seu depoimento, Carlos Heitor Cony relata ter apurado que, ao deixar o estacionamento do hotel-fazenda Villa-Forte, Ribeiro estranhou o Opala e indagou se alguém havia mexido no veículo.

Para provar que não ocorreu sabotagem, a Polícia Civil do RJ apresentou os destroços do carro para nova perícia em 1996. Descobriu-se depois que o Opala examinado tinha número do motor diferente do Opala que conduzia JK. A perícia foi feita em outro veículo.

Em 1976, JK dava os primeiros passos para se candidatar a presidente. Morto JK, o eleito foi o general João Baptista Figueiredo, o mesmo que havia sido aluno do brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte.

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Gilberto Natalini, 62, é médico, vereador (PV-SP) e presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog de São Paulo

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