Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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MEMóRIA DO HOLOCAUSTO > Dia internacional

Aos que escaparam de Auschwitz

Por Sheila Sacks em 29/01/2019 na edição 1022

Celebrado anualmente desde 2005, o Dia Internacional do Holocausto instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) lembrou mais uma vez, em 27 de janeiro de 2019, os seis milhões de judeus assassinados pelo regime nazista da Alemanha, durante o período da 2ª Grande Guerra (1939-1945).

A data marca a libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, pelas tropas soviéticas em 27 de janeiro de 1945. Na ocasião, foram encontrados 7.650 sobreviventes em condições deploráveis. Dias antes, diante da ofensiva dos aliados, 58 mil prisioneiros foram retirados do campo pelos soldados nazistas e obrigados a marchar em direção à Alemanha, sob um frio rigoroso e sem alimentação, no que ficou conhecido como a “marcha da morte”.

Dados do “Memorial and Museum Auschiwitz-Bierkenau”, museu que funciona no local desde 1947, atestam que 802 prisioneiros tentaram escapar do campo — 757 homens e 45 mulheres —, mas que apenas 144 obtiveram êxito. Um efetivo de sete mil homens da famigerada SS (Schutzataffel – Tropa de Proteção) mantinha vigilância permanente, aplicando a tortura e métodos cruéis de aniquilamento, e desse total, menos de 800 foram posteriormente julgados por crimes de guerra.

Segundo a historiadora e socióloga alemã Tanja Von Fransecky, outros 764 judeus conseguiram escapar da morte no Holocausto (Shoah, do hebraico, calamidade ou catástrofe) pulando dos trens que os levavam para os campos de extermínio. Pesquisadora do Arquivo Nacional da Alemanha, na seção sobre “Perseguições aos judeus”, Fransecky é autora do livro “Escapees – The History Of Jews Who Fled Nazi Deportation Trains In France, Belgium, And The Netherlands” (2014) que conta a saga dessas pessoas, de idades variadas, que imbuídas de coragem ou tomadas pelo desespero se arriscaram e deram o seu “salto para liberdade”.

Indústria da morte

Localizado a 70 quilômetros da cidade de Cracóvia, no sul da Polônia, o complexo de campos de concentração de Auschwitz foi construído pelos nazistas em 1940 inicialmente para receber presos políticos do exército polonês, depois membros da resistência, intelectuais, homossexuais, ciganos e judeus (Auschwitz I).

Em 1941, foi construído um campo maior, com espaço para 100 mil pessoas, na região de Birkenau, a 3 quilômetros do primeiro campo. Mas este não seria um campo de trabalho e sim de extermínio. Foram instaladas cinco câmaras de gás e fornos crematórios, cada um deles com capacidade para 2.500 prisioneiros (Auschwitz II).

Um terceiro campo (Auschwitz-Monowitz) serviu para abrigar uma fábrica da indústria IG Farben, de produtos químicos. O pesticida Zyklon B, do qual a fábrica detinha a patente, foi usado nas câmaras de gás para o assassínio massivo de judeus. O complexo ainda incorporava outros 44 subcampos.

A estimativa é que foram exterminados 1,1 milhão de judeus em Auschwitz, a partir de 1942, entre homens e mulheres adultos, crianças, jovens e idosos. De acordo com o “United States Holocaust Memorial Museum”, em Washington, a matança também se estendeu a 74 mil poloneses, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros da União Soviética e 15 mil de outras nações.

Solução Final

O historiador e documentarista inglês Laurence Rees, em seu livro “Holocausto, uma nova história” (2017) chama a atenção para o fato de que o holocausto não foi uma obra de louco. “Na reunião em que se decretou a solução final, havia 15 pessoas, oito delas eram doutores universitários, vários especialistas em Direito”, assinala.

Há mais de 25 anos pesquisando, escrevendo e realizando documentários sobre o tema, Rees acredita que existe “uma parte muito sombria na humanidade” e cita o historiador americano Christopher Browning, também um estudioso do Holocausto: “É muito significativo que nunca na história um genocídio tenha fracassado devido à falta de pessoas dispostas a assassinar.”
O historiador inglês de 62 anos afirma que uma das pessoas mais importantes que conheceu ao longo da vida foi justamente um sonderkommando (prisioneiros que atuavam nos campos de concentração a comando dos nazistas) que lhe disse esta frase: “Jamais podemos saber do que os seres humanos são capazes.”

Em 2005, Rees escreveu, produziu e dirigiu para a rede britânica de rádio e TV BBC a série “Auschwitz:Os Nazistas e a Solução Final”, com seis episódios. Ele entrevistou dezenas de ex-prisioneiros e seus carrascos em um trabalho que durou três anos e que também resultou em um livro de igual título.

Na ocasião, falando ao jornal espanhol “El País”, Rees revelou o motivo que o levou a dedicar a maior parte de sua vida a pesquisar sobre o Holocausto. Foi a partir de uma resposta dada pelo secretário pessoal de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do regime nazista.

Homem encantador e muito inteligente, segundo Rees, Wilfred Von Owen foi entrevistado pelo historiador. “Ele me disse que a melhor palavra que lhe ocorria para definir o que foi a sua experiência no Terceiro Reich seria ‘paraíso’.” Owen faleceu em 2008, aos 96 anos, em Buenos Aires.

Diante dessa resposta, Rees se aprofundou ainda mais em seus estudos sobre esse período de trevas para entender de que forma um governo com apoio popular se converteu na maior máquina aniquiladora de seres humanos da história.

Perseguições e fugas

No início do século 20, as perseguições violentas aos judeus se concentravam na Rússia. Vários pogroms (palavra de origem russa que significa ‘causar estragos’, ‘destruir com violência’) ocorreram antes da 1ª Grande Guerra como os das cidades de Kishinev (1903) e Odessa (1905), com centenas de casas e lojas destruídas e milhares de judeus mortos ou feridos. Ao todo, mais de dois milhões de judeus fugiram da Rússia entre 1880 e 1914.

Com a ascensão de Hitler a chanceler da Alemanha, em janeiro de 1933 (no ano seguinte se tornaria o führer do regime nazista), 37 mil judeus deixaram o país, 7% dos 520 mil que lá viviam. A maioria se deslocando para a França e a Holanda.

Ainda em 1933 foi implementado o primeiro campo de concentração na Bavieira, em uma fábrica desativada na cidade de Dachau, a 15 quilômetros de Munique. Inicialmente para confinar políticos e intelectuais comunistas e socialistas.

Cinco anos depois, com os judeus alemães já sofrendo os mais variados tipos de pressão social, tem início na Alemanha um dos progroms mais brutais da história. A Noite dos Cristais (Kristallnacht) ou a Noite dos Vidros Quebrados, iniciou-se na noite de 9 de novembro de 1938, durou dois dias e teve um saldo aterrorizante: 250 sinagogas queimadas, sete mil estabelecimentos comerciais judaicos destruídos, cemitérios, hospitais, escolas e casas saqueadas, 30 mil judeus presos e dezenas de mortos. Tudo acontecendo ante a total indiferença das forças policiais.

Foi o terrível prenúncio da tragédia avassaladora, sem precedentes na história moderna, que iria desabar sobre os judeus da Europa, mudando de forma cabal e dramática a percepção humana sobre o que se entende por “mal”. Porque, como bem alerta a filósofa americana Susan Neiman (“O Mal do Pensamento Moderno”) “o que aconteceu em Auschwitz representa tudo que queremos dizer hoje em dia quando usamos a palavra mal: atos absolutamente daninhos que não deixam espaço para justificativa ou explicação”.

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Sheila Sacks é jornalista no Rio de Janeiro.

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