Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > IVAN LESSA (1935-2012)

Almoços inesquecíveis

Por Eric Brücher Camara em 12/06/2012 na edição 698
Reproduzido da BBC Brasil, 10/6/2012; título original “Almoços com Ivan foram inesquecíveis”, intertítulo do OI

Às vezes, o Ivan Lessa dava raiva. Falava pelos cotovelos, não se vexava em repetir causos nos quais invariavelmente aparecia um “canalha” – quase sempre famoso. Lá vem uma diatribe contra Bono, Lula, Van Morrison, Obama, Jaguar… Mesmo assim – ou será que por isso mesmo? – os almoços com ele foram inesquecíveis.

Via Ivan, vi um mundo que acabou antes ter nascido. Um Rio que dava de dez naquele que eu, dez anos antes, deixara para trás. Aquele das marchinhas de carnaval – olha lá o Ivan cantando “Será que ele é bossa nova?/ Será que ele é Maomé?”, debochando destes delicados tempos pós-11 de setembro a partir da letra inocentemente profana…

Ou o do Botafogo de Garrincha, Heleno de Freitas e outros craques pré-televisivos. Ou da bossa nova – olha lá o Ivan batendo papo com Tom Jobim no Esplanada ou enchendo a cara no Beco das Garrafas…

Às vezes, o Ivan Lessa dava aulas. Entre garfadas de “fish and chips” ensinava literatura, música, cinema, quadrinhos. Com ele aprendi quem era Billy Eckstine – não sem antes ter sido devidamente esculhambado por tê-lo ignorado até então (“e você ainda vem me dizer que gosta de cantores negros?”).

Mas o mestre Ivan perdoava a ignorância dos pupilos e no almoço seguinte estava disposto a compartir seu conhecimento novamente – e ainda separava para mim parte do curry que “certamente” estaria “terrrrrível”.

Viagem no tempo

Ivan era o que antes de existir Google e Wikipédia chamavam de enciclopédia ambulante. Mas era melhor que qualquer versão virtual ou encadernada por um motivo simples: era engraçado. Era teatral. Do seu seu erre rolado – no melhor estilo de locução radiofônica dos anos 50 – aos gestos dramáticos, passando pela farta e precisa (normalmente para xingar) adjetivação. Mas era a sua enorme cultura que lhe permitia as associações e sátiras bem-humoradas que o fizeram famoso desde os tempos de Pasquim.

Às vezes, o Ivan Lessa dava foras. Homéricos. Despropositados. E deixava metade da sobremesa intocada (o guaraná, sempre acabava). Depois, almoçava sozinho por uns dias. Descia cedo, sem avisar a ninguém.

Agora, me dá raiva pensar nestes almoços em que desperdicei a companhia dele. Cada causo repetido era uma viagem no tempo. Cada diatribe, uma opinião inteligente e diferente da tal burra unanimidade.

O Ivan Lessa dará saudades, sempre.

***

[Eric Brücher Camara, da BBC Brasil]

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