Provas falsas e linchamento moral | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

MARCHA DO TEMPO > CASO DREYFUS

Provas falsas e linchamento moral

Por Giulio Sanmartini em 31/08/2004 na edição 292

Muito oportuna a analogia feita por Alberto Dines do caso Ibsen Pinheiro/Veja, com o caso Dreyfus. Passados 100 anos de seu início, deu-se a cassação do deputado Ibsen Pinheiro (18/5/1994), ao que tudo indica, também motivada por fatos falsificados.

O Affaire Dreyfus resultou na imortal peça jornalística do escritor francês Emile Zola (1840/1902) J’Accuse, que dividiu o povo, os intelectuais e a imprensa francesa em duas partes, os dreyfusards e os antidreyfusards. Como o caso Ibsen ainda não está de todo esclarecido, tudo leva a crer que o affaire ainda será muito citado, portanto é interessante conhecer sua história.

Tudo começou em 1894, quando Marie Bastian, agente da contra-espionagem francesa, que trabalhava disfarçada de faxineira na embaixada alemã de Paris, encontrou no cesto de lixo do adido militar von Schwartzkopen pedaços de uma carta rasgada, que juntados, revelavam segredos sobre armamentos franceses. Esse bilhete, durante o processo,tornou-se conhecido como bordereau.

A França, depois de ter sido derrotada pelos prussianos na batalha de Sedan (1870), onde até o imperador Napoleão III foi feito prisioneiro, para justificar-se passou a falar em traição. A relações tensas com os outros países europeus criou uma onda de nacionalismo exacerbado e junto com ele também de xenofobia. Obviamente era impossível imaginar que o traidor fosse um oficial do Estado-Maior, que constituíam uma casta rigidamente selecionada, de preferência pertencentes à nobreza. Tinha que se encontrar o culpado entre os oficiais que estivessem ali cumprindo tirocínio. Caiu como uma luva o nome do jovem capitão Alfred Dreyfus (1859-1935), pois era de origem alemã, vinha da Alsácia e tinha optado pela nacionalidade francesa em 1871; mais que tudo, era hebreu. Em 1886, havia sido publicado o livro La France juive, de Edouard Drumont, que teve grande sucesso de vendas e era de caráter anti-semita, tanto que estabelecia a seguinte equação: ‘Hebreu = traidor, por definição’.

A prisão de Dreyfus aconteceu em 13 de outubro do mesmo ano e teve ampla divulgação nos jornais. Levado à Corte Marcial, o julgamento, entre os dias 19 e 22 de dezembro, foi feito a portas fechadas, sob a alegação de sigilo das informações em questão. A imprensa foi toda favorável a uma condenação exemplar, alguns jornais noticiaram que Dreyfus tinha dívidas de jogo e uma amante dispendiosa. O Conselho de Guerra, composto pelo coronel Maurel e mais 5 juízes, condenou-o por unanimidade à degradação e à deportação perpétua. As provas contra ele foram somente o tal bilhete anônimo encontrado num cesto de lixo e um dossiê secreto, mas tão secreto que nem o réu nem seu defensor puderam tomar conhecimento de seu conteúdo.

Sua degradação aconteceu em 5 de janeiro no pátio interno da Escola Militar. Foram-lhe arrancados os graus e quebrada a espada. A multidão que assistia à cerimônia do lado de fora do pátio gritava insistentemente ‘Morte ao traidor’ Quando ele saiu, agrediram-no a socos e pauladas. Com grande dificuldade a escolta conseguiu evitar seu linchamento.

Esquerda e direita

Dreyfus foi mandado para a prisão na Ilha do Diabo (Guiana Francesa), onde ficou preso, incomunicável, até proibido de escrever. Sua mulher e seu irmão Mathieu, ajudados pelo escritor Bernard Lazare, tentaram em vão reabrir o processo. Os franceses eram de opinião que o tribunal militar fora muito condescendente: Dreyfus deveria ter sido condenado à morte. Até a comunidade hebraica era contra a reabertura de um caso que manchava sua honra.

Surgiu uma novidade em março de 1896: o tenente-coronel Georges Picquart, que havia assumido no ano anterior a chefia do Serviço de Informações da Estado-Maior, descobriu um contato da embaixada alemã com o major Walsin-Esterhazy, nobre de origem húngara, este sim, dado ao jogo, cheio de dívidas e envolvido em negócios escusos. Recebeu também um relatório de uma agente francesa em Berlim, informando que o serviço secreto alemão desconhecia totalmente o capitão Alfred Dreyfus, que seu informante era um major nobre e condecorado. Picquart certificou-se de que a caligrafia do bordereau coincidia com a de Esterhazy, e assim decidiu, contra a cúpula militar, reabrir o caso Dreyfus. Por seu lado, Esterhazy pediu para ser julgado por um tribunal militar. Foi absolvido e tornou-se por um momento herói da época.

Em 10 de novembro do mesmo ano, os jornais conservadores Le Matin e L’Éclair publicaram um facsimile do bordereau e alguns documentos ditos ‘secretos’, pensando dessa forma encerrar o caso, mas o efeito foi contrário, pois revelou que a caligrafia de Dreyfus era totalmente diferente da dos documentos. Começaram a tomar a defesa de Dreyfus alguns intelectuais, o filosofo Lucien Herr, os hitoriadores Albert Mathiez, Paul Mantoux e Leon Blum, o sociólogo Lévy-Bruhl e Durkheim, o cientista político Sorel, o economista Simiand, os literatos Charles Peguy, Marcel Proust, Anatole France, Sarah Bernhardt, Andre Gide, pintores como Monet, Pissarro, Toulouse-Lautrec, Signac.

Também os jornais Petite République, Le Siècle, Le Figaro, Le Rappel. Mas existiam também os antidreyfusards apoiados pelos jornais Le Croix, Le Plerin, por professores e estudantes da Sorbonne e nomes como os de Alphonse Daudet, Maurice Barrès, Charles Maurras, Paul Valery, Jules Verne, Renoir, Cèzanne e Degas.

Zola não viu reabilitação

Desde maio de 1896, Emile Zola, vinha escrevendo artigos no Le Figaro contra as teses anti-semitas de Drumont, publicadas sistematicamente no jornal La libre parole. Zola, sem citar Dreyfus, incitava os jovens franceses no sentido de se manifestarem na procura da justiça. Não obtendo os resultados esperados, resolveu escrever carta aberta ao presidente da República, dando nome a todos os envolvidos no Affaire Dreyfus. Esta carta, intitulada J’Acuse, foi publicada no jornal L’Aurore, de Georges Clemenceau, em 13 de janeiro de 1898, tornando-se panfleto único na história jornalística do século 19. Por este motivo, Emile Zola foi processado sob acusação de vilipêndio às forças armadas, sendo condenado, sob aplausos da grande maioria da população parisiense, a um ano de prisão e multa de 3 mil francos. Essa condenação foi anulada por vícios processuais, mas Zola voltou a ser condenado e exilou-se em Londres.

Nesse mesmo período o major Esterhazy foi preso por fraude, expulso do exército e fugiu para Londres. Numa entrevista ao jornal Le Matin, reconheceu que o bordereau, a peça fundamental na condenação de Dreyfus, fora escrito por ele, com o objetivo de lançar uma isca contra o serviço secreto alemão. Na França, a direita se agitou, afirmou que o país estava ameaçado por inimigos internos e externos e que a prova da inocência de Dreyfus punha em risco o prestígio do exército. Dreyfus foi solto e voltou à França. O presidente da República sofreu atentado dos monarquistas, e os antidreyfysards quiseram linchá-lo, Assim, foi levado de volta à cadeia para esperar um segundo julgamento, que aconteceu em 7 de agosto de 1899. O tribunal militar tornou a condená-lo, mas desta vez a 10 anos de trabalhos forçados.

No dia 12 de julho de 1906, 12 anos depois de ter sido condenado e desonrado, pela maior calúnia na história do país que se dizia civilizado e tinha por dístico ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, o capitão Alfred Dreyfus foi reintegrado ao exército, que lhe conferiu a Legião de Honra.

Emile Zola não pôde assistir a esse fato: morreu em 5 de outubro de 1902. Todavia, seu J’Acuse ficou registrado de forma definitiva na história da humanidade.

******

Jornalista

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem