Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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O tigre siberiano

Por Jefferson Del Rios em 04/07/2005 na edição 336

Comecei a minha carreira na Folha, absolutamente novato, em 1966. Cláudio estava só há um ano no comando, com uma equipe antiga, em parte resistindo a ele, sem dinheiro para contratar mais gente ou pagar melhor. Esse dado é importante: Cláudio levantou a Folha sem recursos. Fui o segundo jornalista da casa a ganhar uma bolsa de estudos na Europa (creio que o João Batista Natali foi o primeiro) e Cláudio tentou conceder a mim uma ajuda, um salário ou algo assim, do jornal – como ele tivera no Estado de S.Paulo. Não conseguiu.

Ele não me conhecia – fui contratado pelo Aloysio Biondi, por generosa indicação de José Carlos Marão, hoje no Observatório –, mas logo me notou; em três anos, me entregou a crítica teatral, e passamos a conversar sobre política internacional – assunto que nos ligava bem mais que as artes. Cláudio, entre outras coisas, foi um formador de pessoas, independente das asperezas eventuais motivadas pela missão que tinha, em condições adversas, e sempre pressionado. Nosso relacionamento começou dentro da pura hierarquia até se transformar em uma grande amizade. Ele era homem adorável. Gostava dos jovens, estabelecia camaradagem conosco. Em qualquer circunstância irradiava autoridade. Nunca o vi em um só gesto menor, vulgar. Nunca o vi bebendo, abaixando o nível de linguagem ou – só agora me dou conta – chorando.

Cláudio Abramo é sabidamente um dos renovadores da imprensa em termos técnicos, culturais, éticos e políticos. Ter feito essa obra nos dois maiores jornais de São Paulo é uma marca que está muito além de qualquer polêmica. É História. Mas Cláudio é mais que o homem de imprensa. Ainda vai se escrever sobre ele na política, decisivo em algumas carreiras; e nas artes, na pura solidariedade com quem estava caído. Ele nos liberta dessa conversa de o jornalismo ser ou não ser a última profissão romântica. Cláudio não tinha nada de romântico – nem eu, acho. Era, espantosamente, um realista compassivo.

Pessoalmente, sei do respeito e admiração que o atual diretor editorial da Folha, Otavio Frias Filho, tem por Cláudio Abramo. Nesses anos todos temos conversado pouco, talvez por timidez recíproca, mas acho que estamos de acordo quanto ao papel de Cláudio – se é que o assunto faz sentido entre nós que estamos, irreversivelmente, em lados diferentes.

Eu me lembro de Otavio Filho no velório de Cláudio na Assembléia Legislativa. Ele veio em nossa direção quando chegamos, eu e minha mulher, também jornalista e que trabalhou na Folha. Sabíamos tacitamente o quanto perdíamos.

Pouco sei das relações pessoais e profissionais de Cláudio Abramo com o Octávio Frias de Oliveira – e ouso dizer que pouco sabemos, no plural. Foi uma parceria entre temperamentos fortes em circunstâncias complicadas ou graves, assim como Otavio Filho é também uma personalidade forte. Aí já me parece um enredo para Arthur Koestler, André Malraux ou Jorge Semprun.

Sem mágoas

Na troca da guarda, evidentemente, houve ferimentos, e Cláudio não viveu o suficiente para, quem sabe, algum outro final mais ameno entre todos. Hoje, porém, filhos e uma neta dele trabalham no jornal, ou são colaboradores. Não me espantarei se, em novas rememorações da empresa, seja tratado com o devido destaque.

Da minha parte, nesse 30º ano do início da sua reforma da Folha, enviei uma carta ao prefeito de São Paulo, José Serra – que Cláudio levou para escrever no jornal –, pedindo-lhe que, quando puder criar nova área verde na cidade, lembre-se de um possível Parque Cláudio Abramo, ou mesmo um Parque dos Abramos – com esculturas que o lembrasse e também seus irmãos importantes nas artes e no jornalismo: o gravador Lívio, a atriz Lélia, os jornalistas Fúlvio, Athos e seu filho Perseu. Tenho certeza de que alguns dos melhores escultores de São Paulo cooperariam com prazer.

Além do que aprendi profissionalmente, da nossa maravilhosa convivência, Cláudio me disse duas coisas fundamentais. A primeira, ao seu referir aos seus exílios profissionais, e não só ao da Folha, disse: ‘Ninguém quer um tigre na sala’.

Cláudio sabia quem era, embora pudesse ser vulnerável em certos momentos. É algo como o herói trágico grego – é um destino. Não chorem tanto por ele. Um tigre siberiano. Sem espaço, morreu, mas, enquanto vivo, foi absoluto nos seus territórios. Essa imagem, talvez grandiloquente, me ocorre irresistivelmente. Tê-lo visto em ação, ao seu lado, foi mesmo um privilégio.

A segunda: ‘Não há mais lugar para nós aqui’ (referindo-se à nossa situação no jornal – ele fora do comando – evidentemente mantidas as proporções de nossas atividades). Eu o levei a sério, e saí da Folha em 1979, quando convidado por Mino Carta para a revista IstoÉ. Na Folha, fui repórter, redator, crítico, editor, correspondente em Portugal. Não sei se haveria mais espaços, cargos. Vivi os anos sem planos ou possibilidades internas de carreira.

Continuei apenas como crítico teatral, colaborador, até 1984, quando a Folha iniciou outra etapa. Entreguei pessoalmente essa última função ao Otavio Frias Filho, e fui embora.

Não vou agora apanhar uma boa frase de Trotsky ou Malraux (grandes admirações de Cláudio Abramo). É a Regra do Jogo, título do seu livro, fundamental.

Logo, valho-me de Caetano : ‘Sem mágoas, estamos aí’.

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Jornalista, crítico teatral e professor de Jornalismo Cultural na Cásper Líbero

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