Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MEMóRIA > RAY BRADBURY (1920-2012)

Futuro próximo

Por Gerald Jonas em 12/06/2012 na edição 698
Reproduzido do suplemento “Link” do Estado de S.Paulo, 11/6/2012; tradução de Augusto Calil

Ray Bradbury, mestre da ficção científica cujas evocações líricas do futuro refletiam ao mesmo tempo o otimismo e as ansiedades dos seus Estados Unidos do pós-guerra, morreu na terça feira (5/6). Tinha 91 anos.

Bradbury foi o principal autor responsável por trazer a ficção científica moderna para o gosto literário popular. Seu nome aparecia perto do topo de qualquer lista de importantes autores de ficção científica do século 20, ao lado de Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein e o polonês Stanislaw Lem. Seus livros venderam mais de oito milhões de exemplares em 36 idiomas.

Bradbury vendeu sua primeira história a uma revista antes de completar 21 anos e, quando chegou aos 30, ele já tinha criado para si uma reputação com As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles), coleção de histórias publicada em 1950.

O livro celebrava o lado romântico da viagem espacial, ao mesmo tempo condenando os abusos sociais que a tecnologia moderna tornava possíveis, e seu impacto foi imediato e duradouro. Os críticos que desmereciam a ficção científica como coisa de adolescente elogiaram as Crônicas como um conjunto de fábulas morais situadas num futuro que parecia estar ao alcance.

Bradbury não foi o primeiro autor a representar a ciência e a tecnologia como um misto de bênção e abominação. O advento da bomba atômica em 1945 fez com que muitos americanos adotassem uma posição ambivalente em relação à ciência. A mesma “super ciência” que pôs fim à Segunda Guerra parecia ameaçar a própria civilização. Os autores de ficção científica, acostumados a pensar no papel da ciência na sociedade, tinham comentários ácidos a fazer a respeito da ameaça nuclear.

Mas o público da ficção científica, publicada principalmente em revistas pulp, era minúsculo. Bradbury buscava um público maior: os leitores de revistas de tiragem maciça como Mademoiselle e The Saturday Evening Post. Estes leitores não tinham paciência para o jargão técnico dos contos de ficção científica. Assim, ele eliminou o jargão; embalou suas especulações a respeito do futuro numa mistura sedutora de coloquialismos simpáticos e metáforas poéticas.

As Crônicas Marcianas provavelmente ainda é a obra mais conhecida de Bradbury. Tornou-se uma leitura comum nos cursos do ensino médio e superior. O próprio Bradbury fazia pouco do ensino formal. Ele chegou a ponto de atribuir seu sucesso como autor ao fato de nunca ter frequentado a faculdade.

Poe e Verne

Em vez disso, Ray Bradbury lia tudo aquilo que lhe chegava às mãos, autores como Edgar Allan Poe, Júlio Verne, H. G. Wells, Edgar Rice Burroughs e Ernest Hemingway. Ele os homenageou em 1971 no ensaio autobiográfico How Instead of Being Educated in College, I Was Graduated From Libraries (Como em vez de me formar na universidade, me graduei em bibliotecas).

Ele se referia a si mesmo como “autor de ideias”, expressão à qual atribuía um significado diferente da erudição e do estudo aprofundado. “Eu me divirto com as ideias; brinco com elas”, disse ele. “Não sou uma pessoa séria, e não gosto de pessoas sérias. Não me vejo como um filósofo. Trata-se de algo insuportavelmente monótono.” E acrescentava: “Meu objetivo é entreter a mim e aos demais”.

Ele descreveu seu método criativo como uma “associação de palavras”, com frequência iniciada por um de seus versos favoritos de alguma poesia.

A paixão de Bradbury pelos livros encontrou expressão no seu romance distópico Fahrenheit 451, publicado em 1953. Mas sua principal inspiração foi a infância passada em Illinois. Ele se gabava de recordar completamente seus primeiros anos, incluindo o momento do próprio nascimento.

Os leitores não tinham motivos para duvidar. Nas suas melhores histórias e no romance autobiográfico A Cidade Fantástica (Dandelion Wine, 1957), ele deu voz às alegrias e aos medos da infância. Quanto aos protagonistas de suas histórias, por mais que se afastassem de casa, aprendiam que nunca poderiam escapar ao passado.

Raymond Douglas Bradbury nasceu no dia 22 de agosto de 1920 na pequena cidade de Waukegan, Illinois. Criança pouco atlética que sofria de pesadelos, ele se deleitava com as fábulas dos Irmãos Grimm e das histórias de L. Frank Baum a respeito de Oz. Ele descobriu as revistas de ficção científica e começou a colecionar as tiras de quadrinhos de Buck Rogers e Flash Gordon. Uma conversa com um mágico de parque de diversões chamado Mr. Eletrico que abordou a questão da imortalidade deu a Bradbury, então com 12 anos, o ímpeto de se tornar escritor.

Em 1934, a família se mudou para Los Angeles, onde Bradbury se tornou um fã dos filmes, frequentando o cinema até nove vezes por semana. Estimulado por um professor e pelos autores profissionais que conheceu na Liga da Ficção Científica, ele deu início à rotina de produzir pelo menos mil palavras por dia em sua máquina de escrever, prática que manteria por toda a vida.

Capote e Huxley

Seu primeiro grande sucesso veio em 1947 com o conto Festa de Família (Homecoming), narrada por um menino que se sente como um forasteiro numa reunião de família cheia de bruxas, vampiros e lobisomens, justamente por não ter poderes sobrenaturais. A história, escolhida por um jovem editor da Mademoiselle chamado Truman Capote, valeu a Bradbury, então com 27 anos, o Prêmio O. Henry como um dos melhores contos americanos daquele ano.

Por mais que os puristas da ficção científica se queixassem da atitude despreocupada de Bradbury diante dos fatos científicos – ele deu à sua versão fictícia de Marte uma atmosfera respirável –, o establishment literário demonstrou imenso entusiasmo. Um dos heróis pessoais de Bradbury, Aldous Huxley, o considerou um poeta.

As Crônicas Marcianas foi criado a partir de 26 contos. A narrativa engloba um período que vai de 1999 a 2026, relatando uma série de expedições a Marte e suas consequências. Os marcianos nativos, capazes de ler pensamentos, resistem aos primeiros enviados da Terra, mas acabam fracassando diante de sua tecnologia avançada conforme os humanos passam a destruir os vestígios de uma civilização antiga.

O paralelismo com o destino das culturas indígenas americanas é levado aos limites da paródia; os marcianos são finalmente extintos por uma epidemia de catapora. Quando a guerra nuclear destrói a Terra, os descendentes dos colonizadores humanos percebem que se tornaram marcianos, tendo uma segunda chance de criar uma sociedade justa.

Truffaut e Orwell

Fahrenheit 451, a denúncia de Bradbury da queima de livros numa versão futura dos EUA (o título se refere à temperatura na qual o papel pega fogo), é talvez sua narrativa de maior sucesso nos moldes de um livro. Foi adaptado para o cinema por François Truffaut em 1966. Fábula exemplar de um dito incendiário, Fahrenheit 451 foi comparado a 1984, de George Orwell.

Conforme a reputação de Bradbury cresceu, ele escreveu o roteiro para a versão de Moby Dick filmada por John Huston em 1956, alguns scripts para a série Alfred Hitchcock Presents (no Brasil, Suspense), poesias e peças de teatro.

Embora Bradbury defendesse o programa espacial como uma aventura que a humanidade não ousaria deixar de lado, ele se contentou em restringir as próprias aventuras ao domínio da imaginação. Viveu na mesma casa por mais de 50 anos, criando quatro filhas ao lado da mulher, Marguerite, que morreu em 2003. Recusou-se durante muitos anos a viajar de avião, preferindo os trens, e nunca aprendeu a dirigir.

Por mais que a vida sedentária de autor lhe parecesse agradável, ele não era um recluso. Desenvolveu certo talento para falar em público, algo que fez dele uma personalidade muito procurada para palestras. Ele falava de sua luta para reconciliar seus sentimentos ambíguos em relação à vida moderna, tema que inspirou boa parte da ficção que conquistou um público tão amplo e simpático.

E falava do futuro, descrevendo como este o atraía ao mesmo tempo que o afastava, deixando-o apreensivo e esperançoso.

***

[Gerald Jonas, do New York Times]

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