Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > IVAN LESSA (1935-2012)

Aquilo que escapa, a amizade

Por Rodrigo Naves em 12/06/2012 na edição 698
Eles Foram para Petrópolis, de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti, 264 pp., Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2009 # reproduzido do Estado de S.Paulo, 25/4/2009; intertítulos do OI

Eles Foram para Petrópolisreúne a correspondência trocada profissionalmente pelos jornalistas e escritores Ivan Lessa e Mario Sergio Conti, entre abril de 2000 e abril de 2001, em um importante site brasileiro, o UOL. Também as mensagens não veiculadas pela internet, a parte propriamente pessoal das cartas, estão no livro. Lê-lo assemelha-se a espiar a conversa de dois velhos amigos sobre questões que interessam a ambos: cinema, música, poesia, política, as mazelas brasileiras, cidades do mundo, viagens, esportes.

E o afeto que permeia a correspondência dá aos textos uma dimensão lírica e evocativa, como se a amizade que une os dois escritores se transpusesse para sua relação com o mundo, que assim passa a ser visto através de um filtro que o transforma em experiência. Tomemos o mar como exemplo. Ivan Lessa: “Eu chegava de manhã na janela do décimo andar da Avenida Atlântica, entre Bolívar e Barão de Ipanema, e lá estava o outono diante de mim: aquele marzão todo! Areia, onda, barraquinha, moça coxuda, medicine ball, linha de passe, carrocinha da Kibon, Packard, Studebaker e um ônibus chamado Camões.” Mario Sergio Conti: “Sentei na amurada. Casais de namorados, pequenas palmeiras, silêncio. Contemplei o Rio no lusco-fusco. Uma tênue neblina se levantava da areia. Lembrei de uma frase não sei de quem: a tarde cai, é mais um dia que se vai, que se esvai, em nada, nada mais.”

Momento tocante

Desnecessário dizer que os autores escrevem bem, o que torna a leitura de seus comentários sobre a vida e a cultura ainda mais tocante, não fosse essa expressão (“escrever bem”) tão ambígua, a ponto de nada significar. O fato é que, de certa forma, eles tratam as palavras com a mesma gentileza que tratam suas lembranças e um a outro. E talvez “escrever bem” se caracterize fundamentalmente por isso: pela recusa a lidar a tapa com a realidade e suas representações.

No entanto, essa relação amorosa com o mundo e com os amigos não os conduz a uma adesão incondicional à natureza aparentemente íntima de uma troca de cartas entre pessoas próximas. Ambos são cobras criadas, veteranos dos meios de comunicação e de suas manhas. Souberam por isso mesmo tirar proveito de um novo espaço que surgia, a internet, cuja instantaneidade abria a possibilidade de um novo gênero jornalístico-literário, uma nova forma de correspondência, antes confinada às publicações post mortem.

E foi a clareza sobre a espontaneidade meio artificial dessa exposição pública de um diálogo de natureza íntima que os deve ter levado a publicar num mesmo volume as mensagens realmente privadas que trocaram. Nelas, um leitor apressado poderá encontrar a negação do que as cartas prometiam: a discussão sobre pagamentos, sobre o índice de leitura de seu trabalho, sobre os temas que mais atraem o público, enfim, sobre tudo que contrariaria a generosidade desinteressada que rege a amizade.

De fato, além do que se pode aprender com a conversa de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti, acredito que a própria tentativa de escapar de uma ingenuidade – a amizade pura e simples – que agrediria o senso crítico dos autores e dos leitores, pelo fato de a correspondência ser remunerada, tem muito a ensinar.

De par com a discussão mundana sobre dinheiro e continuidade do trabalho, a correspondência não publicada se vê tomada, em momentos que fogem ao controle dos autores, por situações verdadeiramente trágicas, nas quais a amizade é chamada a se apresentar em grau máximo. Porque em meio ao tom maroto das mensagens de repente Elsie Lessa, escritora e mãe de Ivan, residente em Portugal, recebe o diagnóstico de um tumor maligno que acaba por matá-la. E então o intelectual desencantado e irônico sente nos dedos que teclam “uma porrada” que lhe esmaga o pouco que resta da alegria de viver, e que lhe assegura que “agora vou para o horror”.

Mais: num dos momentos mais tocantes do livro, Ivan e Mario Sergio ficam sabendo que o filho de um grande amigo, Diogo, nasceu com paralisia cerebral, uma tragédia que torna algo supérflua a toada irônica e inteligente das cartas, pois então nas mensagens não publicadas os autores são incapazes de manter a desenvoltura que em geral baliza seus textos.

Sem controle

O que também torna o livro notável, para além da qualidade de sua prosa e de suas análises, é justamente aquilo que escapa ao controle de dois intelectuais que deram tudo de si para evitar a construção de uma intimidade postiça, esforçando-se ao máximo para achar o ponto exato em que confidência e trabalho se contrabalançam, com o que seu livro encontraria ao mesmo tempo justificação e realismo.

E para isso também a nacionalidade dos escritores desempenhou um papel importante, por mais que ambos insistam em debochar e em criticar o Brasil. A tônica de seus reparos ao País recai sobre a nossa pouca institucionalidade: os jeitinhos, a incapacidade dos poderes em melhorar a vida de homens e mulheres, a passividade dos cidadãos, etc. Ao mesmo tempo, vira e mexe eles voltam a aspectos de nossa cultura que mantém um vínculo estreito com aquela tradição: Noel Rosa, João Gilberto, as recordações de infância do Rio de Janeiro e São Paulo, além de se tratarem de uma forma dificilmente encontrável entre, digamos, dois amigos alemães: boneca, moreno, pintassilgo, etc. E fico aqui pensando se essa vida de poucas formalidades não foi decisiva para que eles chegassem às soluções que chegaram. Como se a vida institucional rarefeita do País conduzisse a um fortalecimento das relações pessoais, que eles ironizam, mas retomam.

A amizade foi tematizada desde sempre, dos filósofos gregos a pensadores contemporâneos como Derrida, Habermas e Rorty. Essa longa tradição não poderia ser analisada numa resenha de jornal. Mas me parece revelador acentuar como, em meio a um conjunto de textos que busca se manter dentro de limites estritos, algo se instila que admiravelmente escapa ao controle de intelectuais tão ciosos do domínio de seu ofício. Ótimo. Seria possível criticar o livro pelas contradições que o perpassam. Possível e inútil. O que escapa ao controle dos autores é justamente o que mais os engrandece. Não é isso também a amizade?

***

[Rodrigo Naves, crítico de arte e escritor, é autor de, entre outros livros, O Vento e o Moinho (Companhia das Letras)]

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