Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MARCHA DO TEMPO > RAPHAEL BORDALO PINHEIRO

O lápis do guerrilheiro do humor

Por Dora Ribeiro, de Lisboa em 25/01/2005 na edição 313

‘Bordalo é um democrata intransigente, o seu lápis terrível pode prestar os melhores serviços à organização definitiva da República brasileira.’

O elogio do jornalista e escritor maranhaense Arthur de Azevedo (1855-1908), publicado no jornal Correio do Povo, do Rio de Janeiro, e reproduzido em Lisboa, no mesmo ano de 1891, no Tim Tim por Tim, conta de forma rápida e eficiente a história de um dos mais destacados artistas do Oitocentos lusitano e que Portugal homenageia durante 2005 – ano em que se comemora o centenário da sua morte, a 23 de janeiro de 1905.



Cartunista, ilustrador, ceramista, pintor, Raphael Bordalo Pinheiro permanece no imaginário português, sobretudo através da seu personagem ‘Zé Povinho’, criada em 1875. Nascido como uma figura popular lisboeta, crítico e vítima da vida nacional, passou a ícone do povo português. Uma figura popular e que parece ainda guardar muitos traços de atualidade.

No início de janeiro, uma das principais rádios do país, a TSF, realizou um programa em que pedia aos ouvintes que dissessem se ainda se reconheciam no boneco criado por Bordalo. A resposta foi esmagadora: ‘Ainda somos aquela figura pouco culta, desconfiada, refilona, porém submissa’. Os intelectuais chamados pela emissora para opinar foram um pouco mais longe. O filósofo José Gil, embora reconhecendo que essa imagem ainda tem alguma dose de verdade, aconselhou aos seus concidadãos que deixem de se olhar tanto no espelho. ‘Falta conflito a Portugal’, avisou, numa referência a uma certa incapacidade de agir que existe na sociedade portuguesa atual.

Vítimas preferenciais

O momento histórico em que o jornalista de humor viveu não foi menos conturbado e a sua arte esteve à altura dos combates políticos e sociais da sua época. Bordalo (1846-1905) nasceu em Lisboa, num ambiente de revoltas populares que se seguiram ao fim das guerras liberais, que opuseram os irmãos D. Pedro e D. Miguel, e que vão desaguar em 1910 na República.

Nesse turbilhão, o ‘Moliére do lápis’ não se fez de rogado. Fez a crônica de Lisboa, nas palavras do historiador da arte José-Augusto França, e compôs a memória da sua vida intelectual, política, artística e teatral. Um trabalho que o seu talento transformou num precioso retrato do seu tempo e do seu país.

Entre 1870 e 1905, produziu cerca de 10 mil páginas de caricaturas e cenas nas publicações que lançou em Portugal e no Brasil, e nas outras em que colaborou, compondo desenhos para almanaques, anúncios e revistas européias como o El Mundo Comico (1873-74), Illustrated London News, Ilustracion Española y Americana (1873), L´Univers Illustré e El Bazar.

Considerado um dos pioneiros da história em quadrinhos em Portugal, a sua principal obra desse gênero saiu em 1872 e teve como tema a viagem do imperador D. Pedro II pelo continente europeu. Os ‘Apontamentos de Raphael Bordalo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb [anagrama de Brasil] pela Europa’, de 14 páginas com 120 desenhos, foi um êxito que justificou três edições. Na história, o estadista vive peripécias em diversos países, convivendo com pessoas ilustres e cometendo disparates.



Bordalo, aliás, não poupou nenhuma personalidade do seu tempo. Artistas, escritores e sobretudo políticos foram alvo do seu ‘lápis flagelador’. Antônio Maria Fontes Pereira de Melo, o ‘Antônio Maria’ do título da sua publicação fundada em 1879, quando regressa de uma estadia de cinco anos no Rio de Janeiro, foi uma das suas vítimas principais. Deputado e várias vezes ministro e presidente do governo, Fontes Pereira de Melo não estava só. Também os reis D. Fernando e D. Luís, os escritores Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz foram retratados pelo ‘lápis implacável’.

‘Ventura rara’

É esse empreendedor incansável que Portugal celebra. Os jornalistas, cuja associação fez em 1903 uma grande homenagem a Bordalo, abriram a celebração com uma exposição no Museu Nacional da Imprensa, no Porto. O tema é ‘O caricaturista e as eleições’, uma reflexão feita no momento em que Portugal se prepara para duas consultas populares – uma neste ano e outra, em 2006. Para o diretor do Museu, Luís Humberto Marcos, Bordalo Pinheiro foi um ‘guerrilheiro do humor’. ‘Sempre do lado dos fracos, condenando a corrupção e a inépcia’, diz ele. ‘O que mais me impressiona na sua obra é a sua luta pela liberdade de opinião. Um gênio sem fronteiras.’

Em junho próximo, o ‘Zé Povinho’ entra em cena no mesmo Museu com uma exposição que vai festejar a figura criada nas páginas de um dos primeiros jornais de Bordalo, Lanterna Mágica, há 130 anos. E para o último trimestre do ano fica uma mostra de cartunistas lusos e brasileiros reinterpretando Bordalo. O título ‘Pintá-lo e Bordá-lo’ é de autoria do brasileiro Aroeira, que com Chico Caruso colaboram na organização.



Caldas da Rainha, onde Bordalo Pinheiro desenvolveu a arte da cerâmica e onde existe uma casa-museu; e Lisboa, onde permanece o museu com o maior espólio, também preparam exposições, prêmios de caricatura e de design cerâmico e conferências. Um dos congressos reunirá na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, especialistas à volta da figura de Raphael Bordalo Pinheiro como mote para reflexão sobre a história social e política, das mentalidades e da arte portuguesa e internacional.

A reabertura, em setembro, do Museu Raphael Bordalo Pinheiro, em Lisboa, é um dos eventos mais aguardados. Fechado desde 1999 para obras de conservação, possui o maior acervo da obra gráfica e cerâmica, assim como de memorabilia do autor.

Programada para a maio, em Sintra, está a primeira edição do ‘World Press Cartoon’, em que será feita uma homenagem especial ao cartunista.



‘Nunca cursei academias. Tenho o curso da Rua do Ouvidor… cinco anos. Canto de ouvido’. Um esplêndido auto-retrato de um artista que adorava a vida boêmia e que admiravelmente ria-se e fazia rir. Quando Arthur de Azevedo escreveu as palavras de elogio citadas na abertura, Bordalo já tinha regressado do Brasil, onde chegou a sofrer ameaças de morte. Naquele ano de 1891 era novamente alvo de perseguição, agora em Portugal, com o fechamento do seu jornal Pontos nos ii.

‘Possuir um artista como Bordalo Pinheiro é uma ventura rara, que não devemos nem podemos desprezar. Aproveitemos a nossa boa fortuna’, avisava Arthur de Azevedo.

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