Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MEMóRIA > MIKE WALLACE (1918-2012)

Repórter atilado, entrevistador temido

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 10/04/2012 na edição 689

Mike Wallace, que morreu na noite de sábado (7/4) aos 93 anos, foi o símbolo máximo do programa 60 Minutes, da rede de TV americana CBS, o qual foi, por sua vez, o símbolo máximo do telejornalismo investigativo nos EUA.

Grande entrevistador, que sabia entremear perguntas suaves, como que para amaciar o entrevistado, com questões contundentes e desconcertantes, foi também um dos pioneiros da técnica da “entrevista surpresa”, sem preparo ou agendamento, e com ela costumava ser especialmente letal.

Um de seus maiores momentos foi em 1979, pouco depois de radicais islâmicos (com o apoio tácito do governo revolucionário que havia deposto o xá Reza Pahlevi) terem invadido a embaixada americana em Teerã e iniciado o longo tempo em que mantiveram reféns 52 cidadãos dos EUA.

Wallace conseguiu uma entrevista com o aiatolá Ruhollah Khomeini, o líder supremo do Irã, e teve a coragem de lhe perguntar como reagia à frase do presidente do Egito, Anuar Sadat, que classificava as ações de Khomeini como “uma desgraça para o Islã” e o próprio aiatolá como “um lunático”.

A tensão foi tão grande, que os intérpretes iranianos a princípio se recusaram a traduzir a pergunta a Khomeini, que, afinal, respondeu dizendo que Sadat devia ser deposto (dois anos depois o presidente egípcio foi morto em um atentado terrorista).

Concorrência pesada

Outra situação extraordinária em sua notável carreira ocorreu na década de 1990, quando ele resistiu às pressões de seus superiores hierárquicos na CBS que queriam interferir em famosa reportagem liderada por Wallace sobre a indústria de cigarro, a qual provava que executivos das maiores fábricas de tabaco haviam mentido em depoimentos oficiais quando diziam desconhecer que a nicotina causa dependência física.

Wallace pôs a reportagem no ar e alertou o público de que a CBS havia imposto restrições ao que os telespectadores iriam assistir. A história virou um filme importante, The Insider (“O Informante”, 1999, de Michael Mann), em que o ator Christopher Plummer faz o seu papel.

O incidente desgastou a posição de Wallace na CBS, mas ele seguiu no ar com 60 Minutes, apesar da idade já avançada e do declínio gradativo de prestígio do programa, no contexto da crise geral do telejornalismo da TV aberta devido à concorrência progressiva das redes de TV paga e da internet.

Fora da lista

Wallace nasceu em 9 de maio de 1918 num subúrbio de Boston, filho de judeus russos imigrantes. Seu sobrenome de família era Wallik. Começou no jornalismo ainda como estudante universitário, na Universidade de Michigan, como locutor da rádio universitária.

Foi correspondente de rádio na Segunda Guerra Mundial e começou a trabalhar em TV numa emissora de Nova York em 1956, com um programa de entrevistas em que começou a burilar seu estilo. Entre os primeiros convidados de seu show estavam futuras celebridades nacionais, como o escritor Norman Mailer.

Em 1963, ingressou na CBS, conhecida como a “rede Tiffany”, graças ao prestígio acumulado por Ed Murrow, o grande patriarca do telejornalismo nos EUA, e sua equipe. Wallace foi ao Vietnã como repórter e fez entradas no famoso Face the Nation, até que surgiu 60 Minutes, em 1968, com apenas dois apresentadores: Wallace e Harry Reasoner.

O formato passou por várias alterações ao longo do tempo, e contou com a participação de outros jornalistas importantes, como Dan Rather, Diane Sawyer, Christiane Amampour, Ed Bradley, Walter Cronkite, Bob Schieffer, Eric Sevareid, Charles Osgood, Meredith Vieira e muitos outros. Mas ninguém ficou mais tempo do que Wallace, que completou 40 anos no programa e o personificou mais do que ninguém.

Os melhores períodos de 60 Minutes foram no fim da década de 1970 até meados dos anos 1980, e entre 1990 e 1994, quando foi número 1 de audiência em várias temporadas e tinha taxas de audiência que chegaram a 28%, o que significava cerca de 40 milhões de domicílios.

Atualmente, os índices de 60 Minutes mal passam de 8% e ele nunca voltou à lista dos dez programas mais vistos neste século (a última vez em que esteve nela foi em 1999).

***

[Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista]

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