Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MEMóRIA > ALEXANDER COCKBURN (1941-2012)

Ninguém espinafrava tão bem quanto ele

Por Victor Navasky em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido de The Nation, 25/7; intertítulos do OI; tradução de Jô Amado

Uma das especialidades de Alexander Cockburn era atacar pessoas que tivessem acabado de morrer (presume-se que para que os redatores do obituário fossem honestos, mas também para ridicularizar uma convenção sentimental da grande imprensa). Ao saber de sua morte, como tributo, pensei em relacionar suas qualidades problemáticas. Mas confesso que não estou à altura de fazê-lo.

Diga-se que Alex chegava ao máximo ao atacar alguém, em especial quando você concordava com ela com respeito ao alvo. Seu estilo era engenhoso, brilhante e letal, nas tradições mais polêmicas de Ambrose Bierce e H.L. Mencken. No entanto, suas piadas mais fulminantes baseavam-se sempre em fatos, até a última coluna que escreveu para The Nation, sobre o escândalo Libor. Comentando a proposta do líder do Partido Trabalhista, Ed Miliband, de que os cinco grandes bancos fizessem uma liquidação de mil de suas filiais, Alexa escreveu: “Na cultura corrente de criminalidade raivosa no sistema bancário, não seria, com certeza, inteligente soltar mil banquinhos de meia-tigela”.

Como qualquer outro jornalista na cidade, eu lia regularmente a coluna irresistível, hilária e brilhante de Alex no Village Voice (“Press Clips”) quando, em 1984, foi anunciado que ele fora suspenso por aceitar uma bolsa de 10 mil dólares, do Instituto para Estudos Arábicos, para escrever um livro sobre a invasão do Líbano por Israel sem ter informado seu editor. Na época, pareceu-me que se Alex tivesse recebido uma bolsa do Guggenheim e não o tivesse mencionado, ninguém teria feito objeção alguma; portanto, ele estava sendo punido pelo que era um crime ideológico. Após consultar Andrew Kopkind (um velho amigo de Alex) no jornal The Nation, decidi transformar a suspensão de Alex numa partida e ofereci-lhe uma coluna no Nation. Foi assim que a coluna “Beat the Devil” – nome do livro escrito por seu pai, Claud Cockburn, que foi a base do roteiro do filme cult de John Huston (1953) – nasceu.

“Revistas que ajudaram a corromper a grande imprensa”

Adorei a ideia de que a coluna de aparecesse em The Nation porque (a) ninguém escrevia melhor do que ele; (b) em geral, ele tinha algo original a dizer: e (c) servia como uma reprimenda àqueles que condenavam The Nation por ter uma espécie de linha do Partido. Esta última virtude tornou-se ainda mais dolorosamente óbvia à medida que os anos passavam e ele escolhia como alvos, cada vez mais, redatores e editores do Nation, incluindo eu aqui, Christopher Hitchens, Eric Alterman, Katha Pollitt e Aryeh Neier (que escrevia uma coluna sobre direitos humanos); heróis da centro-esquerda liberal como Bernie Sanders; honoráveis como o vigilante de neonazistas Chip Berlet; o ativista de direitos humanos Michael Massing; meu colega da Faculdade de Jornalismo na Columbia University Todd Gitlin; e inúmeros intelectuais públicos, jornalistas e ativistas da esquerda liberal e do neo-centro que, como escrevi em meu livro A Matter of Opinion, “seria mais fácil fazer uma lista dos isentos (a começar por seu falecido pai e o resto de sua talentosa família)”, aos quais ele foi infalível e carinhosamente leal.

Entre outras coisas, Alex servia como corretor das piedades liberais do jornal. Certa vez, quando co-patrocinou uma conferência, com a University of Southern California sobre o papel do jornal de opinião, fizemos questão de convidar os editores de revistas com quem, em vários graus, discordávamos, como The American Spectator, The New Republic, The New Criterion e National Review. Eis o que Alex tinha a dizer em sua coluna na véspera da conferência:

“Satisfaz-me que os direitos destes horríveis jornais sejam garantidos pela Primeira Emenda [da Constituição], mas não penso que eles ‘mantenham a grande imprensa honesta’. Pelo contrário, estas são precisamente as revistas que ajudaram a corromper a grande imprensa e a instruíram na arte de contar mentiras. Estas revistas não ampliaram o debate, mas o estreitaram para uma reação de perdão, tanto em termos políticos quanto culturais.”

“Quem nos irá insultar tão bem quanto ele?”

Apesar de suas investidas esporádicas em questões que me parecem incontestáveis (vide suas colunas sobre o Oriente Médio e sobre o número das vítimas de Stalin), num balanço – expressão que o teria enfurecido – sinto-me orgulhoso e feliz que The Nation tenha dado a Alex seu último fórum, como nosso colunista mais antigo. E, a propósito, deve-se ressaltar que ele era generoso ao dar crédito dar crédito (e agir como mentor) aos novatos do Nation que tiveram a sorte de trabalhar com ele.

Alex, você deixou um imenso buraco no jornal – e, na verdade, para ser sentimental, em nossos corações. Como disse Elizabeth Pochoda, nossa ex-editora de Literatura: “Quem nos irá insultar tão bem quanto ele?”

***

[Victor Navasky é jornalista e professor na Universidade Columbia, foi editor do jornal The Nation de 1978 a 1995, é autor do livro Naming Names (1980), que é considerado um depoimento definitivo sobre as listas negras de Hollywood]

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