Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MARCHA DO TEMPO > ENTREVISTA / JOEL SILVEIRA

Repórter velho de guerra

Por Douglas Portari em 15/02/2005 na edição 316

Ele roubou uma namorada de Juscelino Kubitschek, mas conservou a camaradagem do político mineiro. Arrancou um aumento de salário do chefe, Adolpho Bloch, o dono da Manchete, aproveitando-se de um tropeço verbal. Com um texto mordaz, era chamado de víbora pelo temido Assis Chateaubriand. A carreira de seis décadas de jornalismo estourou aos 26 anos ao cobrir a 2ª Guerra Mundial na Itália, ao lado dos soldados brasileiros. Hoje, aos 86, Joel Silveira vive cercado de livros em seu apartamento no bairro carioca de Copacabana. E seus relatos seguem ganhando as livrarias do país. Espera-se para abril o lançamento de O Inverno da Guerra, pela Editora Objetiva. Do Rio de Janeiro, o jornalista deu à reportagem da AOL a entrevista que segue.

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Um bunker, como muitos dos que ele encontrou na 2ª Guerra Mundial, é no que se transformou o apartamento da Rua Francisco Sá, em Copacabana, no Rio de Janeiro. A fortaleza só não é feita de concreto e arame farpado como as do front, mas de livros e memórias. Memórias de décadas de convívio com o poder e a intelectualidade brasileira.

Quem lá se refugia é o jornalista e escritor Joel Silveira, 86 anos, um `sujeito terrível´, segundo a definição feita nos anos 40 por Assis Chateaubriand, então o homem mais temido do Brasil. Sergipano da cidade de Lagarto, onde nem Lampião entrava, como Joel gosta de vangloriar-se, ele vive hoje um exílio voluntário.

Há quatro anos não sai do apartamento, que divide com duas acompanhantes e a esposa, Iracema, de 84 anos. ‘Já fizemos todas as bodas, só falta a de plutônio’, comenta sobre o casamento de 60 anos. Apenas as visitas esporádicas de poucos amigos e de seu médico quebram a rotina de Joel.

‘Minha doença é velhice e para essa não tem cura, não’, ironiza. O velho jornalista tem um problema não diagnosticado nas pernas que dificulta seu caminhar, além de uma doença na próstata, diabete e uma catarata que o impede de ler.

Assim como Jorge Luís Borges, quando assumiu a Biblioteca Nacional argentina e, cego, comentou a ‘esplêndida ironia de Deus em conceder-me a um só tempo oitocentos mil livros e a escuridão’, Joel vive em uma biblioteca com cerca de 18 mil volumes, que sua filha, a decoradora Elisabeth Silveira, de 56 anos, tenta ordenar.

‘Só falta livro no banheiro e na cozinha. Mas eu já li tudo, não tem mais nada do que ler’. Não é uma frase vazia. O ex-estudante de Direito que foi para o Rio de Janeiro em 1937, então com 19 anos, se viu enfronhado entre escritores e jornalistas como Graciliano Ramos, Rubem Braga, Jorge Amado e Carlos Lacerda, entre outros, convivendo por mais de 40 anos com a intelectualidade brasileira.

Escreveu para semanários como Dom Casmurro e Diretrizes, além de ter sido repórter de grandes jornais do país, como os do grupo Diários Associados e o Última Hora. Sua verve afiada lhe rendeu fama em reportagens como ‘Grã-finos de São Paulo’ ou ‘A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista’. Sua prosa jornalística com um pé na literatura também o coloca como um dos precursores do que se chamou de ‘novo jornalismo’.

A víbora

Hoje, Joel se inteira do mundo pela televisão. E é o mundo quem o procura. No ano passado, a Editora Companhia das Letras lançou dois livros com suas reportagens, A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, e A Feijoada que Derrubou o Governo. Outra publicação, Diário do Último Dinossauro, com lembranças de causos e tiradas do repórter foi lançada em janeiro último pela Travessa dos Editores.

Quem também remexeu no baú de Joel foi a Editora Objetiva, que em comemoração aos 60 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, lança em abril o livro O Inverno da Guerra, com as reportagens do jornalista no período em que esteve no front italiano junto com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Como correspondente dos Diários Associados, de Chateaubriand – que o havia apelidado de víbora quando de sua contratação – , Joel viu do que é capaz o ser humano. ‘Eu costumo dizer que fui para a guerra com 26 anos, fiquei lá dez meses e 11 dias, e voltei com 40 anos. A guerra me fez adulto’.

Este ‘ex-combatente’ é também um ex-bom copo, que só deixou de beber porque não tinha mais companhia – ‘meus amigos morreram todos e quem bebe sozinho é alcoólatra’. Ele só não abriu mão de uma boa conversa. Lembra datas e situações com exatidão e não poupa ninguém. Critica de Lula (‘deslumbrado com poder’) a FHC (‘não fez nada’), passando por Jorge Amado e Samuel Wainer.

E mesmo dizendo ao seu entrevistador ‘comandante, estou às suas ordens’, é ele quem dita os rumos da conversa. Não foge às respostas, mas entre elas, lembra causos, anedotas e passagens históricas que sabe porque as presenciou, como a ‘exposição’ do corpo de Mussolini, ao fim da guerra na Itália. E apesar dos problemas de saúde, que enumera, faz questão de frisar ‘estou lúcido!’. Quem ler, verá.



‘Eu tenho a impressão que o presidente Lula nunca leu um livro na vida’

Repórter que teve contato com todos os mandatários do país desde os anos 40, Joel Silveira relembra casos – como a amante que roubou de Juscelino Kubitschek – e não deixa escapar às críticas nem o presidente Lula e Fernando Henrique Cardoso.

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O que o senhor tem achado do governo Lula?

Joel Silveira – É um homem bem-intencionado, honesto, mas eu estou decepcionado, esperava mais. E outra coisa são aqueles discursos… Ele não conhece nossa língua, comete erros absurdos, diz ‘a gente pudemos’. Eu tenho a impressão de que o presidente Lula nunca leu um livro na vida. Isso para um presidente é um absurdo. Quando ele lê correto é porque o discurso foi escrito pelo José Dirceu, que escreve muito bem, ou por outros assessores, como o Celso Amorim, que também escreve muito bem. Ele tem excelentes assessores, mas quando improvisa, é um desastre.

Mas inteligência e cultura são coisas distintas…

JS – Exato, sem dúvida. Era o caso do Getúlio. Mas um presidente culto tem muito mais facilidade de enxergar o mundo, de ver o mundo realmente como é do que um presidente de poucas letras, como o nosso, não é? Daí essa intrigalhada no Planalto, essa briga do Dirceu, ministro brigando com ministro. Falta autoridade ao Lula, ele não assumiu ainda o poder. Ele é um homem bem-intencionado, ele é um homem honesto, mas ele está encantado com o poder. Está deslumbrado, o que é muito compreensível, porque um operário, um torneiro mecânico que era, de repente se vê presidente da República, é deslumbramento total. Perde a visão das coisas.

Por outro lado, nós tivemos oito anos de Fernando Henrique Cardoso, um intelectual. O que o senhor achou de seu governo?

JS – Exatamente, um intelectual, mas o governo dele foi mau. A privatização que ele fez… entregou tudo. O Brasil hoje não é dono de nada, não é dono de telefone, da luz… são grupos espanhóis, grupos americanos. E realização importante eu não me lembro de uma! Ele juntou dinheiro para pagar o FMI, com impostos terríveis. Não fez uma estrada, um hospital… O que é Fernando Henrique Cardoso fez? Não fez nada. É o que o Lula está fazendo também… agora, no fim do governo, é que ele está se mexendo.

O que o senhor aprendeu com sua proximidade com o poder?

JS – O Brasil teve dois estadistas. Apesar de não gostar de Getúlio Vargas – como não gosto de qualquer tirano, seja de esquerda ou de direita, várias vezes fui convidado a visitar Cuba e nunca fui, é uma ditadura, eu não visito ditaduras, nunca fui e não vou –, mas o Getúlio, apesar disso, foi um estadista. Getúlio criou um Brasil novo, industrializou o país. E Juscelino também. Ele descobriu o planalto, era realmente um democrata, muito simpático, muito agradável. Claro, ele criou a inflação, mas agora está devolvendo. Tudo o que ele gastou, o Brasil já recebeu 500 vezes em troca.

O senhor tinha uma relação de proximidade com Jânio Quadros. Ele alguma vez lhe contou o real motivo de sua renúncia?

JS – Sim, contou. Umas 123 vezes, no mínimo (risos). Cada vez que eu perguntava, ele vinha com uma versão diferente. Em um dos meus livros tem a história da renúncia, em que Jânio conta com detalhes essas coisas todas. Um dos motivos é que ele realmente tinha um bom plano de governo, mas não ia governar. Ele, numa câmara de, naquele tempo, quase 300 deputados, ele só tinha 17. Todo o resto o odiava porque ele derrotou a UDN, derrotou todos os partidos, ele foi eleito pelo povo. E os partidos jamais perdoaram isso porque o marechal Teixeira Lott [1894-1984] era tido como o novo presidente e, de repente, aquela avalanche do Jânio. [Jânio bateu Lott com apoio da UDN, que depois viria a romper com ele]. E os partidos começaram a fazer aquela oposição feroz. Depois, Jânio brigou com Carlos Lacerda. O Lacerda chegou um dia em Brasília, foi se hospedar no Palácio da Alvorada e na porta disseram ‘não, o presidente disse que o senhor não pode se hospedar aqui, não. Procure um hotel’. É que Jânio estava com uma mulher, aproveitou que Dona Eloá tinha ido a São Paulo, e estava com uma mulher no palácio. E Carlos Lacerda não podia ver isso. Isso são os bastidores do poder. O poder tem duas faces, a íntima é sempre escabrosa.

E por falar em bastidores, mulheres, há uma história de que o senhor teria `roubado’ uma amante de Juscelino Kubitschek. É verdade?

JS – É, é…. (risos), mas depois nós fizemos as pazes no Panamá. Ele tinha acabado de ser eleito governador de Minas Gerais [1950] e queria levar a ‘fulana’. E eu disse para ela ‘como é, você quer ir para Minas? Tem que escolher’. E ela escolheu.

Ela ficou com o senhor?

JS – Claro! (risos). Ficamos uns dez anos mais ou menos.

Então, o senhor era um conquistador…

JS – Não, não… Eu olhei para ela, ela olhou para mim… Aconteceu. Era o convívio diário na câmara, ela era taquígrafa do Palácio Tiradentes [a Câmara do país à época, e onde, então, Juscelino era deputado federal por Minas Gerais].

E o senhor fez as pazes com Juscelino?

JS – Eu estava no Panamá e ele também estava. Eu não me dava com ele e tal. Ele tinha acabado de ser eleito presidente da República [1956], tinha 15 dias. Coincidiu que houve uma reunião com os presidentes no Panamá, uma dessas reuniões inócuas, idiotas. Um calor tremendo e eu estou sentado lá em um jardim do Hotel Panamá quando ele veio e sentou-se ao meu lado. Eu disse ‘seu presidente, boa noite, tudo direitinho?’. Lá pelas tantas, ele pergunta ‘como vai a nossa fulana?’ e eu: ‘nossa, não, presidente, minha!’. Ele riu e nós ficamos amigos.

E as prisões durante a Ditadura de 1964, quando o senhor trabalhava no jornal Última Hora?

JS – Eu fui preso duas vezes na época do Castelo Branco. Com Garrastazu Médici… depois do AI-5… fui preso mais cinco vezes. Três pelo Exército, uma pela Marinha e outra pela Aeronáutica, mas essa foi de um dia só. Fizeram umas perguntas e me mandaram embora. As perguntas eram sempre as mesmas, uma coisa idiota: ‘Você é comunista?’. Eu dizia: ‘Eu não sou comunista, não pertenço ao Partido Comunista. Os senhores estão cansados de saber que eu sou é socialista, democrático. Socialismo, sim, mas com liberdade: você ter direito de dizer o que quiser, escrever o que quiser, de pensar o que quiser. Agora, quanto a essa ditadura dos senhores eu sou violentamente contra. Podem me prender, fazer o diabo, mas eu não vou dizer que não sou. Sou contra esse cinismo, porque não considero revolução. Os senhores deram foi um golpe.’

O senhor sofreu maus-tratos?

JS – Não, não. Sempre fui muito bem tratado. Porque tem aquele tal espírito da FEB e, como muitos dos golpistas eram da FEB, sempre me trataram bem. Por exemplo, quando era preso no Batalhão de Guarda, em São Cristóvão (RJ), em vez de me botarem naquelas celas que tinha lá, me davam as salas dos generais. A mim e ao [Carlos Heitor] Cony. E deram a ele porque eu pedi. Eles não conheciam o Cony. Ele tinha sido preso por causa de uma coluna que escrevia no Correio da Manhã arrasando com a revolução. Minha prisão em 1964 foi rápida, a que demorou mais foi uma em que eu fui preso no dia 13 de dezembro de 1968, o dia do AI-5. Passei o fim do ano lá e só saí na véspera do carnaval. Mas me facilitavam… Eu, por exemplo, uma vez, chamei o coronel que era o comandante lá e disse ‘coronel, eu tenho que viver, tenho que pagar minhas contas, tenho que dar comida à minha família. O senhor dê um jeito de eu mandar buscar minha máquina de escrever’. Naquele tempo eu estava traduzindo as obras do Fellini para a Editora Civilização. ‘E o que é que você quer?’, ele perguntou. Eu disse ‘eu quero uma máquina de escrever e um livro que eu estou traduzindo do Italiano’. E imediatamente ele mandou um soldado aqui em casa apanhar uma máquina e o livro. O livro era o 8 ½. Eu traduzi esse livro da prisão e traduzi lá porque ele me deixou trabalhar, pelo menos. Naquele tempo, o coronel estava se arriscando. Foi um gesto nobre e corajoso.

As forças políticas mundiais mudaram bastante no século passado. O senhor faz apostas de como será este século?

JS – Eu tenho a impressão que começou a decadência do império americano. Porque a situação financeira americana é caótica. Clinton quando saiu do governo deixou um superávit de quase US$ 300 bilhões. Hoje, o déficit dos Estados Unidos já beira os US$ 600 bilhões. O dólar se desvaloriza do dia para o dia, o euro está acabando com o dólar. Além do mais, a Europa está contra os Estados Unidos. O único que está a favor é aquele capacho do Bush, o Tony Blair, e assim mesmo, já está cedendo. E temos aí a China, que é uma potência. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, tem um poderio atômico fantástico, uma economia fabulosa. E ela já começou a penetrar na América do Sul via Brasil. Querem instalar aqui o que era até então do domínio americano. Veio o presidente da China ao Brasil. Ele nunca foi aos Estados Unidos. Todo império tem sua fase de nascimento, ascensão e queda. Aconteceu isso com o império otomano, império romano e agora o império americano. Está na fase de decadência. Quando eles elegem um presidente com perspectivas, com esperanças, eles matam. Mataram o Lincoln, mataram o Kennedy e mataram o Bob Kennedy, que ia ser presidente. Basta um presidente ser bom que eles matam. E elegem quem? Lyndon Johnson, Nixon, o que há de pior… Bush, o pai; agora, o filho… Um absurdo, chega a ser surrealista.



‘A biografia do Samuel Wainer está cheia de inverdades, muitas. Ele fez a biografia que ele queria. Ele queria ser o que ele escreveu, mas não era’

Mais jovem dentre os correspondentes do front italiano durante a 2ª Guerra Mundial, Joel Silveira fala sobre Jornalismo, colegas de trabalho e do que ainda gostaria de fazer. ‘Saddam e bin Laden dariam grandes entrevistas’.

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Se o senhor fosse hoje dar uma aula-magna sobre Jornalismo o que diria aos estudantes?

Joel Silveira – Eu daria o mesmo conselho que me deu Herbert Mathews [1900-1977; correspondente americano que viria a ser editor-chefe do The New York Times de 1949 a 1967], que eu conheci na FEB. Uma semana por mês, nós íamos para a retaguarda e – correspondentes do mundo todo – nos reuníamos em Florença ou Roma em um bar e era uma bebedeira geral. Geral e internacional, havia de tudo. E o Matthews se tomou de simpatia comigo, porque eu era o mais jovem correspondente de guerra e eu comecei a conversar com ele com freqüência. Um dia ele disse assim: ‘Ô, Silveira, eu não entendo como vocês, soldados brasileiros, estão aqui lutando contra uma tirania quando vocês lá no seu país têm uma tirania. Vocês primeiro deviam derrubar a tirania lá’. Eu disse: ‘Olha, Mr. Matthews, o Brasil é muito complicado’, tentei explicar a coisa toda. Aí, um dia, eu perguntei ‘Mr. Matthews, para ser um grande repórter o que é que o senhor aconselha?’. Ele respondeu ‘Silveira, aconselho três coisas. Primeiro, persistência; segundo, paciência; e terceiro, sorte’. Eu até brinquei com ele dizendo ‘mas Mr. Matthews, tendo a terceira não precisa das outras’ (risos). Ele disse ‘é, realmente, você tem razão’ (risos). Mas o que se entende por sorte para um repórter, como é o nosso caso, é estar no lugar certo na hora certa. É o conselho que ele me deu e que eu repito, porque para mim até hoje ainda é válido.

O jornalista David Nasser disse uma vez que ‘repórter bom era repórter covarde quando em serviço’. Você concorda?

JS – Eu achava o David Nasser um canalha. Ele não era jornalista, era um mercantilista, ele vendia, ele se vendia. Tanto assim que terminou milionário. Aliás, tem uma frase do Chatô para o Nasser: ‘Seu Nasser, jornalista que não enriquece é um burro!’. Quando o Nasser me contou isso na redação da Manchete eu disse ‘bom, David, então, eu sou uma besta quadrada, porque sou o jornalista mais pobre do Brasil’. E sou, mesmo! Eu me considero o mais pobre do Brasil. Eu nunca fiz do Jornalismo escada para subir, para a política, para me vender. Sempre fui um jornalista, ou melhor ainda, um repórter. Nunca traí minha profissão, tanto que todo mundo sabe disso e por isso me respeita. Duvido que haja alguém aí que me acuse de qualquer coisa. Podem me chamar de feio, o que eu sou. É uma opinião. Podem dizer que eu escrevo mal, é uma opinião, eu respeito. Agora, dizer que eu sou desonesto, isso não. Aí eu processo!

Há uma anedota sua com o editor Adolpho Bloch sobre uma viagem a Israel…

JS – Eu fui quatro vezes a Israel, conheço Israel melhor que Sergipe. Um dia Adolpho me disse: ‘O senhor vai a Israel então vá ao Muro das Lamentações e bote lá um pedido. O senhor vai ver que vai ser cumprido!’. Eu fui. Na volta, nos encontramos, ele disse: ‘Você botou o seu pedido?’, eu: ‘Botei, Adolpho’. E ele: ‘Qual foi?’, falei ‘Pedi um aumento’. Aí, ele não podia negar, porque o muro era infalível… (risos) me aumentou o salário.

Qual reportagem o senhor tem mais orgulho de ter feito?

JS – Olha, eu não levo muito em conta o que fiz, não. Eu sempre fiz as coisas em cima da hora, não tem nada de elaboração, tinha que mandar imediatamente e tal. Mas a que fez mais sucesso, além da correspondência de guerra, foi a dos grã-finos de São Paulo, que teve uma repercussão muito grande. Aí que eu passei a ser conhecido, isso foi em 1943. Fiz muitas outras, revoluções… A queda de Somoza [1896-1956] na Nicarágua, o Bogotazo, em 1948 [revolta que se seguiu à morte do político liberal Jorge Eliecer Gaitan durante a 9ª Conferência Pan-Americana]…

Essa foi a reportagem do menino morto ‘olhando’ para o céu…

JS – Exato. O povo se revoltou e destruiu a cidade, Bogotá acabou. Inclusive, eu estava lá com o Antônio Callado [1917-1997], de quem eu era muito amigo, e naquele tempo ele estava casado com uma inglesa, e morando em um hotel do centro. O hotel em que eu e o Francisco de Assis Barbosa [1914-1991], que depois foi da Academia Brasileira de Letras, estávamos era um pouco distante do centro. E o hotel do Callado foi completamente destruído. Ele ficou com a roupa do corpo. Ele e a mulher. A conflagração demorou três dias. E quem também estava lá, aos 22 anos, sem barba, mas já comunista, chefiando uma delegação estudantil, era o Fidel!

Em 1944, Chateaubriand tinha três repórteres experientes que poderia enviar à Europa: Carlos Lacerda (1914-1977), David Nasser (1917-1980) e Edmar Morel (1912-1988). Por que acha que ele optou pelo senhor?

JS – Até hoje para mim isso é um mistério. Mas eu acho o seguinte, como o Carlos, o Morel e o Nasser eram muito amigos do Chateaubriand, além de estarem nos Associados há muito mais tempo do que eu, que estava recém-chegando, eu calculo que o Chatô, para não desagradar nenhum dos três, escolheu a mim. É o que eu penso, mas as razões verdadeiras, só ele poderia dizer. Quando ele me escolheu para correspondente de guerra eu tinha só 20 dias de Associados e 26 anos. Os outros já eram repórteres tarimbados, conhecidos. E bons repórteres, aliás.

Mas Chatô já conhecia seu trabalho da revista Diretrizes, por isso havia contratado o senhor…

JS – Já. Ele conheceu meu trabalho por causa daquela reportagem dos grã-finos de São Paulo. Eu era muito amigo de Virgílio de Melo Franco [1897-1948, advogado e político] e Virgílio era amigo de Chatô. Ele leu a reportagem, gostou muito, e sempre que se encontrava com Virgilinho dizia ‘Virgílio, me traga essa víbora, eu preciso dessa víbora aqui’. Quando o DIP [Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo] fechou a revista Diretrizes

Por causa da entrevista com o Monteiro Lobato (1882-1948).

JS – Exatamente, a entrevista que eu fui a São Paulo fazer. A entrevista era para ser literária, mas como Monteiro Lobato tinha horror do Getúlio, inclusive já havia sido preso duas vezes no governo dele, a coisa descambou para a política. E o Monteiro Lobato abriu fogo contra Getúlio. Ora, eu não podia deixar de publicar uma declaração de Lobato, não é? Era naquele tempo a figura literária mais importante do Brasil. E publiquei com aquela frase ‘O governo deve sair do povo, como a fumaça da fogueira’. O DIP, que já estava de olho, doido para fechar a Diretrizes, com isso, fechou. Eu fiquei desempregado. O Wainer se refugiou na embaixada da Espanha e eu fui a Sergipe.

Em sua autobiografia (Minha Razão de Viver), Samuel Wainer diz que o motivo do fechamento da revista foi outro: uma entrevista com um tio do Carlos Lacerda, que tinha sido do Komintern russo…

JS – Mentira, foi por causa do Lobato. Tanto assim que o último número da revista foi a entrevista com o Lobato. Aliás, o Wainer me trata até com elogios lá [na biografia], essa coisa toda. Mas nesse ponto [do fechamento da revista] ele mente muito. A biografia do Samuel está cheia de inverdades, muitas. Ele fez a biografia que ele queria. Ele queria ser o que ele escreveu, mas não era. Eu me lembro que vieram em casa falar sobre o Samuel [para a biografia]. Eu não falei mal, não contei muita coisa que o Samuel fazia porque ele estava muito por baixo na época e não se chuta gato morto, não é? Só contei as virtudes, as coisas boas do Samuel.

Mas com o fechamento da Diretrizes o senhor foi trabalhar com Chatô?

JS – Fui a Sergipe, fiquei lá uns 15 dias e na volta, procurei o Virgilinho e disse: ‘Olha, doutor, estou desempregado, veja se o senhor me arranja alguma coisa’. Ele disse: ‘Não, já está empregado’. Ele era muito imperativo. Entramos no carro e ele falou para o chofer: ‘Rua Sacadura Cabral’. Então vi que estávamos indo para o Diários Associados, que naquele tempo, era naquela rua. Subimos para o quarto andar, onde o Chatô tinha seu gabinete e Virgilinho abriu a porta, me empurrou e disse: ‘Taí, Assis, a víbora que você queria. Faça bom proveito’. E foi embora. E eu fiquei sem saber… nunca tinha visto o Chatô… Aliás, não gostava dele, não concordava com os processos, a maneira dele como jornalista. E fiquei lá estatelado. E o Chatô veio: ‘Seu Silveira, o senhor é um homem terrível! Seu Silveira, o senhor é uma víbora! O senhor vai trabalhar comigo! Desça lá e procure o seu Carlos’. Era o Carlos Lacerda. Aí, fiquei.

E semanas depois, foi enviado para a Itália para cobrir a 2ª Guerra…

JS – A coisa é o seguinte: o Carlos Lacerda, o Nasser e o Morel queriam muito ir para a Itália. O Lacerda chegou ao ponto de se alistar, mas o Dutra [então ministro da Guerra] tinha horror dele. Aliás, de mim também, dizia que nós éramos bolcheviques. Para ele, nem comunistas nós éramos… ‘O senhor, seu Silveira, é bolchevique’. Duas vezes, eu fui ter com o Dutra, fui com o Austregésilo de Athayde [1898-1993; jurista e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras], e o Dutra, irredutível: ‘O senhor não vai’. Na terceira, o Chatô se encheu de brios e foi lá, me levou e disse: ‘Olha, general, se o Joel não for, não vai sair sequer o nome da FEB [Força Expedicionária Brasileira] nos meus jornais. Estou prevenindo o senhor’. Nesta hora, o Dutra, que tinha um medo terrível do Chatô – todo mundo tinha – disse: ‘Está bem, então, o senhor vai, seu Silveira’.

Uma de suas reportagens mais famosas da série da guerra foi Eu vi morrer o sargento Wolf, que narra um episódio da linha de frente. O que mais marcou o senhor, as batalhas ou os efeitos da guerra?

JS – A subversão de todos os valores da retaguarda, da população civil, faminta. Porque não tinha nada, a guerra tinha acabado com tudo. É doloroso ver um pai entregar uma filha por uma barra de chocolate… e coisas piores… Porque a fome é terrível. Você tem que comer, você pode não dormir, mas tem que comer. E isso me amadureceu muito. Porque nos meus 26 anos eu ainda tinha um pouco de ingenuidade, de inocência, por assim dizer. Mas a guerra me tirou tudo isso. Eu costumo dizer que fui para a guerra com 26 anos, fiquei lá dez meses e 11 dias, e voltei com 40 anos. Voltei adulto. Foi a guerra que me fez adulto, particularmente, na retaguarda. Lá eu fiquei adulto. Conheci de perto a maldade humana e do que é capaz o ser humano quando se vê em uma contingência como a dos civis italianos. Famintos, sedentos, sem casa.

Um repórter do Independent chamou de ‘jornalismo de hotel’ a cobertura feita atualmente pelos jornalistas no Iraque, devido aos riscos em sair às ruas para cobrir o conflito…

JS – Porque não podem sair e nem há necessidade. A tecnologia está avançada, todos vêem a guerra pela televisão. E, ao mesmo tempo, os americanos não permitem que os jornalistas cheguem na frente. Acabam confinados no hotel. No nosso tempo, correspondente tinha que acompanhar as tropas. O correspondente de guerra era outro soldado, apenas desarmado. Pela Convenção de Genebra, um correspondente de guerra não pode usar arma, nem canivete. Porque se for preso pelo inimigo é considerado um franco-atirador e fuzilado sumariamente. Éramos soldados desarmados, todos. Hoje, eu acho que o repórter não tem trabalho nenhum. Porque o trabalho é feito pelos americanos. Os repórteres recebem o que os americanos dão. Todo dia, vem aquele coronel, faz um briefing no fim da tarde, dizendo ‘aconteceu isso, aquilo’. Evidentemente, ele só diz o que realmente interessa dizer. A verdadeira face da guerra, os verdadeiros acontecimentos só ocasionalmente se descobrem. Por exemplo, a tortura que os americanos estavam infligindo aos prisioneiros do Iraque. Eles não contaram isso, foi por uma inconfidência de um soldado qualquer é que o mundo tomou conhecimento. Isso escandaliza.

E onde há mais vaidade, no jornalismo ou na literatura?

JS – Todo escritor, de modo geral, é vaidoso. O próprio Machado de Assis era muito vaidoso. Queria ser o maior, não admitia outro. Só ia para a academia [ABL] quem ele queria. Era um mulato que casou com uma branca, aliás, portuguesa. Todo escritor é vaidoso. E não são duas coisas distintas. Porque no fundo, todo romance é uma reportagem. Veja, por exemplo, Guerra e Paz, de Tolstoi. É uma reportagem, a história da invasão da Rússia por Napoleão. Com todos os detalhes porque Tolstoi participou da campanha de Napoleão. Veja, por exemplo, Stendhal é uma reportagem da época… Balzac narrou a história de Paris. O próprio Machado de Assis é a história do Rio de Janeiro, os costumes, os hábitos, aquilo tudo. Escrito, evidentemente, em uma prosa que não é jornalística, é uma prosa de prosador. Tolstoi, Stendhal, Balzac, como no Brasil temos o Machado de Assis e o Graciliano Ramos, que eu considero os únicos dois clássicos da literatura brasileira. Os outros têm um livro bom, mas como conjunto de obra… Ah, e tem Monteiro Lobato, claro.

Como foi a história da sua candidatura em 2001 à ABL? Na época, o senhor disse que era uma provocação.

JS – Aquilo foi uma brincadeira! A Zélia Gattai – Jorge Amado, com quem ela morava, já tinha morrido – se candidatou à ABL e fez uma declaração dizendo que exigia unanimidade à academia que a cadeira pertencia ao Jorge e como ele tinha morrido a cadeira era dela. Eu resolvi quebrar o serviço dela – só para usar uma linguagem de tenista. Ela vai ser eleita, mas não assim, pensei. E lancei minha candidatura, nem pedi votos a ninguém, apenas comuniquei a dois, três ou quatros amigos lá, o Cony, o Arnaldo Niskier… Eu disse: ‘Olha, vou ser candidato. Avisa aí aos imortais que sou candidato’. Assim mesmo tive oito votos. Ela foi eleita, mas não como ela queria (risos). Ela me odeia… (risos) joguei acarajé na feijoada!

Segundo a máxima de que o melhor do jornal não é publicado, o que o senhor deixou de contar? Que reportagem o senhor não fez ou gostaria de ter feito?

JS – Ah, tem bilhões de coisas que eu gostaria de ter feito. Gostaria de ter entrevistado Adolf Hitler. Hoje, por exemplo, eu gostaria de fazer uma entrevista com Saddam Hussein ou Osama bin Laden, que seria uma grande entrevista. Muita coisa, mas principalmente esses dois.



‘Jornalista gosta muito de falar dos seus sucessos, mas não fala de seus fracassos. Eu gosto muito de falar dos meus fracassos. Um deles foi com Hemingway’

Joel Silveira faz um balanço da carreira e da vida e se diz surpreso por viver tanto depois de ter uma vida tão acidentada. ‘Sou capaz até de fazer 87 anos!’

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Os livros A Feijoada que Derrubou o Governo (Companhia das Letras) e Diário do Último Dinossauro (Editora Travessa dos Escritores), lançados respectivamente em outubro passado e janeiro deste ano, mais o O Inverno da Guerra (Editora Objetiva), com sua correspondência da 2ª Guerra Mundial, que será lançado em abril, cobrem um longo período de sua vida. É bom exumar tantas memórias?

Joel Silveira – Eu não tinha intenção de publicar memórias, até que me pediram. Como agora em abril vai completar 60 anos do final da guerra, esse último livro, o Roberto Feith, editor da Objetiva, me pediu. Eu disse ‘bom, escrever eu não escrevo, não. O que eu posso fazer é lhe dar meus livros sobre a guerra’, que eu já tinha publicado, ‘vocês aí fazem uma seleção do que achar que é mais importante’. E foi o que eles fizeram.

O Inverno da Guerra então é uma compilação de material já publicado. Não há nada inédito?

JS – Tudo publicado. Aliás, tem só um capítulo inédito que eu escrevi, mas não cheguei a publicar. Contando a história da vida, o cotidiano de um correspondente de guerra brasileiro no front italiano. Esse é o único capítulo inédito.

O senhor se arrepende de algo?

JS – Não, não. Eu lamento o que não fiz. O que fiz, não. Lamento profundamente um fracasso meu. Jornalista gosta muito de falar dos seus sucessos, mas não fala de seus fracassos. Eu gosto muito de falar dos meus fracassos. Um deles foi com Hemingway [1899-1961]. Eu estava em Paris, em 1952, naquele tempo trabalhava para o Samuel, no Última Hora. Nós estávamos organizando um semanário e eu já tinha lido no jornal que Hemingway estava em Paris e que se encontrava todo dia às 11 horas em um bistrozinho na Rive Gauche. Li, mas fiquei calado. Eu não queria me chatear (risos), eu estava em Paris e o que eu ia perguntar a Hemingway? Aí, o Samuel falou: ‘Hemingway está aí e você tem que ir lá e tal’. Eu fui. Ele chegava às 11 horas, eu cheguei às nove horas. E comecei a beber. E eu pensava: ‘Que diabo eu vou perguntar para esse homem?’ Aí, me ocorreu o seguinte: ele gostava de fazer safári, vou perguntar isso para ele – ele falava bem espanhol, tinha participado da Guerra Civil Espanhola. Quando foi às 11 horas em ponto, ele entra, aquela montanha de homem, quase dois metros de altura, mas não usava barba ainda. Eu ingeri mais um conhaque, Martel, me lembro até hoje. Fui ao banheiro e voltei para fazer as perguntas. Quando cheguei, ele tinha ido embora! (risos). Mas eu não podia dizer isso ao Samuel. Fui para o hotel e disse: ‘Samuel, você é um dos sujeitos mais mal informados que eu já vi na vida! O Hemingway já está há dois dias na Espanha. Você me deixa plantado lá no diabo do bar perdendo meu tempo!’, e ele: ‘Não, mas…’, e eu, só para não dar o braço a torcer: ‘Nada, Samuel, ele está na Espanha. Perguntei ao garçom!’. Esse foi o meu fracasso total, porque mesmo que ele me recebesse mal, me desse uma bofetada, era assunto, não é? ‘Hemingway me deu um soco’ (risos).

O senhor tinha fama de ser bom copo.

JS – Fui, mas eu deixei de beber há oito anos. Dia desses fui botar um gole de cerveja, não caiu, não suportei. Porque eu não era um bêbado, eu gostava de beber quando tinha amigos. Porque eu acho que bebida é conversa. Os amigos vinham para cá a gente ficava bebendo e conversando. Os meus amigos morreram todos. Todos. Não existe mais ninguém, eu não tenho com quem conversar e quem bebe sozinho é alcoólatra, não é? E também descobri como bêbado é chato. Um dia eu estava aqui em casa – você conheceu um bar no Leblon que chamava Antonio’s? Era onde se reunia a intelectualidade – e o Paulo Mendes Campos [1922-1991], o Paulinho, ligou para mim. Já estava até de pijama. Ele disse ‘venha para cá, tá todo mundo aqui querendo falar com você’. Bom, resolvi ir. Quando cheguei lá, estava a nata da intelectualidade brasileira: Vinícius, Rubem Braga, Antônio Maria [1921-1964]… e todos no porre, uma conversa sem graça, engrolada… e eu fiquei uns dez minutos sem beber ouvindo a conversa e pensando comigo mesmo ‘veja você, como bêbado é chato! Está aqui a nata da inteligência brasileira e até agora não ouvi uma palavra inteligente.’ Aí tive que beber, não é? Bebi logo quatro doses fortes para entrar no ritmo da conversa. Que era nenhuma, aquela besteirada… Antônio Maria cantando ‘Menino Grande’, Vinícius tentando recitar, mas esquecendo os versos do próprio poema (risos). Eu pensei ‘bom, então, só me resta entrar no ritmo’. Entrei e comecei a dizer besteira também (risos). In vino veritas.

O senhor deve ter muito material, arquivos…

JS – Eu não tenho fotos minhas na Itália, não guardo nada. Não tenho nem livro meu. Nunca fui de guardar, de colecionar. Mas tenho meus manuscritos, umas 80 pastas de cartas, bilhetes de gente famosa. Minha filha [Elisabeth Silveira, 56 anos, decoradora] está se encarregando de cuidar disso agora. Tem o diabo lá, tem coisas que eu nem sei mais. São cartas, recortes de jornal, tem de tudo! Aqui do Brasil e de quase todo o mundo, tem bilhetinhos do Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Jorge Amado, Graciliano, Zé Lins. São trocas de recadinho marcando encontros, sobre a apreciação de um livro. Por exemplo, Graciliano quando publicou Angústia [lançado em 1937] eu fiquei no maior entusiasmo e fiz uma carta para ele. Ele respondeu… Tem essas coisas. Minha filha também está organizando minha biblioteca, devo ter uns 18 mil livros. Ela já contou 14.012, mas tem muito mais. E continua chegando! Antigamente, quando chegava um livro aqui em casa eu me enchia de alegria, ficava muito alegre. Hoje, para mim, é um tormento, porque não tem mais onde botar. Só falta o banheiro e a cozinha. Eu moro em uma biblioteca, em um museu… e nesse museu, a peça menos preciosa sou eu mesmo.

E quem nasce em Lagarto (SE) é o quê, Joel?

JS – (risos) Olha, já me fizeram essa pergunta anos atrás e me deu um problemão… Não publique isso, mas eu respondi que quem nasce em Lagarto é burro! Eu gosto muito da cidade, mesmo. Hoje, é a segunda cidade mais importante do Estado. Foi uma brincadeira que me deu problemas com as pessoas de lá… Tenho outra história com o Rubem Braga. Certa vez, eu disse a ele que Lampião já tinha entrado até em Aracaju, mas nunca em Lagarto, ao que ele me respondeu: ‘Veja que sensato era esse homem. Lagarto não é cidade para se entrar, Joel, é cidade para se sair.’ (risos). E quem nasce em Lagarto é lagartense.

O senhor, em um de seus livros, disse que não devia nada a ninguém e, à vida, devia, mas coisa pouca. Que coisa é essa?

JS – Dever, não devo nada. Primeiro, nunca imaginei viver tanto, uma vida acidentada que eu tive, estive em guerra, revoluções, golpes de Estado… Mas para espanto meu estou aqui falando com você e estou com 86 anos. Claro, já não caminho direito, não leio mais, como pouco, durmo muito pouco… mas estou lúcido! Eu pensei chegar até uns 70 mais ou menos, por aí, mas 86? E sou capaz até de fazer 87! É bem capaz… Bem ou mal ainda vejo televisão, e eu já li tudo, não tem mais nada de ler. Em suma, minha doença é velhice e para essa não tem cura, não… (risos)



‘Quem diz em uma guerra que nunca teve medo é um fanfarrão’

O jornalista Joel Silveira relembra os dez meses em que esteve no front italiano, sentindo medo e frio, junto com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

***

O senhor achou que poderia morrer durante a cobertura da 2ª Guerra?

Joel Silveira – Ah, todo dia. Quando me perguntam o que eu sentia na FEB eu digo: medo e frio. Quem diz em uma guerra que nunca teve medo é um fanfarrão. Quem disser que não tem medo em uma guerra, principalmente naquela, onde estávamos nós, os correspondentes, junto com os pracinhas, está mentindo! Ou então é um idiota completo. Medo é o que todo dia nós tínhamos. Havia uma coisa que se chamava booby trap, uma armadilha. Você, por exemplo, avançava sobre uma cidade, tomava a cidade, entrava na sede do partido nazista, do partido fascista, e via lá o retrato do Mussolini ou de Hitler. A primeira coisa que você queria era se livrar daquilo. Mas era uma bomba. Deixávamos os retratos lá, depois tinha a patrulha técnica que vinha e desarmava. Mas muita gente morreu por isso. Não eram só retratos, eles deixavam em um vaso bonito, qualquer coisa que a gente queria. Mas não era só, tinha também as minas. À proporção que os alemães iam se retirando, eles iam plantando minas. Tanto assim que eu devo minha vida ao então capitão Ernani Ayrosa [1915-1987], que depois viria a ser ministro do Exército. Eu estava no front com ele e fui avançar um pouco e ele gritou: ‘Correspondente, pare aí e volte devagarzinho por onde você foi! Não dê mais um passo à frente!’. Porque estava tudo minado, se eu desse mais um passo eu ia pelos ares. Devo a vida a ele, por isso ficamos amigos.

O senhor viu Mussolini?

JS – A única vez que vi Mussolini ele estava dependurado em Milão, no dia 29 de abril de 1945 na Piazza Loreto [o ex-líder fascista havia sido fuzilado no dia anterior ao tentar fugir]. Estava dependurado, amarrado pelas pernas de cabeça para baixo, em um posto de gasolina em construção. Não só ele. Ele e a amante, a Clara Petacci, mais o Archille Starace [secretário do Partido Fascista], o Alessandro Pavolini [ministro da Cultura]. O corpo já estava tumefacto porque tinha sido cuspido, apedrejado… Porque o povo italiano é um povo muito cínico. Dizem que é um dos defeitos do italiano, eu acho uma das virtudes. Quando chegamos à Itália havia milhões de fascistas. No dia que acabou a guerra havia milhões de anti-fascistas (risos). Eles cuspiam no Mussolini, a cara dele estava irreconhecível e eu pensava: ‘Meu Deus do céu, esse homem foi dono da Itália! Olhe a que está reduzido’. Ficou lá o dia inteiro e quando a coisa começou a feder, literalmente, retiraram. Mas, engraçado, um detalhe que eu notei foi a pudicícia italiana. Como a Clareta também tinha ficado de cabeça para baixo, evidentemente que a saia dela ia descer e ia aparecer a calcinha, e se estivesse sem calcinha seria pior. Então, eles amarraram um barbante no vestido dela antes de a pendurarem. O pragmatismo italiano é fabuloso, eles se adaptam a qualquer circunstância… (risos)

Darcy Ribeiro escreveu certa vez que os pracinhas brasileiros eram ‘anêmicos, desdentados e tortos’. O senhor concorda?

JS – Eram, eram. Quase 60% da FEB eram de recrutados, gente do interior de Pernambuco, gente de Garanhuns, que nunca tinha ido nem até Recife. A gente mais bugre que podia existir. Só o oficialato, de tenente para cima, é que era de soldados profissionais. De maneira que era gente que não conhecia nada, um estado de saúde precário. Isso o Getúlio Vargas fez de propósito, ele queria que a FEB desse vexame, perdesse, porque com ela vitoriosa ele ficaria fraco aqui. Ele sabia que o Exército ia botar ele para fora de maneira que fez tudo, inclusive o fardamento. A farda da FEB era quase igual ao do soldado alemão. Quando o primeiro escalão brasileiro desembarcou em Nápoles, os americanos ficaram atônitos e disseram: ‘Não pode, esse fardamento é alemão!’. Então, mudou-se tudo e o soldado brasileiro começou a vestir-se como soldado americano.

Dizem que as fardas não eram apropriadas para o frio da Itália…

JS – Não serviam nem para o inverno de Poços de Caldas! Era uma coisa horrorosa para um frio de 20º C abaixo de zero! A gente, no início, tinha que vestir quase dez camadas, camisas por cima de suéter, dormíamos vestidos, calçados. Era uma coisa terrível.

O senhor diria que o Brasil serviu de ‘bucha-de-canhão’ na guerra?

JS – Não sei se a intenção dos americanos foi essa, mas a questão era a seguinte: na frente italiana, que ia do Reno até o Mar Adriático, no Norte, lutavam oito divisões, duas americanas, uma da Nova Zelândia, outra da Austrália, outra dos polacos, um regimento negro, essa coisa toda, além da FEB. Nessa frente, coube à FEB o pior setor. Nós vivíamos em uma cratera, cercados de alemães nos cumes dos morros, por todos os lados. Não havia dia em Porreta-Terme, onde estava o QG avançado do general Mascarenhas [1883-1965, comandante da FEB]. De noite, porque era noite, mesmo, e de dia, o comando da FEB queimava óleo diesel para fazer a neblina artificial [cortina de fumaça]. Porque qualquer movimento que a gente fizesse ali e os alemães percebessem era morte certa.

Por isso em um de seus livros, o senhor diz que ‘a guerra cheira a sangue velho e óleo diesel’…

JS – É, sangue podre, de ferimento. Porque eu vivia na frente e quando um soldado era atingido, os médicos – sempre havia dois ou três – faziam um curativo de emergência esperando que viesse uma ambulância da retaguarda apanhar o ferido e levar para o hospital avançado. E ficava aquele cheiro de sangue velho. E de óleo diesel por causa dessa questão da neblina. Quando me falam em guerra me vem às narinas aquele cheiro de sangue velho e óleo diesel.

Do período da guerra, alguma amizade ficou?

JS – Claro, o Thassilo Mitke [da Agência Nacional], o Egydio Squeff, principalmente, que era de O Globo, e alguns capitães, majores, inclusive o Castelo Branco [o primeiro dos generais da ditadura militar brasileira e que em 1943 era ainda um tenente-coronel]. Ele ficou muito meu amigo porque eu recebia muitos jornais do Rio, naquele tempo os Diários Associados eram uma potência, eram 46 jornais pelo Brasil inteiro, e eu recebia aquele monte. E o Castelo, que era chefe da 2ª Seção de Informação e Contra-Espionagem, disse: ‘Correspondente’– ele não sabia meu nome – ‘Será que eu podia lhe pedir um favor?’. E eu: ‘Ô, coronel, às suas ordens!’, e ele: ‘Quando o senhor acabar de ler esses jornais poderia me dar?’. Eu disse: ‘Ora, coronel, não seja por isso, agora mesmo!’. E peguei lá uma porção de jornal que eu nem tinha lido, não tinha tempo, estava sempre com as tropas, na frente, e disse ‘está aqui, coronel, tem aí uns quatro quilos de jornal’. E daí ele ficou muito meu amigo, todo jornal que eu recebia, dava uma leitura rápida e passava para ele. E ele ficava toda a noite no QG avançado da FEB, em Porreta-Terme – termas até hoje famosas na Itália, até Calígula tomava banho lá – , diante da lareira. Fazia muito frio, 15º C, 20º C abaixo de zero, lá ele lia os jornais e me devolvia depois. Eu dizia ‘mas coronel, não precisa devolver, eu não vou ler mais’. Mas ele tinha sempre esse cuidado.

A amizade com Rubem Braga começou na Itália?

JS – Não, já era amigo dele, sempre fomos amigos. Se ele estivesse vivo, seria uma amizade de 70 anos mais ou menos. Eu gostava muito dele. Muita gente falava que Braga era antipático, era introvertido, que não gostava de ver ninguém. Não é verdade. Ele tinha seus amigos. Diziam que ele não falava, que era caladão, aquela coisa toda. Eu convivi muito com Rubem, principalmente na guerra. Calcule, quase 11 meses dormindo juntos, andando juntos, você conhece a pessoa em toda a intimidade. E Braga era uma figura maravilhosa. No terceiro uísque, contava histórias – gostava de contar muito histórias de pescaria, de caçada, eram os assuntos dele.



‘Eu tenho horror à literatura de Jorge Amado. É de uma precariedade terrível. Eu tenho a impressão que Jorge sabia por alto umas 47 palavras’

Joel Silveira fala sobre as personalidades – escritores, jornalistas, políticos e militares – com quem conviveu durante mais de 60 anos de profissão. E não poupa nem Deus.

***

Jorge Amado [1912- 2001]

Eu fui sempre amigo do Jorge até ele entrar para o Partido Comunista. Ele sempre foi um homem de esquerda. Quando estava na Bahia, ele tinha o grupinho dele, de esquerdistas. Quando eu tinha 16 anos, depois do golpe de 1935 [a Intentona Comunista] a polícia andou procurando o Jorge e ele se escondeu em Estância, uma cidadezinha do Sergipe. E naquele tempo eu era aluno do Ateneu Pedro II, presidente do Grêmio Literário, e resolvi fazer uma visita. Eu e o grêmio todo. E foi aí que conheci o Jorge. E quando vim para o Rio nos encontramos e ficamos amigos. Até ele entrar para o Partido Comunista, aí me afastei completamente dele. Esse foi um dos motivos da nossa ruptura. Eu não comungava… e os métodos deles… em suma, o Jorge não era um bom caráter. Eu caí fora, comecei a evitar. Ou ele a mim, claro…

Mas eu tenho horror à literatura de Jorge Amado. É de uma precariedade terrível. Eu tenho a impressão que Jorge sabia por alto umas 47 palavras. Mas os livros dele eram muito vendidos porque ele entrou para o PC e os partidos comunistas do mundo inteiro impunham a leitura do Jorge. Ele virou um best seller mundial. Mas, hoje, poucos anos depois que ele morreu, já ninguém fala mais. Não existem mais comunistas, ninguém mais é obrigado a comprar livros de Jorge Amado como antigamente…



Olga Benário [1908-1942]

Essa eu só conheci uma vez quando foi mostrada à imprensa [pelo Estado Novo]. Porque correu que tinham torturado, maltratado ela, essa coisa toda. E, realmente, fizeram miséria com ela. Mas passados uns dias, quando ela já estava mais ou menos recomposta, o Deops [Departamento de Ordem Política e Social] resolveu apresentá-la à imprensa para mostrar que ela não tinha sido maltratada. Foi quando eu a conheci, era uma mulher lindíssima, muito alta. Ela quase não falava português, o que sabia foi o que tinha aprendido com Prestes, mas falava alemão e russo. Era uma ativista política fantástica, por isso foi enviada pelo Partido Comunista ao Brasil, para não deixar Prestes fazer besteira. Mesmo assim, ele conseguiu…



Rubem Braga [1913-1990]

Uma figura maravilhosa. E ele odiava falar de literatura, tinha horror. O interessante do Braga, como você sabe, é que ele tem aquela prosa fabulosa, até hoje como cronista é inimitável. Tentam imitá-lo, mas não conseguem. Mas ele não lia muito. Ele herdou do pai a leitura dos clássicos portugueses, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, essa coisa toda, de maneira que a prosa dele era essencialmente portuguesa. Tinha mais sotaque português que brasileiro. E não lia. Um dia me lembro de um episódio, eu disse: ‘Braga, você tem que ler uns livros importantíssimos. Por exemplo, o Le Rouge et le Noir, do Stendhal, um livro fabuloso. Você sabe francês e eu tenho aqui no original’. E ele: ‘Então, você traga, eu vou ler’, e eu levei. Uns 20 dias depois eu perguntei: ‘Braga, você leu o Stendhal?’ E ele ‘Ah, Joel, só li umas cem páginas’, e eu: ‘Mas por quê?’ e ele: ‘O livro tem gente demais, me complicou, é gente que não acaba mais’. (risos). E não leu, ele tinha dessas coisas. Com aquele prosa! Legítimo autodidata.



Leonel Brizola [1922-2004]

Nunca conheci, ou melhor, uma vez, quando ele voltou do exílio, acho que em 1979. E minha impressão não foi boa. Ele falava demais! Fez um discurso de três horas, quase de madrugada, eu estava morrendo de sono, fui dormir. Mas foi um homem coerente, de uma bravura… se não fosse Jango, o Brasil ia entrar em um derramamento de sangue em 1964… porque o Brizola queria brigar.



General Castelo Branco [1900-1967]

Ficou muito meu amigo na guerra. Quando ele foi ditador mandou um recado pela Rachel de Queiroz [1910-2003, a escritora, parente de Castelo Branco, havia apoiado o golpe] para mim e para o Rubem Braga, que queria falar muito conosco. Eu fui ao apartamento do Braga e disse: ‘Você já deve ter recebido a visita da Rachel. O que é que você acha? Eu acho que ele está nos convidando para oferecer emprego. Eu não vou, fui contra essa revolução, já fui preso duas vezes… ‘, e o Braga: ‘Claro! De jeito nenhum’. Mas eu perguntei: ‘De que maneira?’, porque nós dois gostávamos muito da Rachel. E ele disse: ‘Vamos ser francos’. Telefonamos e dissemos: ‘Olha, Rachel, você agradeça ao general, mas nós não vamos porque somos contra, quero que você seja clara, fomos e ainda estamos contra essa revolução, que de revolução não tem nada, é um golpe. Ambos já fomos presos de maneira que agradecemos o convite dele, mas não vamos’. Ela deu o recado a ele e ele nunca mais entrou em contato. Era um homem lido, falava francês perfeito. Sabia tudo de literatura, um homem muito letrado e muito inteligente. E nunca foi um totalitário. O governo dele ele queria que fosse um governo de transição, que demorasse uns dois ou três anos e convocasse eleições, mas a linha-dura de jeito nenhum.



Fidel Castro

Conheci Fidel em 1948 no Bogotazo [uma revolta que se seguiu à morte do político liberal Jorge Eliecer Gaitan durante a 9ª Conferência Pan-Americana na Colômbia]. Ele estava lá, tinha 22 anos, chefiando um grupo de estudantes. Era dessas conferências que acontecem todo ano de chanceleres de todas as repúblicas sul-americanas e da América Central. E naquele ano, foi escolhida Bogotá. Fidel foi chefiando um grupo de estudantes e conversamos. E hoje eu penso comigo: ‘Puxa, como eu ia imaginar que aquele rapaz – ele era alto, quase 1,90m de altura, sem barba, mas já comunista – seria dono de Cuba por mais de 40 anos já’… e o homem está lá, caiu esses dias, mas está lá. Do regime cubano eu tenho horror, mas reconheço que a transformação de Cuba com Fidel foi tremenda. O país é um exemplo no campo da saúde. Não há um cubano que não saiba ler.



Assis Chateaubriand [1892-1968]

Todo mundo tinha medo dele. Eu o conheci pouco, passei quase 11 meses na Itália. Aqui no Brasil passei 17 meses e saí, burramente, porque o Samuel Wainer recomeçou a Diretrizes e disse: ‘Agora somos um diário, o grupo todo está aqui, só falta você, venha para cá!’. E eu disse ao Chateaubriand ‘Doutor Assis’, eu o chamava assim, ‘o senhor tem me tratado muito bem, tem me pago bem, mas o senhor sabe que eu vim para cá porque a Diretrizes fechou, agora voltou a funcionar, é um jornal diário’. Ele disse: ‘Está bem, senhor Silveira, se o senhor quer ir, vá. Agora, vou lhe dizer uma coisa, o senhor vai se arrepender’. E, de fato, me arrependi, porque um mês depois que eu estava em Diretrizes o Samuel vendeu o jornal para um grupo getulista e eu tive que sair. Fiquei dois anos desempregado. Sem querer voltar para o Chateaubriand. Devia ter voltado, mas orgulhoso, burramente orgulhoso. Foram dois anos terríveis, eu vivia de biscates, de corrigir livros dos outros ou escrever livros para os outros. Até entrar para o Diário de Notícias.



Carlos Heitor Cony

Conheci o Cony na prisão, no Batalhão de Guarda, em São Cristóvão (RJ). Ele tinha sido preso por causa da coluna que escrevia no Correio da Manhã arrasando com a revolução. No dia seguinte, quando eu acordei, porque eles me deram um sedativo [Joel estava com febre de uma malária contraída no Amazonas], estava lá o Cony. Foi aí que eu o conheci. Admirava, gostava muito das coisas dele, mas pessoalmente não o conhecia. E ficamos muito amigos porque o Cony é muito engraçado, muito imaginativo, falava muito. De maneira que foi muito bom ficar preso com o Cony. Ele hoje – é engraçado, eu não entendo o Cony – ele não gosta que se fale nesse período, mas é um período de que se deveria falar. Mas ele tem pavor de falar no assunto, não sei por quê, para mim é um mistério.



Deus

O que tem ele? Acho que ele está cochilando. Desde 1933 quando Hitler subiu ao poder. Ele deve ter pensado ‘aquilo lá embaixo não tem jeito’ e foi tratar de coisas mais importantes. Porque se Deus é isso que dizem, da bondade, da paz, do perdão, então, ele abandonou este mundo… (risos) mas apesar de ser agnóstico, respeito muito quem acredita. Além de agnóstico, sou cético, quase cínico. Não acredito em nada, não sou nem pessimista, mas não espero milagres. Espero o pior. E tenho visto o pior.



General João Baptista Figueiredo [1918-1999]

O Figueiredo eu conhecia muito bem porque era irmão do Guilherme [de Oliveira Figueiredo, 1915-1997], que era escritor, e eu freqüentava muito a casa dele no Rio Comprido. E aparecia por lá o irmão, o João, que era segundo-tenente na época. E em 1937 eu era secretário também de um semanário literário chamado Dom Casmurro, fiquei lá até 1940. E, de vez em quando, aparecia lá o tenente João Baptista Figueiredo levando a crônica do Guilherme e dizendo: ‘Olha aqui meu irmão mandou eu entregar isso’. Eu jamais poderia imaginar que aquele tenentezinho iria ficar cinco anos no poder…



Juscelino Kubitschek [1902-1976]

Ele descobriu o planalto. Eu costumo dizer que o planalto não tinha nada, você plantava e não nascia nada. Eu me lembro muito bem quando era repórter, de viajar daqui para Manaus e passar pelo cerrado, o miolo do Brasil, olhar para baixo quando era noite e não ver uma luz, não via nada. Era um deserto. Hoje, o cerrado é o celeiro do mundo, o maior produtor de soja do mundo. E o mais importante foi a Estrada Brasília-Belém [a Rodovia BR-10], que hoje tem cidade às margens, onde antes era um ermo total, com 20 mil, 30 mil e até 200 mil habitantes. Juscelino encheu o miolo do Brasil. Foram os dois grandes estadistas do século passado, Getúlio – de quem eu não gosto, um tirano – e Juscelino, que era realmente um democrata, muito simpático, muito agradável. Claro, ele criou a inflação, mas agora está devolvendo. Tudo o que ele gastou, o Brasil já recebeu 500 vezes em troca.



Carlos Lacerda [1914-1977]

Eu nunca fui a favor do Lacerda. Aquele anticomunismo dele… Apesar de que ele se voltou contra o Partido Comunista depois da safadeza que o PC fez com ele, a sua expulsão do partido. Eles escolheram o Carlos para fazer uma reportagem contando como era o PC brasileiro, como funcionava. A pedido, o Carlos fez, ele era muito considerado. Depois de escrita, submeteu a matéria ao comitê central e o próprio Luís Carlos Prestes a aprovou. Ela foi publicada em uma revista chamada Observador Econômico, veja que ironia, uma revista da elite industrial! Quando saiu, o PC considerou aquilo uma traição, disseram que o Carlos estava dedurando o partido. A verdade é que o PC tinha ciúme do Carlos, que era inteligente, culto e fazia sombra em Prestes. E o ódio de Lacerda ao PC virou aquela coisa biliosa…



Pablo Neruda [1904-1973]

Ah, um grande poeta! Inclusive eu tenho um livro dele dedicado. Eu gosto muito daquele livro Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. E quando ele passou aqui pelo Brasil, de vez em quando ele vinha aqui, ele estava na casa do Braga e disseram: ‘Vem cá conhecer o Pablo Neruda’. Ele ainda não era Prêmio Nobel [ganharia em 1971], aí, eu levei o livro para ele me dar uma dedicatória. Então, o Braga disse: ‘Ora, Neruda, o Joel completou ontem 50 anos’. E ele fez uma dedicatória muito bonita que dizia assim: ‘A Joel Silveira em sus cincoenta sueños. Pablo Neruda’. Eu gostei muito dessa dedicatória. Certa vez, em Milão, comprei a autobiografia dele, em italiano, Confesso che ho vissuto.



Tancredo Neves [1910-1985]

Gostava muito dele. Veja você, em 1984, quando ele era candidato à Presidência, o general Ernani Ayrosa, muito meu amigo desde a época da guerra, quando era capitão, veio e me disse: ‘Preciso muito falar com o Tancredo, você o conhece?’. Eu disse que o conhecia, mas não tinha intimidade. Aí, falei com José Aparecido de Oliveira [então deputado, viria a ser ministro da Cultura de José Sarney], que depois me confirmou: ‘Olha, pode marcar o encontro. Na sua casa!’. E eu: ‘Mas você está louco? Eu não tenho como receber um presidente na minha casa’. E ele: ‘Aí ninguém vai desconfiar’. De modo que eu arrumei um quartinho para os dois, nos fundos da minha casa, botei lá uma mesinha, um uisquinho – porque sabia que o Tancredo gostava – e leite para o Ayrosa e uns salgadinhos. Os dois chegaram se trancaram no quarto e eu, minha mulher, minha filha e minha neta ficamos na sala, enquanto os dois conversavam não sei o quê. O Tancredo só saiu de lá uma vez para ir ao banheiro. Depois, acabada a reunião, foram embora. E até hoje eu não sei o que diabo eles conversaram lá dentro… eu não perguntei. Perguntei depois para o José Aparecido e ele disse que também não sabia, mas acho que ele mentiu para mim. Sei que eu nunca fiquei sabendo! (risos)



Luís Carlos Prestes [1898-1990]

Ah, era um insensato, um primário. Era um desastrado. Aquela intentona, aquele golpe de 35 foi uma das coisas mais burras que eu já vi no mundo. Não tinha logística, não tinha força. Foi o pretexto que o Getúlio queria para instaurar o Estado Novo. Eu me lembro que quando voltei da Itália eu vinha muito empolgado com os discursos do Partido Comunista, do Partido Socialista, da Social Democracia. Eu vinha decidido a entrar para o Partido Comunista e, principalmente, conhecer o Prestes. Aquela legenda, o Cavaleiro da Esperança, aquilo tudo era um mito para mim. E eu consegui por intermédio de um cavalheiro chamado capitão Trifino Correia [um dos comandantes da Coluna Prestes] que era o assessor imediato do Prestes.

Quando eu vi o Prestes a decepção foi imediata! A gente imagina um mito sempre um gigante, não é? E quando eu vi um homem pequenininho, franzino… E, afinal, eu tinha passado 11 meses na FEB e imaginei que ele fosse me perguntar tudo sobre a FEB. E ele disse ‘então o senhor está voltando da FEB?’, e eu disse ‘estou, capitão’, chamava ele de capitão. E eu não disse mais nada porque ele começou a falar, a explicar tudo sobre a FEB como se ele estivera na FEB e não eu! Não tive oportunidade de encaixar uma pergunta! Porque 15 minutos depois chegou o Trifino e disse ‘Prestes, lembre-se… ‘, qualquer coisa, então ele se despediu de mim e eu pensei ‘mas esse homem não é quem eu pensava’. E não entrei para o Partido Comunista.



Jânio Quadros [1917-1992]

No meu entender, ele era um homem essencialmente gregário – gostava de companhia, gostava de toda noite ir para a casa de um amigo beber, gostava de mulher. Foi um grande governador, sobre isso eu não tenho dúvida, como viria a ser um grande prefeito depois. Mas, de repente, esse homem que gostava de vida social, de mulher, essa coisa, se vê em Brasília, que tinha sido recém-inaugurada – Brasília hoje é um horror, calcule naquele tempo! Não tinha nada! Então, ele não podia ir para lugar nenhum porque não havia para onde ir. Ele ficava trancado lá no cinema do palácio, bebendo e vendo filme de cowboy… e irritado. Ele não agüentou aquilo. Isso é um dos motivos. Outro motivo é que ele realmente tinha um bom plano de governo, mas não ia governar. Ele, numa câmara de, naquele tempo, quase 300 deputados, só tinha 17. E os partidos começaram a fazer aquela oposição feroz. Depois, ele brigou com Carlos Lacerda. O Lacerda chegou um dia em Brasília, foi se hospedar no Palácio da Alvorada e na porta disseram: ‘Não, o presidente disse que o senhor não pode se hospedar aqui, não. Procure um hotel’. É que Jânio estava com uma mulher, aproveitou que Dona Eloá tinha ido a São Paulo e estava com uma mulher no palácio. E Carlos Lacerda não podia ver isso. Isso são os bastidores do poder, o poder tem duas faces, a íntima é sempre escabrosa.



Graciliano Ramos [1892-1953]

Uma figura extraordinária! Apesar de ser um homem seco, ele tomou simpatia por mim logo que nos conhecemos em 1938. Ele ia à Livraria Olympio, quando esta ainda era na Rua do Ouvidor [RJ], tinha um lugarzinho lá, uma cadeira só dele, ninguém sentava. Eu me lembro de um episódio em que levei um conto meu para ele ler, umas três laudas. Ele pegou, cigarro de palha em uma das mãos, leu, leu, depois, rasgou, rasgou e rasgou até transformar as folhas em confete. Aí, disse: ‘Joel, vamos lá fora tomar uma cachacinha?’, que ele gostava muito, não era um bêbado, mas gostava muito. Uns três ou quatro anos depois, nós nos encontramos em um jantar e eu perguntei: ‘Ô, Graciliano’ – nessa época eu já o chamava assim, sem o ‘senhor’– ‘Você lembra de um conto meu que eu lhe dei e você rasgou sem nem me dar uma opinião? Era tão ruim assim?’. E ele: ‘Era uma das coisas mais horrorosas que eu já li na minha vida. Eu te fiz um favor, você ia se arrepender se tivesse publicado aquilo.’ (risos) Ele era muito direto.

Ele gostava de provocar também. Certa vez, lá na Olympio também, o Jorge Amado apareceu e o Graciliano o chamou e falou: ‘Mas, Jorge, você tem uma imaginação fabulosa, por que é que você não aprende a ler e escrever? Tem tantos cursos por aí…’ e o Jorge, coitado, achando que ia ouvir um elogio. (risos)



Guimarães Rosa [1908-1967]

Guimarães Rosa era um homem essencialmente literário. A única coisa que interessava ao Guimarães era a literatura, apesar de ser um bom diplomata, um bom funcionário burocrata. Mas eu acho a literatura do Guimarães um truque, como é Ulisses, do Joyce. Ninguém fala daquela forma, não há sertanejo que fale assim. Como também não havia ninguém em Dublin que falasse daquela maneira. É um artifício literário. Genial, muito bem feito, muito bem composto. Mas para quê inventar uma língua, se a nossa é tão bonita?



Getúlio Vargas [1883-1954]

O Getúlio entrou obrigado na guerra, tinha que entrar, Hitler já estava praticamente perdido. Ele era muito pragmático, muito cínico, se bandeou imediatamente para o lado dos Aliados. E para os americanos, a presença do Brasil na guerra era essencial devido às bases que eles queriam construir – e construíram – no Nordeste para facilitar o caminho para o Norte da África. Assim mesmo, Getúlio ainda barganhou. Porque ele, apesar de ditador, do tirano, era, de fato, um estadista. E, em troca, dessa cessão das bases, dessa permissão para que os americanos instalassem essas bases em Natal (RN), ele ganhou a Siderúrgica de Volta Redonda. Foi aí que o Brasil começou a ser industrializado. Até então, éramos um país agrário, não tínhamos indústria, tudo era importado. Além disso, o que é mais importante ainda, ele deu garantias ao trabalhador, criou a carteira profissional, criou o salário mínimo, criou a jornada de trabalho… antes, o trabalhador não tinha garantia nenhuma. Deve-se isso a Getúlio.



Samuel Wainer [1912-1980]

Eu rompi com ele. Mas, depois quando ele fundou o jornal Última Hora, me chamou, eu fui. Eu briguei e fiz as pazes com o Samuel umas 20 vezes, pelo menos. E sempre acabava em briga. Mas no final da vida dele nós ficamos amigos novamente. Ele estava por baixo. Eu falei com o Adolpho Bloch, proprietário da revista Manchete: ‘olha, o Samuel está nessa situação e tal, sem dinheiro’. E ele foi trabalhar lá. Mas acabou não dando muito certo, ele saiu logo depois. Foi o Samuel Wainer quem me tirou dos Associados exatamente porque queria ir para Nuremberg [o julgamento do alto comando nazista]. E a guerra – a coisa mais ridícula – já tinha acabado e ele se fantasiou de oficial americano, com farda americana, e virou herói de guerra [Wainer estava nos Estados Unidos à época e conseguiu cobrir o julgamento engajado como correspondente norte-americano, com direito a uso do fardamento]. Samuel começou a espalhar na volta ao Brasil que a cápsula de cianureto que Goering [1893-1946, oficial-chefe da Lutfwaffe] ingeriu na noite em que ia ser enforcado, foi ele quem deu! Como um judeu ia ‘salvar’ a vida de Goering? O inventor da Gestapo! Samuel tinha dessas coisas, ele era meio delirante… loucura completa… eu disse: ‘Samuel, você, judeu, ia salvar Goering?’. Ele disse: ‘Não, mas é que eu queria fazer a entrevista com ele, fizemos um acordo’. Ninguém podia chegar perto de Goering, imagina! Ele tinha desses delírios… (risos)

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