Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Olga em agosto

Por Deonisio da Silva em 24/08/2004 na edição 291

Faz cinqüenta anos que o presidente Getúlio Vargas se suicidou. Esta é a principal efeméride de agosto. Sobre o tema têm aparecido textos de todos os tipos. Afinal, há meio século buscam-se esclarecimentos adicionais à tragédia que desconcertou a todos, porém a ninguém mais do que a seus inimigos.


O tempo, algoz implacável de todas as lembranças, que desfigura umas e agiganta outras, é grande aliado do ficcionista. Nossa verdade é literária. Não precisamos ser fiéis ao documental. O documental é a barra sobre a qual saltamos, como se estivéssemos numa olimpíada. Não somos apreciados por nos fixarmos a ela, mas pelos vôos feitos a partir de assimetrias diversas.


Assim, nossa imaginação brota no terreno fértil da História. Ocorre, porém, podendo isso parecer heresia aos pesquisadores, que o romancista jamais poderá deixar-se subjugar pela História.


Pesquisando sobre figuras que rodearam Getúlio Vargas, alguns depoimentos me deixaram muito surpreso, entre os quais o de uma sobrinha-neta de Oswaldo Aranha, a quem conheci numa sessão de autógrafos de meu romance A Cidade dos Padres, cujo lançamento deu-se na cidade de São Borja, por ter sido o município um dos Sete Povos das Missões Jesuíticas, e o de um advogado que passeou a cavalo com o então presidente deposto durante muitas manhãs.


O companheiro de cavalgadas matinais com aquele que foi o maior estadista brasileiro me assegurou que não houvera suicídio, que ele sabia a verdadeira história e que um dia a contaria. Nela Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente, desempenharia papel ainda maior do que lhe coube.


Um dia escreverei um romance, misturando alguns outros Gregórios, entre os quais um rio de São Carlos, no interior de São Paulo, que já desmoralizou várias autoridades! Todos os que prometeram conjurar as molecagens do riacho, que volta e meia inunda a cidade, pagaram alto preço pela imprudência de o considerar subjugado. O mais recente, excessivamente confiante, espalhou que todos os antecessores tinham falhado porque desconheciam as artimanhas e sutilezas da engenharia. Quando março trouxe a estação das chuvas, lá estava Gregório desmoralizando o pernóstico.


Amor e segurança


Este agosto marca também o lançamento de Olga, filme de Jayme Monjardim, baseado na obra homônima de Fernando Morais. Inconformados, alguns comentaristas proclamam que há distância abissal entre livro e filme.


Nada, porém, me deixou mais perplexo do que a principal restrição dessas resenhas: o filme esmerou-se mais no lado humano de Luís Carlos Prestes e de sua esposa Olga Benário. Os resenhistas não estão pondo no devido relevo a figura de Sabo, nome de guerra de Auguste Elise Saborowski, esposa de Arthur Ernst Ewert, codinome Harry Berger. Sabo e Olga, deportadas no mesmo navio, morreram no mesmo campo de concentração. Olga, na câmara de gás. Sabo, tuberculosa.


Eis aí um viés ao qual escritor nenhum pode ficar indiferente. Gosto do lado humano. O resto o tempo diluirá. O lado humano, não. Este é eterno. Por isso, vêm obtendo extraordinária receptividade as obras que tratam do lado humano das grandes personalidades da História.


Talvez fosse o caso de as empresas jornalísticas providenciarem oficinas que ensinem a fazer resenhas, vez que a escola está fracassando também neste ponto. Como levar a sério esses comentários que começam sempre pela mesma tecla, anunciando que o roteiro não é fiel ao livro? Esses mesmos comentaristas, quando assistem à Guerra e Paz, como o avaliam? E será que Dr. Jivago foi fiel ao livro? Não terá dado excessiva importância a um obscuro médico e escritor cujo coração apaixonado estava dividido entre a mulher e a amante, deixando a Revolução Russa como pano de fundo apenas?


Luís Carlos Prestes esteve muitos anos proibido de se apaixonar, comportar-se como um ser humano. Era um homem maduro quando começou a viver sua paixão avassaladora pela mulher que o acompanhara da Europa até aqui para fazer a sua segurança. Pois foi o que ela fez! Deu-lhe muito mais do que a segurança que um outro funcionário poderia providenciar. Deu-lhe a segurança do amor. E deu-lhe a filha.


‘Do seu lado’


O filme de Jayme Monjardim não diz tudo, como todo bom filme. O repertório de cada um entra em cooperação com atores nas salas de exibição. O filme não é sobre Luís Carlos Prestes. É sobre Olga. No fundo de muitas resenhas vaga um fantasma difuso e confuso que não demora a revelar a um olhar mais atento o seguinte: no porão do Brasil é duro aceitar que há mais de meio século, antes de qualquer movimento feminista, uma mulher teve participação decisiva na vida nacional.


Olga ilumina as trevas que cobriam a figura do grande líder por quem se apaixonou. Depois dela fica mais humana a figura que fez uma das maiores campanhas militares de todos os tempos, a coluna Miguel Costa-Luiz Carlos Prestes, mais conhecida apenas como Coluna Prestes.


Quanto ao filme, como sói acontecer, é provável que agora novas legiões de leitores queiram ler o livro de Fernando Morais, este notável escafandrista da vida brasileira, capaz de conciliar rigor de pesquisa e narrativa saborosa. Teses, quase sempre ilegíveis, cumprem alguma função, mas fracassam no principal projeto de quem escreve: revelar aos que as lêem o que descobriu quem as escreveu.


Há notórias exceções, mas todos sabemos que a norma é que sejam ilegíveis. Quando acabei de ler o livro de Fernando Morais, tive impressão semelhante à que me veio quando concluía a leitura de Os Revolucionários de 35, de Marly Gonçalves Vianna (São Paulo, Companhia das Letras). Ela obteve o título de doutora com este livro. É raro encontrar doutores e jornalistas que escrevam bem. Quando isso acontece, é motivo de júbilo para todos, como se dizia em antigas orações.


Uma das cenas mais belas do filme está no diálogo entre pai e filha. Exasperada, Olga pergunta ao pai de que lado ele está no meio da confusão da ascensão nazista. Ele diz: ‘Do seu lado’. No cinema, ao meu lado, várias pessoas começaram ali a chorar. E choraram muitas outras vezes ao longo da sessão.


Em resumo, filme e livro vão bem, obrigado. Já as resenhas…

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