Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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MEIO AMBIENTE > Vertigem coletiva

O fim das queimadas da cana em São Paulo e a Amazônia em chamas

Por Adilson Gonçalves em 03/09/2019 na edição 1053

(Foto: Fernando Alves/Governo de Tocantins – Fotos Públicas)

O estado de São Paulo conseguiu extinguir a queimada nas plantações de cana-de-açúcar por meio de um programa que envolveu governo, pesquisadores, cientistas, ambientalistas e produtores rurais. Foi a coroação da ciência e do conhecimento para o melhor equilíbrio entre produção, economia, sustentabilidade e saúde. Sim, a fuligem gerada pela queima da cana atingia a todos, não apenas os trabalhadores diretamente envolvidos com a colheita, como também a população circunvizinha aos canaviais – ou seja, boa parte da área de São Paulo -, que recebia aquele material em seus quintais e pulmões. Os moradores de Piracicaba, por exemplo, sabiam que havia um horário estipulado para estender roupas no varal para que não saíssem dali sujas. Muito se discutiu sobre os impactos sociais da medida e a solução foi sua implantação paulatina, ano após ano, sempre com avaliações e balizadores reais. Foi um sucesso, portanto.

Mas agora, no âmbito federal, vivemos um retrocesso assustador. A evidente e clara nuvem de fuligem que se abateu sobre a capital paulista paradoxalmente cegou ainda mais os governantes em Brasília, que só sabem destruir nosso patrimônio e nada construíram neste ano. Questionam os dados científicos e muito bem elaborados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), bem como as evidências da NASA, e incriminam sem qualquer fundamento as organizações não governamentais pela descontrolada queima da floresta Amazônica. O mundo inteiro está indignado com tal postura e promove marchas em defesa do chamado “pulmão do mundo”. Nós, passivamente, assistimos à Amazônia arder em chamas. O que foi fruto de decisões lógicas e elaboradas no estado de São Paulo em relação à indústria sucroalcooleira vira picuinha e ignorância no governo federal. Temos de acabar com esse descalabro antes que o descerebrado acabe de vez com nosso ambiente e com nosso país.

A plataforma anti-ambiental de governo, agora instalada, já conhecíamos desde as eleições e não se pode dizer que não se imaginava que tão drástica assim seria. A dimensão e a rapidez da destruição é que estão assustando.

O equilíbrio entre meio ambiente e agronegócio foi o que colocou o Brasil em degrau internacional de produtividade e de respeito, inserindo seus produtos em mercados atentos à proteção ambiental. Agora, muito do que foi construído ao longo de décadas está em fase de ser perdido. E estamos falando de relações comerciais da ordem de bilhões de dólares, e não de trocas de bugigangas.

O meio ministro do ambiente – e não houve trocas de palavras na expressão – crê que tudo é fake, como é sua atuação na pasta. Quando os fatos estão a olhos vistos de milhões de pessoas (o já mencionado céu escuro em São Paulo), Ricardo Salles ainda aposta na vertigem coletiva. E segue em sua jornada de destruição.

Além de inteligência, falta diálogo para os empossados como gestores da nação.

***

Adilson Roberto Gonçalves é pesquisador da Unesp, membro da Academia Campineira de Letras e Artes, do Clube dos Escritores Piracicaba, da Academia de Letras de Lorena e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

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