Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > IVAN LESSA (1935-2012)

A volta de Ivan, o temível

Por Norma Couri em 12/06/2012 na edição 698

Entrevista realizada em Cascais (Portugal) e publicada no Jornal do Brasil em 26/9/1992. Ivan só voltou ao Brasil anos depois, por um mês. O romance Os Astros, Distraída continua inédito. Millôr Fernandes e José Lewgoy já morreram, e o movimento feminista completa 34 anos.

Depois de 14 anos em Londres, ameaça voltar ao Brasil aquele que já foi considerado o mais debochado dos cronistas brasileiros, Edélsio Tavares, ou melhor, Ivan Lessa. Para lançar um livro, seu primeiro romance.

O presente de Ivan Lessa é Londres, onde mora há 14 anos, mas o passado carioca volta em ondas trazendo anúncio de bonde e o hidrolitol, o mercadinho da esquina da Siqueira Campos, onde ele comprava cigarros Sir, o café Simpatia, o bar Gardênia, à esquerda do Jangadeiros de saudosa memória. Entre uma coisa e outra ele cantarola um samba-canção, enfia uma frase retirada dos seus tempos de dublagem de enlatados como Dr. Kildare ou Ben Casey.

Os amigos se espantam com a utilidade da sua “cultura inútil”: lembra o nome do figurante de Quo Vadis, o extra de Ben Hur, as bandas de jazz. Sabe tudo. Fez de tudo: foi ator juvenil, baixo de conjunto vocal, “halfesquerdo vigoroso” do Botafogo. Tira sarro de tudo. “Me pego rindo sozinho até num quarto escuro: deboche é atitude de vida, não gracinha de bar”

Por treze anos recheou de humor e inteligência a coluna “Gip gip nheco nheco”, a seção de cartas, as novelas e as crônicas e Edélsio Tavares no tabloide com mais personalidade no Brasil, O Pasquim. Há seis anos, reunião 15 crônicas em Garotos da Fuzarcae vendeu oito mil livros. Tem 57 anos, é carioca nascido em São Paulo, trabalha no Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, fazendo crítica de cinema, teatro, música, literatura e dando aulas de inglês.

Agora, ele se prepara para voltar ao Brasil, pela primeira vez desde que saiu em 1978. Vai lançar pela Companhia das Letras um romance com título roubado de Orestes Barbosa, Os Astros, Distraída. Esta entrevista foi feita numa de suas vindas a Cascais, onde dois meses por ano é vizinho da ex-miss Brasil, Adalgisa Colombo, no prédio em que Grace Kelly morou.

Quando você chegar ao Brasil o Collor vai estar lá?

Ivan Lessa – O Collor tem 43 anos, bota mais 15, ele escreve o livro Meu Impeachmente entra pra Academia Brasileira de Letras. Esse menino nasceu pra Academia., Isso, quando Ivo Pitanguy for presidente.

Seu pai ( Orígenes Lessa) não foi da ABL?

I.L. – Foi, Eu costumava dizer: “Meu pai foi levado para a Academia pelos maus amigos”. Como a gente fala de um filho que começou a fumar. Ele mesmo dizia que a Academia era pior do que eu podia imaginar. Eu não ia cobrar, uma das piores coisas do Brasil e a cobrança. Aliás, o Cacá Diegues se redimiu de todos aqueles filminhos tão fraquinhos cunhando a expressão “patrulha ideológica”. A Academia tem um papo tão bom que todo mundo acaba lá. Um bom tutu, se me cantarem agora no Barsil eu entro nessa.

Quatorze anos depois, você tem medo de não encontrar o que imagina?

I.L. – Quando saí, em 78, o que eu gostava já não estava lá. Pátria é uma abstração, minha pátria são seis quarteirões, seis amigos. Cada vez que encontro algum por aí, descubro que morreu alguém ou um bar. Quando saem publicadas fotos de passeatas por aqui, fico procurando, ué, aquele prédio sumiu? Outro dia descobri um esgoto em frente à Xavier da Silveira, onde a bola vivia caindo quando eu jogava pelada em 44. Os esgotos ficaram.

Não foram só os esgotos.

I.L. – Não, a mortandade dos peixes na lagoa [Rodrigo de Freitas] me dá saudade, aqueles edifícios com nomes franceses e o cheiro que é o mistério do Rio 

Elsie Lessa, sua mãe, diz que você não volta por medo de não sair mais.

I.L. – Na minha época as mocinhas que faziam análise diriam que eu “assumi” a condição de estrangeiro. O Brasil hoje pode ser mais estranho para mim do que o Sri Lanka. Todo mundo é estrangeiro. E pode parar por aí que estou ficando sério. Sou capaz de chegar e dizer “mim não falar português” quando encontrar Jaguar, Ziraldo, Millôr, Sergio Cabral, Paulo Garcez, José Lewgoy.

As pessoas dizem que você fica mais brasileiro a cada ano que passa.

I.L. – Bobagem. Teve um sujeito que foi para a frente da ONU queimar o passaporte e estava certo. Somos cidadãos do mundo. Está caindo tudo, as fronteiras, até o duty free – que os brasileiro chamam, pitorescamente, de free shop como se houvesse alguma coisa grátis nesse mundo além de estampa de sabonete Eucalol.

Faz de conta: se você voltasse trabalharia em quê?

I.L. – O que desse mais dinheiro com o menor vexame possível. Quem já fez publicidade de 54 a 68 como eu – nada mais sórdido – faz qualquer coisa. Mas se voltar, baixa minha cotação no mercado brasileiro.

E faria o que no dia a dia?

I.L. – Parece samba de Antonio Maria na voz de Dolores Duran, dois que já se foram: “nunca mais vou fazer/ o que o meu coração pedir/ faz de conta que eu não saí…”Eu faria o que já fazia até 78: viver em estado permanente de importação. De discos, livros, filmes. O que chega mais depressa no Brasilo é Arma Mortífera 3, Allien 3… Livro demora.

De que você sente mais falta?

I.L. – De tudo o que não está lá. E também do que está. O mar está lá, mas acho que deram um jeitinho de piorar. Quem tomou banho na Copacabana dos anos 40 não entra em nenhum outro mar no mundo.

Se você gostava tanto, por que saiu?

I.L. – Eu sempre saí. Minha primeira escola foi nos Estados Unidos. Eu tinha seis anos e meus pais foram trabalhar lá um ano. Depois saí de novo em 56 para passar uns meses em Paris, voltei; em 68 fui trabalhar na BBC em Londres. Saía mais “a procura de” do que “fugindo de”. Chorei o AI-5 na casa de Niomar Moniz Sodré em Paris, levado pelo Mário Pedrosa que encontrei num café, foi ele que me contou. Cometi a imprudência de voltar em 72, só um louco pra voltar no governo Médici. Aguentei até 78. Já estava gamado por Londres. Tem livrarias, silêncio, ausência de ruídos. Posso passear anônimo e viver recolhido feito bicho no meu canto.

Quer dizer, você saiu nos anos mais pesados do Brasil.

I.L. – No que estão chamando de Anos Rebeldes. Como se alguém pudesse acordar, escovar os dentes, pegar o lotação na esquina e dizer “meu bem, estou vivendo meus anos dourados”. Ou colocar máscara para assaltar um banco e dizer “hoje estou curtindo minha fase de anos rebeldes”. Ninguém vive um dia de anos dourados, como ninguém passa “um mau quarto de hora”, tem “um dia insone”, ou chega em casa e diz “tive um dia miserável, meu bem, cadê a janta?” Tenho pena dessa juventude que fica com a cara enfiada na televisão. Já estão dizendo que só fizeram passeata contra o Collor por causa da minissérie [Anos Dourados]. Essas coisas me chateiam no Brasil.

Mas você aproveitava todas essas coisas para debochar no Pasquim.

I.L. – Ah!, debochava. Das feministas que estão 24 anos mais velhas, da ecologia, do passarinho, dos acadêmicos, levantou a cabeça tomou pedra, principalmente se for político – é a única atitude decente que um homem pode ter diante da política. Como a gente também tinha outras preocupações do tipo “quem faturou a vedete Elvira Pagã?” O Pasquimvivia sendo apreendido. Já tinha trabalhado quatro anos na TV Globo – demitido por incompetência –, na Senhor– demitido pelo meu amigo Paulo Francis – e em Londres para a Status,onde escrevi até ver Jorge Luis Borges ser vilipendiado numa tradução do Pepe Escobar. Mulher pelada, tudo bem, traição ao Borges, não. A minha era mesmo O Pasquim

Vamos pegar o Brasil hoje.

I.L. – Cuidado para não queimar as mãos.

Você gosta da literatura e da música de hoje em dia no Brasil?

I.L. – Tento entender. Literatura é um pouco melhor, e não quero cair no lugar comum de achar que “escritor mesmo é o Machado”. Escritor mesmo é o Machado mas isso não quer dizer que o Moacyr Scliar não seja muito bom. Mas música? Marisa Monte? Isso é coisa nova? No meu tempo tinha uma Marisa Monte em cada inferninho no Beco das Garrafas que de repente chegava junto ao piano, cantava dois samba-canções, boleros, fox. Nossos “anos dourados “ já se foram. Já picamos. 

Seu romance pode provocar o “pico” outra vez.

I.L. – Se eu confiasse no bicho. Mas sofro da síndrome do Harold Brodskey, um americano que levou 30 anos para publicar o primeiro livro, e quando saiu no ano passado [1991] foi um desastre. Seria melhor ele continuar a enganar mais 30 anos. O livro está atravessado na minha garganta.

Como é o romance?

I.L. – Se for romance de mistério, já estou dizendo que o assassino é o mordomo: é passado no ano de 1949, estamos com Dutra, um ano antes da televisão e do campeonato do Maracanã com o gol de Gighia. O personagem central é meu alter ego no Pasquim, Edélsio Tavares, uma quatrentão free-lancer que escreve um livrinho canalha e vive de rádio, TV, revista, leva vida dura. Em 49 eu tinha 14 anos. Tenho uma ideia de como era o cheiro da rua, onde teve feira, o jeitão do bonde, o número de carros da Rio Branco, a sombra quando o sol bate na árvore e o padrão que faz na calçada, onde a garotada joga futebol, “olha o carro, tira a bola”.

Estão dizendo que vai ser o grande romance brasileiro. E cobrando.

I.L. – É melhor parar: recebi um adiantamento do Luis Schwarcz de US$ 3.500 em 1987. Ele pode colocar uma CPI em cima de mim e descobrir que transformei em barra de ouro, apliquei no Uruguai e com a minha preguiça crônica e fôlego curto, não termino o livro nem volto mais ao Brasil.

***

Inédito

[Trecho de Os Astros, Distraída]

“Bota o velho no sol

“O general Porciúncula na cadeira da sala ao lado do portão da vila, chinelos, calça de brim, paletó de pijama com grossas listras azuis, o próprio torcedor do Canto do Rio, jornal no colo. A praça em frente, o grupo escolar numa esquina, na outra o botequim do Waldomiro. Um sol quentinho na careca, dois dedinhos brincando com um botão da braguilha. Sandália de empregada, pléquite, pláquite, dia de feira. Cenoura, tomates. Nápoles, o Primeiro Escalão e o Quinto Exército norte-americano. Os protestantes do mundo inteiro condenam o comunismo. Famoso pastor Mars Boegner faz declaração à imprensa. Um botãozinho aberto. Três moleques correndo atrás da bola de meia. Unzinho, general? Continência. Filho da costureira, casa dois. Toma lá uma prata de dois mil-réis e uma moeda novinha de cinquenta centavos. Vada, o vale do Pó, Masarola, monte Comunale. Banana, quiano, beringela. Batata da perna da empregada. Ai, mais um botãozinho. Sr. Milton Campos considera que Minas não deve lançar candidato. Taqui, general. Nova continência. Samba-em-Berlim na garrafa de Coca-Cola. Vizinhos e netos às favas. Dá o pira, guri. A bola de meia chutada com o dedão amarelo da unha encravada, ui. Lá vai o Gringo pela direita abrindo na ponta para Esquerdinha. Pera, uva, maçã. Joelho de empregada. Ai, outro botãozinho aberto.”

***

[Norma Couri é jornalista]

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