Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

MARCHA DO TEMPO > OCTÁVIO FRIAS DE OLIVEIRA

Outros tempos, o mesmo refrão

Por Alberto Dines em 09/05/2006 na edição 317

Os comentaristas políticos desprezaram, os cadernos ditos ‘literários’ acharam que não era com eles (e não era mesmo), a editora não está entre as ‘queridinhas’ das redações e, assim, passou em brancas nuvens o lançamento das memórias do general Sylvio Frota, Ideais Traídos – a mais grave crise dos governos militares narrada por um de seus protagonistas (Jorge Zahar, Rio, 2006), com apresentação de Celso Castro e Maria Celina d’Araujo.


As memórias de Sylvio Frota são burocráticas, difíceis de ler, mas oferecem informações preciosas. Mais do que a radiografia de um linha-dura é uma tomografia do ‘pensamento militar’ – e nela aparece intacta a ojeriza à imprensa. No momento em que esta ojeriza está sendo modernizada e assimilada pela esquerda, pela direita macartista e pelos populistas, convém revê-la em estado natural.


A mídia e alguns círculos acadêmicos colocaram a dupla G-G (Geisel-Golbery) no panteão dos heróis e, com isso, varreram ‘o outro lado’ que ofereceria os contrastes para desenhar os personagens, situações e ações que marcaram o início da chamada ‘distensão lenta e gradual’.


Fica visível um preconceito, aliás pouco acadêmico, de privilegiar uma facção em detrimento da outra quando, na realidade, a ‘linha dura’ e a ‘linha branda’ fazem parte do mesmo fenômeno. Estiveram juntas no início (março de 1964), na radicalização (dezembro de 1968) e ao longo do governo Médici (até 1973).


Só conflitaram na escolha do seu sucessor – os ‘duros’, paradoxalmente a favor de um civil (Leitão de Abreu), e os ‘brandos’ apostando num militar castelista (Ernesto Geisel) que, ironicamente, não serviu na Força Expedicionária Brasileira (FEB) e não se mostrava muito afinado, em plena Guerra Fria, com alguns dos paradigmas ditos ‘ocidentais’.


O Pacote de Abril, de 1977, merece ser examinado porque seus efeitos estão até hoje incorporados à nossa legislação político-eleitoral e, tudo indica, para sempre (pág. 344). O episódio do ‘Voto sionista’ (pág. 191) reforça alguns traços preconceituosos do general Geisel que o jornalista e historiador Elio Gaspari já insinuara na sua monumental obra sobre a ditadura militar.


Semanas depois


Num momento em que a imprensa volta a servir de bode-expiatório é oportuno lembrar uma passagem do livro onde o autor escancara o seu desapreço pela imprensa. É mais uma homenagem ao publisher da Folha de S.Paulo, Octávio Frias de Oliveira, que naqueles dias difíceis de 1975-76 soube tourear as pressões sobre o seu jornal enquanto outros se acomodavam à autocensura.


Às páginas 256-257 está o fac-símile do Aviso de 22/01/76, do ministro do Exército Sylvio Frota ao seu colega Armando Falcão, ministro da Justiça:




Senhor Ministro: há dois ou três dias venho pedindo a V.Exa enérgicas providências contra a Imprensa e, em particular, a de São Paulo, que através de artigos violentos, injustos e revoltantes, tem procurado lançar o Exército contra o Governo e desmoralizar um de seus mais insignes Chefes movimentado, por necessidade do serviço, em virtude de decisão presidencial.


Não obstante as providências que, estou convicto, V. Exa tomou, esta campanha difamatória prosseguiu hoje no jornal FOLHA DE SÃO PAULO, agora em termos ultrajantes ao Exército.


Dentro do espírito que norteia o comportamento dos militares, espírito este de disciplina, compreensão e acatamento às decisões do Comandante Supremo das Forças Armadas, mostram-se todos, Generais e Oficiais, indignados com esta atitude da Imprensa que, valendo-se de uma circunstância de serviço, provoca, talvez guiada por elementos dissociadores nela infiltrados, a mais legítima repulsa.


Permita-me, Senhor Ministro, perguntar que imagem fará o povo do nosso Exército lendo o artigo que tenho a honra de encaminhar a V. Exa, em anexo, assinado pelo jornalista Alberto Denis [sic].


Em face do exposto, solicito a V. Exa seja responsabilizado o autor de tais infâmias, nos termos da Lei de Segurança Nacional, esperando que, desta vez, seja atendido o pedido do Ministro do Exército, que o faz em nome da defesa de sua classe e da dignidade de um General de probidade e caráter ilibados, com relevantes serviços prestados à Pátria, que está tendo sua honra conspurcada.


Renovo a V. Exa. etc.etc.


Os informantes do ministro erraram ao identificar o nome do jornalista cujos artigos apareciam com as iniciais A. D. (os articulistas da página 2 da Folha eram então identificados por iniciais, seguindo o padrão há muito adotado pelo Estadão). Eis o texto que na manhã de 22 de janeiro de 1976 foi publicado na página 2 da Folha e que tanto incomodou o ministro Frota:




Uma Vitória da Arena


Um suspiro de alívio toma conta do País. O governador Paulo Egídio toma alento para fazer sua profissão de fé antitotalitária sem medo de ser enquadrado como comunista, jornais ganham sua desenvoltura, políticos se desanuviam, militares se solidarizam com o presidente Geisel no verdadeiro ‘esprit de corps’ em torno do valores da corporação.


Até o secretário de Segurança do estado, abandonando a postura de caçador, volta-se para sua função precípua, qual seja a segurança coletiva, num salutar, ainda que tardio, renascimento de seu espírito público. Cada um, à sua maneira, se deixa penetrar pelo clima de distensão que, afinal, começa a peneirar em todos os setores e níveis da Nação.


Não houve um ato isolado na troca de comando no II Exército. Nesta magnitude, qualquer movimento ganha majestade e importância. Na exoneração do comandante do II Exército houve uma decisão doutrinária de reconduzir a Revolução ao modelo democrático que a inspirou e lhe deu a sustentação popular inicial. O programa de 1968 recebeu seu primeiro grande abalo e o espírito de 1964 ganhou sua primeira revitalização, doze anos depois.


Um país não pode crescer apenas impulsionado pela histeria anti-subversiva. Não há exemplo, na história, de nenhuma nação que engrandecesse no frenesi da violência, a não ser a URSS. Pergunta-se: é a Rússia o paradigma da linha dura brasileira? Ou aconteceu, como já dissemos antes, que nesta longa perseguição, caça e caçador tenham se identificado de tal forma que o modelo comunista foi insensivelmente adotado como padrão para os anticomunistas?


É preciso que as classes produtoras e meios empresariais que, por longo tempo, alimentaram com recursos e ânimo as empreitadas da violência em São Paulo, convençam-se definitivamente de que o progresso econômico só pode ocorrer onde exista o progresso de valores. Os diretores de ‘marketing’ deveriam saber que uma sociedade oprimida não compra, toma.


Se os acontecimentos da segunda-feira fazem parte de uma política, é preciso então que haja conseqüência. A vitória da Arena, por exemplo, terá de ser conseguida nas urnas e, isto, além do óbvio, é relativamente fácil – desde que não se entregue ao MDB a capitalização de todas as boas e nobres causas.


É preciso não esquecer que foi o presidente Geisel, da Arena, o autor do grande safanão na linha dura e não o presidente da Oposição, Ulisses Guimarães. Esta ousadia deve ser transformada em votos.


Quando operários, jornalistas, políticos e estudantes deixarem de ser torturados e mortos em dependências militares, então será retirado do partido da Oposição seu grande triunfo, sua plataforma emocional. Quando o Governo dissolver o encadeamento entre corrupção e histeria ideológica que se instalou nos meios acadêmicos (veja-se agora o caso da UFRJ), sindicais, empresariais e administrativos, então a Arena terá meios de eleger vereadores e fazer seus prefeitos, sem precisar recorrer ao instrumental de intimidação e arbítrio.


O general Ednardo de um lado, os falecidos Herzog e Fiel, de outro, representam a trágica divisão que se implantou no País. Mesmo sem guerra, temos instalada entre nós uma catastrófica secessão, partindo a Nação ao meio. Veja-se que nas eleições de 1965, quando a Oposição foi vitoriosa, a plataforma que a consagrou não envolvia direitos humanos, liberdade de imprensa, redistribuição da renda. O próprio presidente Castelo apoiou vários candidatos a governador da Oposição, talvez a única vitória eleitoral da Revolução. Foi uma disputa entre partidos, política, e não um confronto apocalíptico de vida e morte, onde vale tudo.


Esta mortal estigmatização – comunista é todo aquele que ousa discordar e patriota todo aquele que se põe a caçar comunistas – infelizmente começava a configurar-se na pessoa do general Ednardo à frente do II Exército.


Chegou a vez de mudar, e não apenas de comandos, mas de espírito. Homens de bem não podem mais ser presos como se fossem criminosos e criminosos não podem continuar impunes, só porque empunham a bandeira ideológica. Chegou a vez da Aliança Renovadora Nacional renovar-se e assumir o seu papel reformador. Foi ela a grande beneficiada das ocorrências em São Paulo. (A.D.)


***


O ministro Armando Falcão procurou Octávio Frias de Oliveira e transmitiu oralmente os termos da reclamação do colega militar. O publisher da Folha só informou ao articulista de seu jornal sobre a queixa semanas depois. Não queria intimidá-lo.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/05/2006 Max Morel

    Prezado Jornalista Alberto Dines
    Lendo seu artigo: ‘outros tempos …’ não posso deixar de comentar o seguinte: (e me perdoe o respeitado Jornalista pelas obviedades que sou obrigado a escrever)
    O Senhor elogia o ‘publisher’ da Folha de São Paulo, Otavio Frias de Oliveira, e comenta sobre o artigo de sua lavra naquele jornal em 1976, querendo demonstrar que ele enfrentou os militares linha dura.
    Só para constar: após a edição do AI-5, mais precisamente, nos anos de 69,70, 71, 72 e 73 nós vivemos o pior período do Regime Militar, quando então o jornal O Estado de São Paulo (este sim) sofria os rigores da censura, com os famosos poemas de Camões e receitas de culinária (no JT). Neste perído a Folha de São Paulo era um jornal insosso, inodoro, e que eu saiba , sem sofrer censura. Somente com a chegada ao poder do General Geisel, a Folha de São Paulo, sob o comando do bravo Jornalista Boris Casoy, foi transformada em um jornal de oposição (afinal, não poderiam deixar só o Estadão neste papel, dizia o dono da Folha então). Com Casoy vieram os melhores (e aí aposto que o nobre Jornalista chegou nesta ocasião). Lembro com saudades de nomes como: Paulo Francis, Claúdio Abramo, depois Samuel Wainer, entre outros.
    O que eu gostaria de registrar é que faltou no seu artigo o elogio ao jornal O Estado de São Paulo, na ocasião o baluarte da democracia e da liberdade no Brasil. A Folha de São Paulo só entrou neste jogo no final do segundo tempo (idos de 1976), quando a censura já tinha sido abolida pelo pres. Geisel (no Estadão, em 1975, no início do ano).
    Era isto.
    Desculpe se insisto, mas não me parece muito justo, para dizer o mínimo, seu elogio ao dono da Folha (que ~também editava um jornal mundo cão: Notícias Populares: aquele que se espremer sai sangue)
    Registro o profundo respeito que tenho pelo senhor e pelo seu passado de excelente jornalista.
    Max

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem