Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEIO AMBIENTE > A micro-agricultura urbana

Uma jornalista entre ativistas. Uma ativista entre jornalistas

Por Claudia Visoni em 12/02/2016 na edição 889

Sou jornalista há 30 anos e micro-agricultora há oito. Decidi plantar comida em casa por acreditar que a agroecologia urbana é a solução para muitos dos nossos problemas socioambientais. Se entrei nessa raciocinando friamente (com o agravamento da crise ecológica planetária, o cultivo de alimentos para consumo próprio se tornará cada vez mais importante), confesso que me apaixonei pela vida de camponesa urbana.

Permacultura no centro de São Paulo / Foto Claudia Visoni

Permacultura no centro de São Paulo / Foto Claudia Visoni

Antes de colocar a mão na terra, sequer desconfiava da existência de um movimento global de retomada das hortas urbanas, apoiado pela ONU e centenas de acadêmicos, muito menos que me tornaria ativista e divulgadora dessa causa.

À militância da enxada juntei a proteção das fontes de água, a luta pela da redução dos resíduos, pela arborização urbana, preservação das sementes orgânicas, das abelhas e da biodiversidade brasileira, regeneração florestal e várias outras causas. Sou a jornalista entre os ativistas. E a ativista entre os jornalistas.

O que aprendi ao longo dos anos sendo repórter e editora se tornou muito útil no métier dos ecoxiitas, pois antes de compartilhar informações e links, fiscalizo-os com os óculos da desconfiança jornalística. E em geral mantenho a calma e a crença no diálogo mesmo quando provocada. Tendo transformado meu perfil no Facebook em uma agência de notícias socioambiental, descarto o que carece de fundamento e não faço eco ao que é puro protesto raivoso. Os fatos têm gritado por si só, sem precisar de adjetivação.

Não me considero imparcial, pois meu compromisso é com a preservação dos recursos naturais. Mas meus olhos e ouvidos estão sempre abertos aos argumentos do outro lado. Só que estes costumam bater sempre na mesma tecla: o desenvolvimento econômico é prioritário e depois a gente pensa na proteção da natureza. Como se fosse possível esperar que cada indiano conquiste sua casa na praia e cada chinês passe a comer carne três vezes por dia para iniciar a transição para a sociedade ecológica.

Esse momento de alto padrão de consumo para os sete (daqui a pouco nove) bilhões de pessoas no mundo não vai chegar porque não há recursos para tanto. No que se refere ao Brasil, o desenvolvimentismo sem cuidado com a natureza está degradando o país e falhando em oferecer boas condições de vida para a população. Vide o vazamento da Samarco, a proliferação do aedes, a crise hídrica, Belo Monte e por aí vai…

Quando a sociedade se convencer de que nossa espécie é parte – e não “dona” — da natureza e por isso precisa se harmonizar com seus ciclos, as soluções aparecerão espontaneamente. É aí que entra a permacultura, ciência de design ecológico que oferece soluções descentralizadas e de baixo custo para a criação de assentamentos humanos verdadeiramente sustentáveis. Tenho me dedicado bastante à disseminação de seus princípios e técnicas, bem como à articulação de redes de permacultores.

Vida alternativa

Hoje em dia meu cotidiano inclui muitos trabalhos braçais. Não só na horta de casa e nas hortas em praças onde sou voluntária. Lavo, cozinho, faxino, faço compostagem, conserto roupas. Até produtos de limpeza caseiros consigo produzir. Participo de feiras de trocas, frequento brechós, doo e recebo doações dos itens que preciso. Uma lista enorme de produtos industrializados deixou minha vida e o carrinho de supermercado tem cada vez menos itens. Prefiro comprar em quitandas e feiras orgânicas (além de colher o alimento fresquinho no quintal, é claro). Tenho percebido que muitas vezes a ação comunica bem mais do que as palavras.

De bota e chapéu capinando na horta comunitária, às vezes sou vista como um personagem ingênuo e exótico. Imagino que os abolicionistas também passaram por isso. Vou em frente porque acredito que as mudanças são urgentes e inevitáveis. Alguém ainda duvida de que nossa sociedade é insustentável? E, como a própria palavra já diz, o que é insustentável não tem como perdurar. Diante do cenário assombroso que se esparrama pelo horizonte, há três atitudes infelizmente muito comuns: fingir que os problemas não existem, apelar para o greenwashing (ações falsamente ecológicas para desviar a atenção da opinião pública) e negociar para que os avanços na agenda ambiental sejam apenas milimétricos. Esses estratagemas não têm sido suficientemente denunciados pelas reportagens.

Tenho percebido que para as gerações mais velhas (entre as quais já me enfileiro) está bem difícil lidar com a nudez do rei-capitalismo. Talvez muitos dos grisalhos nem tenham passado do primeiro parágrafo desse texto. Então dedico essa mensagem sobretudo aos jovens (não necessariamente cronológicos): vamos em frente promover as transformações mais do que necessárias para que tenhamos futuro. De preferência usando não só o celular e o lap top como também a enxada para que os temas ambientais cheguem ao espaço nobre do noticiário, com toda sua complexidade e amplitude.

Antes de me despedir, deixo o recado para os colegas: a mensagem adequada não é “Salve o planeta”. O planeta já passou por outros períodos de extinção e vai continuar por aí mais alguns bilhões de anos até que o sol exploda. O que corre risco iminente é a sociedade humana. A crise ambiental é a crise civilizacional. E essa pauta precisa emplacar.

***

Claudia Visoni se define como jornalista e micro-agricultora urbana

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