Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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MARCHA DO TEMPO > GETÚLIO, 50 ANOS DEPOIS

O repressor e o liberal

Por Ivan Alves Filho em 24/08/2004 na edição 291


"Considero a imprensa o maior elemento de colaboração para um bom governo. Estou convencido de que a minha administração será sempre auxiliada pela imprensa com a máxima lealdade." (Getúlio Vargas, novembro de 1930, ao assumir o Governo Provisório)


A grande diferença entre os dois governos de Getúlio Vargas foi a democracia. Pode-se dizer que o primeiro foi uma sucessão de golpes. Já em 1930 havia uma repressão muito grande, notadamente ao Partido Comunista. No livro URSS, Itália, Brasil, Astrojildo Pereira – fundador do PCB, em 1922 – retrata bem o clima dessa época.


Costuma-se comparar o primeiro governo Vargas ao fascismo. No entanto, o fascismo apóia-se num partido único de massas, enquanto Getúlio não teve um partido político de massas. Foi um governo personalista. Proibiu todos os partidos.


A década de 1930 caracteriza-se por ter sido um período em que o Estado, que se pretendia o motor da sociedade, reforçou-se muito no mundo inteiro. Ao Estado forte correspondia um governo forte, com grande pressão também na esfera econômica.


Durante todo o primeiro governo Vargas, e não apenas com o advento do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), em novembro de 1939, o cerceamento da liberdade de expressão foi grande. O Vargas ditador pressentiu a força da imprensa e a calou. Sempre esteve atento ao seu poder: por ser imprensa, pelo seu poderio econômico e ideológico e por, em alguns casos, fazer o papel até de partido político Mais de 60 jornais foram cassados e mais de 400 novos títulos negados. No entanto, houve algumas brechas como a criação das revistas Diretrizes, no Rio de Janeiro, de Samuel Wainer, e Seiva, órgão oficioso da intelectualidade ligada ao Partido Comunista, na Bahia, dirigido por João Falcão e com a participação de Jorge Amado, entre outros.


Braço armado


As questões regionais influenciavam o rigor da repressão. No Rio de Janeiro, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, locais onde houve levantes contra o governo de Getúlio Vargas, a polícia política era mais atenta. Nos estados de menor importância política ou em que os interventores eram mais liberais, havia mais espaço. Mesmo assim, Samuel Wainer conseguiu lançar a Diretrizes, uma revista cultural, no Rio de Janeiro. Isso talvez se explique pelo fato de que, com a questão cultural, Getúlio Vargas sempre foi mais liberal do que com a informação. Na sua visão, a cultura deveria ser menos perigosa…


O ministro da Educação, Gustavo Capanema, sabia que não poderia prescindir da intelectualidade para a modernização do país. Seu chefe-de-gabinete era ninguém menos que Carlos Drumond de Andrade e em sua equipe estavam homens como Nelson Werneck Sodré, Oscar Niemayer, Cândido Portinari, todos identificados com a modernidade cultural. Em uma conversa que mantive com ele em seu escritório, nos anos 1980, Oscar Niemayer chegou a me dizer que o gabinete de Capanema foi mais importante para a cultura do país do que a Semana de Arte Moderna. Fica o registro.


Essa abertura podia significar que o Estado estava se sofisticando a ponto de não poder se apresentar mais como um aparelho repressivo, simplesmente. Com essa ótica, a cultura já correspondia a uma nova situação de complexidade, enquanto a informação era a fase mais obscura, o prosseguimento do braço armado do regime, digamos assim. Em outras palavras, o artista não incomodava, o jornalista, sim. O jeito então era lançar revistas culturais, até mesmo para se fazer política.


Todos contra


Com a entrada do Brasil na Segunda Grande Guerra, a repressão aos meios de comunicação começa a desmoronar. No discurso feito por ocasião da partida das tropas brasileiras para a Europa, Getúlio já acena para essa abertura. Paradoxalmente, quando se aproxima da democracia, sofre o golpe militar daqueles mesmos que o apoiaram em 1930 e 1937.


Quando Vargas reassume, em 1951, pela via das eleições diretas, ele aprofunda as bases de um Estado nacional. Pode-se dizer que a liberdade de imprensa, no segundo governo, era quase total, chegando às vezes a ser mesmo desrespeitosa.


Na campanha do petróleo, os jornais se dividiram. Vargas, que no início era contrário à estatização do petróleo, depois encampou a idéia. É preciso dizer que o escritor Monteiro Lobato foi encarcerado em 1938, pois ousara dizer que havia petróleo no Brasil. Em 1945, Lobato lança o folheto Zé do Brasil defendendo a candidatura de Prestes ao Senado.


Ao começar a negociar com as classes trabalhadoras e a se comprometer com um modelo de gestão mais nacionalista, Getúlio Vargas começou a incomodar também os setores comprometidos com o capital estrangeiro. Entre eles, boa parte da imprensa. Quando se suicidou, praticamente todos os jornais, com exceção da Ultima Hora, estavam contra ele.

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Historiador e autor, entre outros, de Memorial dos Palmares, Brasil, 500 anos em documentos e Velho Chico mineiro

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