Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MARCHA DO TEMPO > CLÁUDIO ABRAMO E A FSP

Quando a Folha se tornou a Folha

Por Leticia Nunes em 04/07/2005 na edição 336

Poucos momentos foram tão importantes para o jornalismo brasileiro como os anos entre 1975 e 1977, quando um empresário e um jornalista se juntaram para iniciar o processo de transformação de um jornal sem expressão em um dos maiores veículos de comunicação do país. Esta virada completa agora 30 anos.

A Folha de S.Paulo já era conhecida dos leitores paulistas quando passou a ser comandada por Octávio Frias de Oliveira, que assumiu o controle acionário da empresa, em parceria com Carlos Caldeira Filho, em 1962. Com esse nome, o jornal tinha apenas dois anos de existência, mas a primeira de suas publicações-irmãs – a Folha da Noite – havia sido lançada no início da década de 1920. Depois sugiram a Folha da Manhã, onde pontificavam colaboradores como Sérgio Buarque de Hollanda, Antonio Candido e Florestan Fernandes, e que em 1960 se transformou em Folha de S.Paulo; e Folha da Tarde, título extinto em 1999 para dar lugar ao Agora.

No início dos anos 1960, a Folha não contava com muito prestígio. Na verdade, não contava com prestígio algum. Era um jornal que simplesmente não fazia diferença e, quando comparado ao Estado de S.Paulo, o grande modelo da época, apagava-se. Ao assumir o controle da Folha, Octávio Frias de Oliveira tinha o sonho de fazer um jornal independente. Dois anos depois de fechar o negócio, estourava o golpe militar de 1964.

Sem destaque, com censura

O fim da década de 1960 foi especialmente difícil para a imprensa brasileira, de mãos atadas pela censura. Nesse período, a Folha cresceu como negócio – Frias não era jornalista, mas sabia muito bem como administrar uma empresa – e degradou-se como meio de informação. A fase mais severa da ditadura terminou em 1974, com a saída do general Emílio Garrastazu Médici da presidência da República. Seu sucessor no poder, o general Ernesto Geisel, deu início ao período de distensão política – lenta, segura e gradual, comme il faut.

Frias soube aproveitar a distensão. Desde 1964, contava com a assessoria do jornalista Cláudio Abramo (1923-1987), que havia pouco deixara o Estado de S.Paulo, onde comandou importante reforma editorial e gráfica na década de 1950. Abramo passou a escrever análises diárias na Folha e logo tornou-se secretário de redação e amigo de Frias.

Opinião, opinião e mais opinião

Foi Cláudio Abramo o personagem principal da reforma que mudaria o rumo da Folha, a partir de 1975. "Cláudio mostrou ao Frias que, para ele ganhar mais dinheiro, precisava de influência, e para ter influência tinha que ter um bom jornal", diz Alberto Dines, um dos primeiros a ser chamados para participar da mudança. Frias, certeiramente, apostou nas idéias de Abramo.

A reforma consistia basicamente na injeção de opinião nas páginas da Folha. O objetivo era trazer o debate para dentro do jornal, celebrar a pluralidade. Daí nasceram a página 2, com editoriais e artigos opinativos; a seção "Tendências/Debates", na página 3; e a coluna dominical "Jornal dos Jornais", com foco na crítica de mídia, assinada por Dines. Com o sangue novo injetado por Abramo, a Folha de S.Paulo renasceu e ganhou a credibilidade que lhe faltava.

A estréia da página 2 deu-se numa quinta-feira, 26 de junho de 1975. Neste dia, o colunista Lourenço Diaféria – que dois anos depois seria o pivô que minaria o processo de abertura da Folha – escreveu sobre a censura no artigo "Lição de casa, não muito fácil":




"Não conheço esta senhora pessoalmente. Sei que às vezes costuma freqüentar as redações e mesmo as oficinas de jornais, ali se aboletando, e tais visitas não são de simples cortesia. Viam-na amiúde, tempos atrás. Hoje aparece num ou noutro lugar, de acordo com seu temperamento instável. […] Soube, de orelhada, dos vários timbres da sua voz, pois ela aprecia muito falar no telefone. Gosta de dar telefonemas, às vezes fora de hora. Sucintos, secos e definitivos. […] Outra coisa: onde essa mulher passa, deixa sempre buracos."

A dobradinha dos artigos de opinião com a seção "Tendências/Debates", na página 3, veio um ano depois, em 22 de junho de 1976. Abramo, que diagramou a dupla de páginas, queria que a presença de pessoas de fora do jornal fosse ampliada.

O fim do início

Mas a distensão tinha limites. A Folha os conheceu em 16 de setembro de 1977. No caderno "Ilustrada", o espaço destinado à coluna de Lourenço Diaféria apareceu em branco. Ao pé da coluna, a explicação numa Nota da Redação: o colunista havia sido preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Duas semanas antes, Diaféria publicara um texto considerado ofensivo pelos militares.

Na crônica "Herói. Morto. Nós", ele exaltava um sargento que morrera ao pular num poço de ariranhas do zoológico de Brasília para salvar um menino, comparando-o ao duque de Caxias, patrono do Exército. Dizia o trecho que enfureceu os militares:




"Prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas ao entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar".

A repressão veio no mesmo dia da publicação da coluna em branco. Frias recebeu telefonema nada amigável do general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar do governo Geisel. O general ameaçava fechar o jornal caso o espaço da coluna continuasse a ser publicado em branco e as críticas ao governo não cessassem. Neste momento termina a influência direta de Cláudio Abramo no jornal. Em seu livro A Regra do Jogo (270 pp., Companhia das Letras, São Paulo, 1988), ele afirma que "tinha de novo ficado muito importante".

Na ocasião, o general linha-dura Sílvio Frota, ministro do Exército, tinha planos de suceder Geisel. "[Frota] estava preparando o golpe. Se ele vencesse, eu seria fuzilado e Frias, preso; e, se tentasse o golpe e perdesse, o herói seria eu. De modo que a situação não interessava a Frias, de um jeito ou de outro", lembrou Abramo, no livro. O artigo de Diaféria, publicado na Semana da Pátria, foi apenas um pretexto para que Frota pressionasse Geisel. Frias foi obrigado a recuar e Abramo teve de deixar a direção da redação. Em seu lugar assumiu Boris Casoy.

A história de Cláudio Abramo com a Folha não acabou aí. Ele continuou no jornal como editorialista e membro do Conselho Editorial, até 1979. Foi correspondente em Londres e Paris. Em 1984, passou a escrever a coluna "São Paulo", na página 2. Morreu em 1987.

Em 1975, Otavio Frias Filho, filho de Octávio Frias de Oliveira, começou a trabalhar na Folha. Substituiu Casoy na chefia da redação na década de 1980 e deu início ao Projeto Folha, com o objetivo de implantar os princípios de um jornalismo crítico, moderno, apartidário e pluralista na redação.

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