Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O repórter e o ditador

Por Paulo Lima em 31/08/2004 na edição 292

A cena foi testemunhada por Edmar Morel e está descrita em seu livro Histórias de um repórter (Record, 1999). Com o fim da Segunda Guerra Mundial, chegou ao Rio de Janeiro o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira que fora lutar na Itália contra o eixo nazi-fascista. Os militares desfilavam pela Avenida Rio Branco. À frente deles, vinham os pracinhas. Mais de meio milhão de cariocas aplaudiam os heróis de guerra. No fim da marcha, em carro aberto, surgiu a figura diminuta de Getúlio Vargas. ‘A multidão vaiou estrondosamente o ditador responsável por anos de dura repressão que atingiu diversas camadas sociais’, conta Morel.

Entre outras medidas de repressão, Getúlio havia criado, nos 15 anos de seu primeiro mandato, a polícia especial, treinada por técnicos nazistas, e o famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pelo controle da imprensa no Estado Novo. A política getulista de caça aos opositores do regime abarrotou os presídios de Ilha Grande e Fernando de Noronha, e fez vítimas notórias, como a judia alemã Olga Benário, companheira do líder comunista Luiz Carlos Prestes.

Em 29 de outubro de 1945, Getúlio foi deposto e seguiu para o exílio em São Borja, no Rio Grande do Sul. Repórter dos Diários Associados, Edmar Morel foi enviado por Assis Chateaubriand para cobrir aqueles primeiros dias de Vargas longe do poder.

‘São Borja, uma das sete cidades missioneiras fundadas pelos jesuítas, à orla do Rio Uruguai, foi uma decepção’, anotou Morel. ‘Ruas de barro batido, casas sujas pela poeira vermelha, com dois hoteizinhos sem o mínimo conforto’. O aspecto pouco aprazível da São Borja de então não foi, contudo, o detalhe mais importante observado pelo repórter. A cidade transpirava ilegalidade. ‘A gasolina era vendida no câmbio negro num posto ao lado da alfândega, onde era possível comprar pneus, revólveres e outros materiais contrabandeados. Não havia fiscalização. Todo mundo fazia comércio ilegal’.

O encontro

Morel fretou um táxi e, ao lado do fotógrafo Lisboa Carrion, do jornal A Razão, de Santa Maria, seguiu para a fazenda Santos Reis, afastada 24 quilômetros da cidade. Não encontrou Getúlio. Era Dia de Finados e ele havia ido visitar o túmulo da família. Depois de esperar algum tempo, apareceu um grupo de cinco cavaleiros, destacando-se o cavalo que era montado por Getúlio Vargas. Um dos cavaleiros que o acompanhava era Gregório Fortunato. ‘De compleição atlética, olhar vigilante, dir-se-ia um titã de bronze dando segurança ao seu senhor’, assim o repórter descreveu o guarda-costas de Getúlio, acusado de planejar o atentado da Rua Tonelero, que precipitou o fim da era Vargas.

Demonstrando enfado e cansaço, Getúlio pediu notícias do Rio de Janeiro e fez críticas aos que o depuseram. De repente, voltou-se para o repórter: ‘Tu, quem és?’, perguntou. ‘Pretendo ficar com o senhor, presidente, para acompanhar seus primeiros dias na fazenda. Sou repórter dos Diários Associados do Rio de Janeiro. Meu nome é Edmar Morel’. Em seguida, Morel foi hostilizado por Maneco, filho de Vargas, e por Gregório Fortunato. Seguiu-se uma rodada de chimarrão, o repórter ignorado.

Hóspede do ditador

Morel procurou o fotógrafo, que desaparecera. Gregório Fortunato se aproximou dele: ‘Ainda estás aí?’, perguntou. ‘Retornei a São Borja no mesmo táxi’, lembra Morel. ‘Voltava ao lugar onde Deus estava no céu e Getúlio na terra’.

Temendo novas hostilidades, distante 614 quilômetros de Porto Alegre, Edmar Morel resolveu seguir num barco para São Tomé, localidade argentina, do outro do rio, onde encontrou a proteção de um coronel dos Pampas.

Em Porto Alegre, Morel procurou a sucursal gaúcha dos Diários Associados e preparou a matéria que enviaria a Chateaubriand, no Rio de Janeiro. ‘O Diário de Notícias não poderia perder prato tão saboroso, e publicou a matéria na primeira página, em oito colunas’.

Apesar do esforço do repórter, a matéria não agradou a Chateaubriand. ‘Ele queria, sem dúvida, um relato de como vivia Vargas no seu confinamento – e para isso estava certo de que eu seria hóspede do ditador que governou o Brasil de 1930 a 1945’.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) e editor do Balaio de Notícias (www.sergipe.com/balaiodenoticias)

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