Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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MEIO AMBIENTE > Tragédia anunciada

Mudança climática chega aos Açores

Por Rui Martins em 01/10/2019 na edição 1057

(Foto: David Mark – Pixabay)

Apesar da descrença de Donald Trump, seguida por Jair Bolsonaro, quanto à mudança climática, ela parece ir se evidenciando. O furacão Lorenzo, em direção aos Açores, devendo chegar à Irlanda, pode ser um indício, se novas tempestades assolarem o Atlântico e chegarem às costas europeias. Embora tenha diminuído de intensidade, Lorenzo começou com uma força nunca antes ocorrida naquela região do Atlântico.

Já estamos acostumados com os temporais e furacões destruidores na costa leste norte-americana. Tanto que nem percebemos ter aumentado sua frequência, assim como a violência dos ventos, que chegam à velocidade de 260 km horários.

Agora surge essa novidade, nunca registrada desde 1926: um forte furacão que ameaçava o arquipélago dos Açores, nesta quarta-feira, e que deverá chegar até as costas da Irlanda. O furacão Lorenzo começou violento no domingo, na categoria 5, mas felizmente diminuiu de força; mesmo assim, é o mais forte surgido no extremo norte e leste do oceano Atlântico. Até agora, as tempestades no Atlântico não começavam além da categoria 3. Primeiros sinais de mudanças que irão também afetar as costas marítimas europeias?

Entretanto, as destruições causadas pelo furacão Dorian nas Bahamas e os estragos que poderão ser provocados pelo furacão Lorenzo no arquipélago dos Açores em nada alteram a postura do atual governo brasileiro. Para Bolsonaro, Ernesto Araújo e Olavo de Carvalho, o mundo não está vivendo uma transição climática causada pelo homem, responsável pela concentração do dióxido de carbono na atmosfera.

Para Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores, não existe nenhuma mudança climática, que ele chama de climatismo, designação adotada pelo governo para nomear uma ideologia de esquerda. O Brasil de Bolsonaro não está sozinho nessa interpretação – ela é a mesma do presidente norte-americano, Donald Trump.

Há cerca de vinte anos, a questão do aquecimento climático provocava ainda algumas dúvidas. Foram as pesquisas do GIEC, Grupo Intergovernamental sobre a Evolução do Clima, órgão da ONU, que definiram a influência do homem sobre o sistema climático e alertaram quanto aos riscos de graves consequências climáticas nos próximos anos, mas afirmando ser possível limitar essas alterações do clima.

Antes disso, alguns cientistas demonstravam ceticismo. Entre eles, um ex-ministro francês socialista da Educação, Pesquisa e Tecnologia, do governo Lionel Jospin, de 1997 a 2000. Era Claude Allègre, que chegou a escrever livros sobre a questão, considerados negacionistas.

Porém, havia uma diferença entre Claude Allègre e os negacionistas brasileiros. Para ele, haveria, sim, uma mudança climática no planeta, mas nada tinha a ver com a influência humana. Allègre deixou mesmo de ser escolhido para ocupar novamente um ministério, no governo de Nicolas Sarkozy, depois de ter publicado um artigo negacionista numa revista francesa, contestado pela maioria da imprensa, como o jornal Le Monde.

Portanto, no passado, o chamado negacionismo climático, ao qual aderiu o governo Bolsonaro, poderia ser compreensível. Entretanto, depois da comprovação científica pelo GIEC da interferência humana na mudança climática, não existem mais justificativas científicas possíveis.

Restam os interesses econômicos, que geram uma imprudência e uma negligência capazes de levar o mundo a catástrofes mundiais, como alertou a jovem Greta Thunberg em seu breve discurso inflamado em Nova York.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. É criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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