Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MARCHA DO TEMPO > FEDERICO GARCÍA LORCA (1898-1936)

Lorca e a fonte de lágrimas, ‘Ainadamar’

Por Norma Couri em 05/05/2015 na edição 849

Lorca_fuzilamentoFuzilado aos 37 anos por causar mais danos com a pena do que outros com a arma – e por ser maricón –, o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca reviveu na espetacular montagem do Theatro Municipal de São Paulo. Mas a cobertura da mídia esteve aquém do merecido, com pelo menos uma crítica destoante, a Folha de S. Paulo (28/04), que aplaudiu a ópera sobre Lorca vir antecedida pela chatíssima Um Homem Só, de Camargo Guarnieri (1960). Só valia a pena suportar por 50 minutos Um Homem Só para assistir aos 72 minutos da ópera do consagrado argentino Oswaldo Golijov, em clima de cabaré. Flamenco, cantos árabes, judaicos, cristãos e percussão latina mesclavam-se aos sons das balas que mataram o poeta.

A harmonia da morte e o lamento dos vivos fizeram conjugação perfeita na voz de contratenor de Luigi Schifano no papel de Lorca. A tessitura vocal do contratenor serviu muitas vezes para substituir nas óperas papéis escritos para os castrati, e na pele de Lorca exprimiu a dor. O desespero ficou maior em contraponto com a soprano Marisú Pavón, que viveu sua amiga e atriz de muitas de suas peças Margarita Xirgu, exilada pela ditadura franquista e morta em 1969. Juntou-se a soprano Camila Titinger interpretando Nuria , a aluna de Margarita. E culminou quando o cantor flamenco deu o tom desesperado do algoz Ruiz Alonso (Alfredo Tejada) na caçada e, afinal, no sangramento do poeta. O encenador Caetano Vilela acertou na montagem.

O nome da ópera não dizia nada, Ainadamar, mas era a fonte onde, junto com um professor, um toureiro e mais dois republicanos, Lorca foi executado em 19 de agosto de 1936, um mês depois do início da Guerra Civil Espanhola – que durou três anos, com a vitória do generalíssimo Francisco Franco. Em árabe, Ainadamar significa “Fonte de Lágrimas”. Apesar de sabermos o local da execução, até hoje os ossos do poeta não foram encontrados.

Lamento final

A ópera se passa no Teatro Sólis, em Montevidéu, em 1969, recordando a peça de Lorca sobre a revolucionária Mariana Pineda, morta no garrote aos 26 anos por se recusar a delatar os companheiros na luta contra a monarquia – e tornada heroína da causa liberal espanhola do século 19.

Lorca

A liberdade é o tema dessa primeira ópera de Golijov, que tem 54 anos e uma vasta carreira musical. Escreveu trilhas sonoras para Francis Ford Coppola, para o mexicano ganhador de três Oscar, Alejandro Iñarritu, além de concertos para o violoncelo de Yo-Yo-Ma e inúmeras peças vocais, incluindo Ainadamar. A próxima ópera de Golijov será encenada entre 2018-19 no Metropolitan de Nova York, baseada na Ifigênia da obra Áulis, de Eurípedes. Ifigênia é símbolo do autossacrifício feminino.

Além da impressionante inserção do cantor flamenco, algoz de Lorca, Ainadamar reproduziu gravações sonoras da Rádio Falange, emissora dos partidários do ditador Franco, estimulando o conflito mais sangrento que antecedeu a Segunda Grande Guerra.

Nuestros jóvenes deben estar preparados a derramar su sangre generoso por la causa sagrada de España. Quíen no esté conosotros, está contra nosostros. Exterminaremos las semillas de la revolución aún de los úteros de las madres…Viva la muerte! Viva la muerte! Viva la muerte!

[“Nossos jovens devem estar preparados a derramar seu sangue generoso pela causa sagrada da Espanha. Quem não estiver conosco está contra nós. Exterminaremos as sementes da revolução até os úteros das mães… Viva a morte! Viva a morte! Viva a morte!”]

E o algoz Ruiz Alonso (na pele do cantor flamenco), justificando a perseguição a Lorca: “Es enemigo de España y amante de Rússia… Es maricón!” [“É inimigo da Espanha… amante da Rússia. É bicha!”]

Dali_e_LorcaO homossexualismo de Lorca era conhecido, embora na ópera a paixão é por Margarita que, até morrer, dedica a vida a divulgar a obra do amigo na América Latina, onde se exilou, e nunca mais colocou os pés na Espanha assassina. O livro de Agustín Sanchez Vidal, Buñuel, Lorca, Dali: El Enigma Sin Fin (Planeta, Espanha, 1988) detalhava a atração entre Dali e Lorca, e o encontro dos três na Madri de 1922, retratada dez anos mais tarde no filme Little Ashes (Poucas Cinzas), de Paul Morrison. Muito depois de sua morte apareceram cartas, revelações temerosas de apaixonados. Na ópera, Margarita revolta-se com a difamação de Ruiz Alonso

Ela rebate e ao mesmo tempos, admite: “…cuando en verdad, solo amabas la poesía y la libertad, y a veces Rafael” […quando na verdade só amavas a poesia e a liberdade, e, às vezes, Rafael”].

O lamento final ressoa entre tiros de canhão, o sapateado e o canto e o violão flamenco.

Mídia anestesiada

Yo soy la libertad, la fuente de quíen bebes!… Ai! Ai! Ai!, Dios mio, que peña más grande! Federico murió em Granada!… Ay! Qué dia tan triste em Granada…” [“Eu sou a liberdade, a fonte de que bebes!… Ai! Ai! Ai! Meu Deus, que pena tão grande! Federico morreu em Granada!…Ai! Que dia mais triste em Granada…”]

Caem livros do alto por todo o palco e pela plateia, simbolizando os manuscritos inacabados e os 28 livros escritos por Lorca, 13 de poesia, 3 de prosa e uma dúzia de peças teatrais que inspiraram o encenador de Ainadamar, Caetano Vilela, na concepção e iluminação da ação que, ao passar de um palco de teatro para outro, resulta um jogo metateatral.

Lorca_assinaturaDepois de seis apresentações em São Paulo, esquecidas por uma mídia anestesiada e indiferente, Ainadamar, que estreou em 2003 e já foi encenada em pelo menos 13 grandes cidades e capitais do mundo, só poderá ser vista pelos brasileiros em outros países. Mas sempre se pode escutar a trilha sonora da ópera na gravação da Orquestra Sinfônica de Atlanta, com o selo da Deutsche Grammophon, que levou dois prêmios Grammy para melhor gravação de ópera e melhor composição clássica contemporânea. Vale a pena escutar.

O ano que vem marca 80 anos do início da Guerra Civil Espanhola que matou 2 milhões de pessoas. Lorca entre elas.

***

Norma Couri é jornalista

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