Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MEMóRIA > IVAN LESSA (1935-2012)

A última crônica

Por Ivan Lessa em 12/06/2012 na edição 698
Reproduzido da BBC Brasil, 8/6/2012

Orlando Porto. Taí um nome como outro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, deputado, ministro, farmacêutico. Mas não é. Trata-se de um anagrama de um escritor francês -e ator e ilustrador bom e autor e figurinha difícil francesa e aquilo que se poderia chamar de “frasista”.

Feio como um demônio, no meio da década de 50 cansei de dar com ele dando comigo lá pelo Boulevard St. Germain, xeretando o Flore, o Lipp, fazia uma cara de quem ia dizer algo importante e logo sumia na companhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluquinho dos filmes autobiográficos do Truffaut.

Dupla estranha. Os desenhos do -esse seu nome, artístico ou de batismo, Roland Topor- eram bacaninhas. Mas sempre foi Orlando Porto para mim.

Fez cinema também. O Inquilino do Polanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner Herzog. Até que bateu o que ocultava seus pés: umas botas estranhas como ele.

De vez em quando, numa revista esotérica, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com “cem boas frases para eu matar agorinha mesmo”. Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo cachê. Meros galicismos literários.

E aí trago à cena, mais uma vez, porque cismei, mestre Millôr Fernandes. Esse era profissional. Nada a ver com “frasista”. Trabalhava com a enxada dura da língua. Nunca para dar a cara no Flore, principalmente com Topor e Léaud.

Reli umas cem frases do Orlando, ou Topor, e não resisti à tentação de, em algumas delas, dar-lhes uma ginga por cima e outra por baixo, à maneira do frescobol querido do mestre, só para exercitar os músculos muito fora de forma.

Cem razões: Faço por bem menos, mas mais Copacabana e Leblon. Algumas raquetadas minhas em homenagem ao mestre cuja falta continuo sentindo:

– Melhor maneira de verificar, antes, se já não estou morto.

– Mas não se mata cavalos e malfeitores?

– Pelo menos eu driblaria o câncer.

– Milênio algum jamais me assustará.

– Apanhei-te, horóscopo! Pura enganação!

– Levo comigo a reputação de meu terapeuta.

– Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!

– Aí está: uma cura definitiva para a calvície.

– Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê.

– A vida está pelos olhos da cara. Pra morte eles fazem um precinho especial, combinado?

– Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.

– Ao menos é uma boca de menos a sustentar.

– Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.

– Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.

– Sabe que minha vida não daria um filme. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraçado em paz, peço-lhes.

– Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.

– Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.

– Roncar, nunca mais. Nem eu nem ninguém ao meu lado.

– Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!

– Consegui preservar o mistério girando sempre em meu torno.

– Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.

– Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.

– Ei, juventude, pode vir que pelo menos uma vaga está aberta.

– Emagrecer é isso aqui.

– Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim.

E assim, cada vez que um “frasista” passar por perto de mim, leve uma nossa: minha e de Millôr. Dois contra um a gente ganha mole.

***

[Ivan Lessa era um gênio]

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