Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MARCHA DO TEMPO > SUBSÍDIOS PARA A MÍDIA

O maestro Sá Pereira

Por Luís Nassif em 29/03/2005 na edição 322

Esta semana entrei nos acervos do fotógrafo Humberto Franceschi e do jornalista José Ramos Tinhorão no site do Instituto Moreira Salles (http://www.ims.com.br/ims/). Conheci o banco de dados alguns anos atrás, na própria sede do IMS, na rua Marquês de São Vicente, no Rio.

Foi um trabalho bancado pela Petrobrás, de digitalização dos dois acervos. O IMS aceitou abrigá-lo. Havia alguma dificuldade de definição dos direitos autorais para disponibilizá-lo na Internet. No dia em que anunciaram a abertura, tentei entrar, mas o site ficou congestionado com consultas.

Passada a febre inicial, ficou bastante acessível. Notei a falta de alguns campos de consulta presentes no arquivo original. Especialmente os campos de ‘instrumento’, ‘gênero musical’ e ‘ano da gravação’. São possíveis consultas por Título da Música, Intérprete e Compositor.

É de deixar louco quem entrar lá. Parecia menino em loja de doce. Mas decidi a primeira pesquisa pelo maestro Pedro de Sá Pereira, relegado ao mais completo esquecimento, inclusive pelos especialistas. Não há menção dele no Dicionário da Música Popular Brasileira, nem no Dicionário Cravo Albin. Certamente deve constar do livro sobre teatro de revistas do grande Sérgio Augusto. Mas não encontrei em minha biblioteca. Em todas as outras referências, ele entra como ‘o parceiro’. No entanto, foi um dos autores fundamentais dos anos 20, possivelmente o mais contemporâneo de todos.

Carnaval memorável

Está certo que posso estar sendo influenciado pela faixa A casinha da colina (‘Você sabe de onde eu venho / de uma casinha que tenho / fica à beira de um pomar’) que minha mãe aprendeu com 5 anos. O letrista é o imenso Luiz Peixoto. Tem três versões. A que minha mãe mais gostava era de Gastão Formenti, o ítalo-brasileiro e menos afetado dos tenores-populares que surgem no período, em gravação de 1929. Um ano antes, há outra gravação de Vicente Celestino, com acompanhamento do grande violonista Rogério Guimarães. Até o portentoso Celestino respeitou (relativamente) a delicadeza da melodia.

Mas a música predileta de dona Tereza era Chuá, chuá, uma toada de Sá Pereira e Ari Pavão. Tem a provável gravação original, entre 1921 a 1926, de um tal de Fernando, voz pesada de tenor da época. E a interpretação clássica de Francisco Alves, de 1943, com um arranjo belíssimo de Lírio Panicalli.

Dos anos 20, ouça a divertidíssima Cabeleira a la Garçone, interpretada por Romeu Silva e seu Jazz Band Sul. O maestro Romeu e sua orquestra foram os primeiros músicos brasileiros a excursionar de forma sistemática pela Europa, embora sem o swing de Pixinguinha e dos 8 Batutas e mesmo do Maestro Fon Fon, duas outras bandas que percorreram a Europa. Há outra versão de Zaíra de Oliveira que, antes de se tornar a senhora Donga, protagonizou um carnaval memorável em Poços, sumindo por três dias com um grupo onde pontificavam Ary Barroso e Walther Moreira Salles.

No devido lugar

A grande Aracy Cortes, a rainha dos teatros de revista da época, foi talvez a maior intérprete de Sá Pereria. Com ela é possível ouvir Quindins de Iaiá, de Sá Pereira e C.M.Bittencourt – não confundir com o clássico gravado por Carmen Miranda anos depois.

Com Patrício Teixeira tem a gravação de Luar do Brasil, de 1927. Nos anos 50 ou 60, Patrício tornou-se professor de violão de Nara Leão. Ninguém mais se lembrava de que tinha sido um dos pioneiros da indústria fonográfica nacional.

Cuscus, gravação de 1928, de Francisco Alves, é outra curiosidade histórica. Costumo dizer que em 1930 caiu um meteoro sobre o Brasil. A música brasileira saiu velha de 1929 e entrou em 1930 completamente remodelada. Nem a bossa nova significou uma revolução tão radical e fulminante na forma musical brasileira. O próprio arranjo — muito bem feito aliás, provavelmente de Simon Bountman, o arranjador da Gravadora Odeon — ainda mantém o sotaque de maxixe das bandinhas dos anos 20.

Para quem considerava Vicente Celestino excessivo, aliás, descobre a dose dupla, seu irmão João Celestino, voz gêmea, interpretando Feitiços da morena, de 1929, do mesmo Sá Pereira..

O maestro está a merecer uma biografia adequada, que o coloque no devido lugar: a de um dos nomes fundamentais da música popular brasileira.

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