Domingo, 26 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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“Eleições são última chance da democracia mexicana”

Por Fabio Victor em 22/05/2012 na edição 695

Carlos Fuentes conhece intimamente a tragédia mexicana das drogas. Em 2005, perdeu para elas uma filha de 29 anos. Viciada, Natasha Fuentes foi encontrada morta num bairro barra-pesada da Cidade do México famoso pelos pontos de tráfico, segundo relatou a imprensa do país à época. Em entrevista à Folha, o principal escritor mexicano analisa o colapso enfrentado pelo país por causa do narcotráfico, que já causou mais de 40 mil mortes desde 2006, quando o presidente Felipe Calderón declarou guerra aos cartéis. Fuentes culpa os EUA, que segundo ele consomem a droga mas não cooperam com o combate, acusa a debilidade das forças de segurança mexicanas e defende o uso de forças estrangeiras.

Afirma ainda que as eleições presidenciais de 2012 são a última chance para que o país não seja engolfado pelo tráfico. Eterno candidato ao Nobel, o embaixador aposentado, cujo ensaio La Gran Novela Lationamerica [o grande romance latinoamericano] sairá em 2012 no Brasil pela editora Rocco, falou de sua admiração por Machado de Assis, “o único escritor ‘cervantino’ no continente americano” e “muito acima de qualquer outro romancista da época”. Revelou se arrepender do rompimento com Octavio Paz (1914-1998), de quem foi amigo por 40 anos, motivado por críticas feitas por um discípulo do poeta e Nobel.

Fuentes, que vive entre Londres e Cidade do México e fez 83 anos na última sexta [11 de novembro de 2011], esteve no Rio na semana passada para dar uma conferência na Academia Brasileira de Letras e participar de um fórum continental de debates. Ele falou à reportagem à beira da piscina do Copacabana Palace, hotel onde já morou na infância, nos anos 30, quando seu pai trabalhava na Embaixada do México no país.

“Acabar com as drogas é um problema global”

O México vive uma escalada da violência ligada ao narcotráfico. Qual é a semente dessa situação?

Carlos Fuentes– Fechou-se a rota da Colômbia pelo Caribe. O México é vizinho dos EUA, principal mercado. As forças de segurança mexicanas são muito pobres para enfrentar o crime. Os criminosos atuam em México, mas compram armas nos EUA e vendem o produto aos norte-americanos. Quem compra o produto, quem o consome, isso não se sabe. Sabe-se quem são os distribuidores no México, mas não se sabe nada mais. É uma situação notável. Se não houver um acordo entre México e EUA para definir responsabilidades nesse tema, estaremos de mal a pior. Além disso, o presidente Calderón decidiu enfrentar o narcotráfico diretamente. Com 15 dias no poder, declarou guerra ao tráfico. Calderón não inventou o tráfico, existe faz décadas, mas os presidentes colocavam um grupo contra outro, negociavam, faziam política com isso. Calderón, ao contrário, fez uma guerra frontal, e foi mal, porque o fato de que o tráfico derrote o exército mexicano é muito grave. Quer dizer que, se não pode se defender contra os traficantes, o exército não pode defender a nação. Então tem de haver um corpo especial dedicado a combater o tráfico, e que o exército se ocupe do que está na Constituição, e não é combater narcotraficantes.

O problema é muito complexo. Faço parte de um grupo com os [ex-]presidentes Zedillo, Gavíria e Fernando Henrique Cardoso para tratar de criar aos poucos uma cultura contra as drogas, começando pela legalização da maconha. Mas é um trabalho muito lento. O presidente Roosevelt em 1933 acabou com a proibição ao álcool e acabou com Al Capone. Há bêbados, mas não há Al Capone. Mas acabar com a globalização das drogas é difícil, porque é um problema global.

Calderón também não tem responsabilidade por isso?

C.F.– Sim, e age mal. Mas todos os presidentes anteriores também têm, colocaram os narcotraficantes uns contra outros, faziam política, tratavam de superar os problemas com diálogo. Calderón declarou guerra, e perdeu.

O sr. defende a descriminalização das drogas como uma saída para o problema, mas ao mesmo tempo diz que quem consome a droga são os EUA. Não é um paradoxo?

C.F.– Não. Os EUA têm responsabilidade e não a assumem. Os consumidores estão nos EUA. Se um governo americano assumisse responsabilidade sobre esse problema, o quadro seria diferente. Então temos que pedir a descriminalização, mas com a cooperação dos governos, porque, repito, é um problema global.

A descriminalização também nos EUA…

C.F.– Claro. A Califórnia já fez isso. Há cinco estados que descriminalizaram o uso de algumas drogas. Ou seja, se se começa pelos estados da federação, o governo federal, em Washington, terá que tomar uma postura, o que não fez.

Quem são os chefes do tráfico?

C.F.– Não se sabe.

Por que não se sabe?

C.F.– Mistério. Diga-me, porque eu não sei.

Como a crise do tráfico vai interferir na eleição presidencial mexicana de 2012?

C.F.– É uma grande pergunta. Eu espero que o sistema democrático mexicano, que nos deu trabalho de construir – porque tivemos um único partido no poder por 77 anos, o PRI, e agora temos três partidos grandes – [seja capaz de ajudar a resolver o problema]. E agora vai haver uma eleição que é última oportunidade da democracia mexicana. Ou as eleições são legítimas, e se cria uma democracia estável, mais forte, ou o crime embarga o México totalmente. São eleições decisivas para o futuro do México.

“[O PRI] é um partido da época de Matusalém”

Para o sr., quem tem mais chances de ganhar a eleição?

C.F.– Eu sou partidário de um, de Marcelo Ebrard [prefeito da Cidade do México, do esquerdista PRD, cuja candidatura não prosperou]. De todos os candidatos, é sem dúvida alguma o melhor, o mais inteligente, o mais adaptado ao mundo atual, por isso espero que ele ganha a eleição, mas vem de uma esquerda muito dividida, porque há outro candidato, López Obrador [derrotado por pequena margem por Calderón na eleição de 2006], de uma esquerda muito antiquada. Ebrard é de uma esquerda moderna, poderia atrair não só a classe trabalhadora, mas a classe média.

O recrudescimento da violência ocorreu depois que o PRI saiu do poder. Essa situação pode trazê-lo de volta, uma vez que tem um nome forte, Enrique Peña Nieto?

C.F.– Porque sabiam negociar com as piores pessoas, os piores criminosos, e os governos do PAN – Fox e Calderón, não souberam negociar.

Quais seriam as consequências de uma volta do PRI?

C.F.– Não sei. Não creio que seriam boas porque é um partido da época de Matusalém. É muito antigo, muito desacreditado, e duvido muito que consiga se livrar dos vícios que são muito enraizados.

“A polícia não existe no México, é totalmente corrupta”

É possível fazer um paralelo entre México e Colômbia em relação ao narcotráfico?

C.F.– Não porque na Colômbia o problema está dominado. Na Colômbia era uma narcoguerrilha, tinha um caráter político. No México não tem nenhuma conotação política. São pura e simplesmente criminosos.

O México não precisaria de um Plano Colômbia?

C.F.– O México precisa de um Plano México.

O México está preparado para a descriminalização? Há um sistema de saúde compatível?

C.F.– Claro que sim. No grupo dos ex-presidentes, estamos propondo como uma das principais propostas não colocar na cadeia os consumidores. Se os coloca na cadeia, às vezes se transforma em criminoso quem não é criminoso. É um problema criminal, mas é também um problema de saúde. Muitos dos consumidores deveriam estar em hospitais, e não virando criminosos na prisão.

O sr. disse numa entrevista que o México necessitava de forças estrangeiras, como a Securitéfrancesa ou comandos israelenses para combater o tráfico, pois a polícia mexicana está cooptada…

C.F.– Ou os alemães, que são muito bons… A polícia não existe no México, é totalmente corrupta, não se pode contar com ela. Por isso Calderón não pôde usar a polícia e mandou o Exército, mas descaracterizando as funções do Exército, que não são compatíveis com o combate à droga. Tudo está mal, tudo é ilegal, tudo está torcido, precisamos de uma nova visão das coisas. Eu digo, para provocar, para trazermos os israelenses, os alemães e os franceses que eles acabam em cinco minutos com tudo.

“Regimes como o de Cuba ou o de Chávez estão condenados à morte”

Não é uma proposta real?

C.F.– Diga que é real, diga.

Porque assim poderia ser interpretada como uma intervenção internacional…

C.F.– Este idiota que é [pré-]candidato a presidente dos EUA, o republicano [Rick] Perry [que abandonou a disputa], pediu uma intervenção no México, para que fosse uma decisão de Estado americana. O México pode convidar forças especiais de outros países, para que ajudem no combate às drogas, que em nada violem a soberania; é o que eu proponho. Querer que os EUA intervenham é grave porque se sabe que os EUA têm ímpetos imperialistas.

Como analisa o fenômeno dos governos de esquerda, alguns deles populistas, na América Latina?

C.F.– Creio que são fracos e estão de saída. Acontecerá algo, que de certo modo é lamentável: Hugo Chávez vai morrer. Basta ver uma foto de Hugo Chávez para saber que dura muito pouco. E é Chávez quem financia o regime de Cuba. E se Cuba não tem financiamento, a quem recorre Raúl Castro? Porque Cuba não sabe resolver seus próprio problemas econômicos. Creio que aqui [no Brasil] há um grande exemplo, do [ex-]presidente Lula, que tem boas relações com todos para saber por onde vão as coisas finalmente. Creio que vão para o lado de uma esquerda democrática – é o meu desejo –, ou pelo menos uma direita democrática, porque a democracia vai ser a norma da América Latina no século 21, disso não tenho a menor dúvida. Regimes de exceção, como o de Cuba ou o de Chávez, até certo ponto, ou inclusive os regimes de Evo Morales e de Correa, estão condenados à morte. Creio que o regime brasileiro, o chileno, o regime peruano, de Ollanta Humala, são o caminho a seguir.

“Obama entendeu que os EUA não são a única potência”

O sr. apoiou a Revolução cubana, depois se distanciou de Cuba. Como analisa o que se passa agora lá e qual sua relação atual com o regime?

C.F.– Todos recebemos a Revolução cubana com alvoroço. Na queda de [Fulgencio] Batista, eu cheguei a Havana antes de Fidel Castro, num avião vindo do México, e celebramos muito o feito. Mas em um momento em que Neruda e eu fomos a Nova York a uma conferência do Pen Club e fizemos um apelo para que, à parte os problemas da Guerra Fria, houvesse uma maior relação cultural entre os países do leste comunista e os países democráticas. Fizeram uma carta com cem escritores, encabeçada por Fernández Retamar [poeta cubano], nos condenando e chamando de imperialistas, que a guerra era contra os EUA e não havia opções. Aí eu disse que, com [Roberto] Fernández Retamar à frente da cultura cubana, eu não iria mais a Cuba. E assim continuou. Não vou.

O sr. sempre teve uma relação complexa com os EUA, que já lhe negaram visto e que o sr. chamava de Estados Unidos da Amnésia [por considerá-lo um país sem memória]. Como é sua relação com o país hoje?

C.F.– Cresci nos EUA dos quatro aos 11 anos, na época do presidente Roosevelt. Fui à escola, tinha uma grande admiração pelo presidente Roosevelt e suas políticas. De maneira que o que se passou depois me parece uma traição ao melhor dos EUA, com as exceções que sabemos – Truman, Clinton e agora Obama. Mas, quando se traiu a grande virtude americana… Bush filho foi o pior; a Guerra do Iraque foi desnecessária, contra as leis internacionais e o Conselho de Segurança [da ONU], uma guerra perdida de antemão. Uma bobagem, um horror, que agora Obama está tentando reparar. De maneira que tenho uma relação de grande admiração pelos EUA, mas, quando essa admiração é traída pelos EUA, me irrito muito, me encabrono [fico p…], como dizemos no México. Creio que os EUA têm um destino especial agora. Obama entendeu que os EUA já não são a única potência, como foram com o fim da União Soviética, e que agora têm que saber colaborar com o Brasil, a China, a Índia. Isso não entendem os americanos, que estão muito acostumados a chamar o século de american century [século americano]. Obama entende o que está passando e é um grande presidente, mas é difícil fazer com que os americanos o entendam.

“A herança que tivemos foi dizer o que não se havia dito”

A imprensa mexicana escreveu que a sua filha morreu por implicação com as drogas. O que aconteceu exatamente?

C.F.– Isso, caiu no vício das drogas e isso a matou. É só o que digo.

Falemos um pouco de literatura…

C.F.– Por favor… [risos] Parece que sou um profeta político.

Mas o sr. gosta, fala de política quase como um político.

C.F.– Não me insulte [risos].

O sr. lançou o ensaio La Gran Novela Latinoamericana[o grande romance latinoamericano], que sairá no Brasil em 2012. Como define a obra?

C.F.– Nós começamos a escrever a partir de um evento extraordinário, que foi a descoberta da outra metade do mundo, que não se sabia que existia. E a obrigação dos primeiros cronistas das Índias, começando por Cristóvão Colombo, era contar maravilhas para o público europeu. Aqui há sereias. Aqui há baleias de duas cabeças. Caramba! O real maravilhoso que se atribui a [Alejo] Carpentier e García Márquez foi inventado pelos cronistas das Índias, maravilharam o público europeu que esperava que o continente americano fosse um continente de maravilhas. Nossa história se inicia com um realismo mágico e em seguida com uma grande crônica épica, de uma épica desiludida, que é a conquista do México de Bernal Díaz del Castillo. Bernal chega, vê o mundo azteca, o mundo de uma grande cultura, uma grande cidade, a segunda cidade do mundo nesse momento, a do México, e tem que destruir o que admira. Isso cria um grande conflito no ânimo dos conquistadores e de seus descendentes.

Temos muito o que dizer. No século 19, salvo Machado de Assis, ninguém disse o que tinha que dizer, seu trabalho era copiar o naturalismo e o realismo europeus. Só no século 20, com Alejo Carpentier, com Borges, com Lezama Lima, com [Juán] Rulfo, se está contando a nossa realidade. E essa foi a herança que tivemos nós do boom [latinoamericano] – dizer o que não se havia dito, contar a história não dita. E os novos romancistas não têm por que repeti-la, estão contando o que acontece hoje, isso me parece muito importante.

“Kafka não ganhou o Nobel”

Elogiado em La Gran Novela Latinoamericana, Memórias Póstumas de Brás Cubasé o único romance brasileiro digno de louvor?

C.F.– Não, creio que todos os romances de Machado o são [risos]. Machado é um grande escritor, mas é curioso que seja o único escritor “cervantino” no continente americano. Os demais imitam Balzac, Zola, mas não imitam Cervantes. Machado, ao contrário, toma a grande herança de Cervantes e a torna atual entre os romances, e é isso que lhe dá grande categoria, muito acima de qualquer outro romancista da época.

Quem são os romancistas mais importantes da América Latina no século 20?

C.F.– Creio que a literatura romanesca descenda da poesia e a poesia descenda de Rubén Darío. Rubén Darío renova a linguagem poética, e dele vêm Neruda, Huidobro, Nicanor Parra, os grandes poetas. E, graças à renovação de linguagem dos poetas, vêm os romancistas, são os filhos da poesia. É uma literatura de um valor muito especial, por sua relação muito íntima com a poesia de língua espanhola, de ambos os lados do Atlântico.

Mas quais são os grandes romancistas latino-americanos do século 20?…

C.F.– Bem, são os filhos da poesia, Borges, Carpentier, Lezama Lima, Rulfo, e depois a geração de García Márquez, Vargas Llosa, Donoso etc.

Entre os grandes romancistas vivos do boomlatino-americano dos anos 60/70, García Marquez e Vargas Llosa ganharam o Nobel. A sua possibilidade de ganhar o prêmio diminuiu?

C.F.– Kafka não ganhou o Nobel, nem Proust, nem Joyce [risos]…

“O romance, já tenho, mas não consigo terminar”

O sr. foi por muitos anos amigo de Octavio Paz. Por que brigaram?

C.F.– Por que ele empregou gente secundária para me atacar.

Enrique Krauze?

C.F.– Não sei como se chama.

É verdade que o problema de tudo foi um ensaio de Krauze contra o sr. na revista Vuelta?

C.F.– Não li.

O sr. se arrepende da briga com Paz?

C.F.– Não. Sim, sim, me arrependo, porque fomos amigos 40 anos.

E o sr. não conhece Enrique Krauze?

C.F.– Não sei quem é.

O sr. estava escrevendo um romance sobre a história do guerrilheiro colombiano Carlos Pizarro Léongomez. Já está concluído?

C.F.– Não termina nunca porque é sobre um tema atual, é muito ruim para um romancista, porque estão presos a mudanças. Impressionou-me a maneira como Carlos Pizarro renunciou à guerrilha e foi assassinado durante um voo. E o rapaz que o matou foi assassinados pelos guardas de Carlos Pizarro e em seu sapato havia um bilhete que dizia: “Não se esqueçam de dar à minha mãe os US$ 2.000 que me prometeram.” Então é muito dramático e há toda uma história de por que Pizarro, de uma família da burguesia colombiana, entrou na guerrilha, por que deixou a guerrilha. Quando comecei a escrever, não se sabiam de coisas que logo depois se soube. E me pergunto se não vai se descobrir mais coisas e aí poderei concluir meu romance, que já tenho, mas não consigo terminar.

O amor de minha mulher [de presente]

Anos antes da filha Natasha, o sr. também perdeu um filho prematuramente. Onde um pai encontra forças para superar as perdas?

C.F.– Escrevendo com eles. Eu convoco meus filhos, na hora de escrever estão comigo, me ajudam a escrever, imaginam o que eles poderiam imaginar, o que poderiam dizer, e isso ajuda a mantê-los vivos.

O sr. vai fazer aniversário na sexta-feira [11 de novembro de 2011], 83 anos…

C.F.– Sim, 11/11/11, isso nunca mais vai acontecer.

Estará no Brasil?

C.F.– Estarei voando para Nova York.

Que presente gostaria de receber?

C.F.– O amor de minha mulher, que não tirem isso de mim, isso é muito importante [risos].

***

[Fabio Victor, da Folha.com]

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