Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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MEIO AMBIENTE > Além do maniqueísmo

Greta Thunberg, a classe média sueca e a geopolítica ambiental

Por Francisco Fernandes Ladeira em 15/10/2019 na edição 1059

(Foto: Reprodução Jovem Pan)

Nos últimos dias, a ativista ambiental sueca Greta Thunberg, de apenas 16 anos, tem ganhado bastante destaque na imprensa internacional e nas diversas redes sociais. Segundo os seus ferrenhos opositores – ligados, principalmente, à militância virtual de extrema-direita -, Greta é manipulada por ambientalistas que defendem a hipótese do aquecimento global antrópico (um “complô marxista”, de acordo com o atual chanceler brasileiro Ernesto Araújo).

Para atacar a jovem sueca, vale tudo: preconceito etário, ridicularizar a sua síndrome de Asperger, mencionar negativamente suas características físicas, questionar sua sexualidade e, como não poderia deixar de ser, divulgar inúmeras fake news.

Na rádio Jovem Pan, o comentarista político Rodrigo Constantino chamou Greta Thunberg de “retardada” que tem “síndrome do autismo”. Na rádio 96FM, de Natal (RN), o jornalista Gustavo Negreiros mencionou que a ativista escandinava é “histérica”, “mal amada” e precisa “de sexo e de um homem (ou de uma mulher, se ela gostar)”. Por sua vez, o apresentador da Rede Bandeirantes, Luís Ernesto Lacombe, baseado em mais uma fake news, comentou que não “comprava” o discurso da ativista, pois “essa é uma menina bancada por uma fundação do George Soros, a One Foundation”.

Já nas redes sociais, circularam notícias caluniosas apontando que os pais de Greta seriam satanistas e anarquistas, que ela daria aula para adolescentes sobre aborto e que o penteado de tranças da jovem sueca seria a repetição de uma estratégia nazista para convencer o público.Também foi bastante compartilhada uma fotos inverídica que mostra Greta fazendo refeição em um trem, enquanto crianças famintas olhavam do lado de fora.

Em seu perfil no Twitter, o músico Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, compartilhou uma publicação que compara a “sueca de hoje”, Greta Thunberg, com a “sueca de sua juventude”, uma sexualizada mulher loira. Não obstante os ataques virtuais, na periferia de Roma, capital italiana, um fantoche “enforcado” representando a ativista ambiental apareceu pendurado em um viaduto na manhã do dia 7 de outubro.

Conforme destacou uma postagem compartilhada nas redes sociais, deve ser muito constrangedor para os militantes de extrema-direita constatar que uma menina de apenas 16 anos possui um discurso mais coerente do que aqueles proferidos pelos seus “mitos”.

Por outro lado, muitos vêem Greta Thunberg como um exemplo de engajamento a ser seguido por jovens de todo o planeta. No jornal online GGN, Cristiane Vieira escreveu que Greta possui um “um discurso e uma prática realmente transformadores” e que a jovem tem a “coragem de enfrentar a crueldade humana sem apelar ao ódio”. Nessa mesma linha, a famosa estrela de reality show estadunidense, Kim Kardashian, elogiou a jovem ativista, qualificando-a como “corajosa e incrível” e afirmou compartilhar de sua preocupação a respeito da mudança climática.

Maniqueísmos à parte, não compartilho do otimismo ingênuo em relação a Greta Thunberg e, evidentemente, muito menos apoio o ódio gratuito à adolescente escandinava. Prefiro buscar entender Greta como uma jovem inserida em seu contexto histórico e social (aliás, fator imprescindível para explicar boa parte das ideias, ações, hábitos e costumes dos seres humanos).

Pois bem, Greta faz parte da classe média sueca, setor social que, tendo as suas necessidades básicas devidamente satisfeitas pelo Estado do bem-estar social (o que, no Brasil, a direita liberal chama de “estatismo”, “petismo” ou “comunismo”), pode se dar ao luxo de pensar em questões que vão além da mera sobrevivência cotidiana, como é o caso da causa ambiental global.

Não é por acaso que grande parte dos entusiastas das ideias de Greta no Brasil são também de classe média, o que é o caso da chamada “esquerda pequeno burguesa”, adepta de pautas abstratas, distantes dos dilemas cotidianos da classe trabalhadora, como são os exemplos dos chamados “discursos identitários” e da própria pauta ambiental. Nesse sentido, são emblemáticos os elogios tecidos a Greta pela ex-candidata a vice-presidente Manuela D’Ávila.

Greta Thunberg disse na Cúpula de Ação Climática das Nações Unidas que os líderes internacionais roubaram seus sonhos e sua infância com palavras vazias. No entanto, é importante refletir que, por causa do sistema capitalista, milhões de jovens em todo o planeta sequer têm o direito de sonhar com algo. Portanto, é inócuo falar em um planeta melhor, o que significa também o respeito à natureza, sem mencionar a necessidade de se mudar o sistema econômico vigente.

Como bem afirmou o presidente russo Vladimir Putin, países pobres da África e da Ásia estão procurando crescer e, por isso, acabam utilizando bases energéticas poluentes. Consequentemente, é inviável forçar que esses países mudem suas matrizes energéticas para energias renováveis na fase de desenvolvimento em que se encontram.

Aliás, esse discurso de que os países subdesenvolvidos devem se abster de modificar seu meio ambiente em prol da “preservação do planeta” é uma tática que os países ricos têm para obstruir o crescimento das nações pobres que remete, pelo menos, à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, de 1972 (ironicamente, realizada na mesma Estocolmo onde nasceu Greta Thunberg).

Lembrando o economista sul-coreano Ha-Joon Chang e seu clássico livro Chutando a Escada – A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica, os países ricos alcançaram seus altos índices de desenvolvimento, entre outras formas, degradando o meio ambiente e praticando o chamado “protecionismo econômico”. Porém, essas mesmas nações sugerem aos países subdesenvolvidos que não desmatem um palmo de seus territórios e abram seus mercados. Ou seja, em bom português: “Faça o que eu digo, não o que eu faço”.

Também seria demasiadamente ingênuo acreditar que uma liderança global tão jovem quanto Greta surgiria assim, “do nada”, de maneira espontânea. É óbvio que ela não é apoiada por George Soros ou faz parte de uma conspiração esquerdista do “movimento globalista”. Mas também é fato que poderosos empresários ligados às chamadas “energias alternativas”, interessados em diminuir a oferta global por combustíveis fósseis, poderiam tranquilamente se beneficiar dos discursos da ativista sueca. O grande investidor da indústria nuclear global e famoso militante contrário ao aquecimento global, Al Gore (não por acaso um simpatizante das ideias de Greta) que o diga.

***

Francisco Fernandes Ladeira é professor do IFES e mestre em Geografia pela UFSJ.

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