Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

MEMóRIA > ERIK IZRAELEWICZ (1954-2012)

Misterioso Izra

Por Juliana Sayuri em 04/12/2012 na edição 723
Reproduzido do suplemento “Aliás” do Estado de S.Paulo, 2/12/2012; intertítulo do OI

Erik Izraelewicz não gostava de cães. Era dessas convicções singulares que, talvez num café ou num botequim, o jornalista poderia dissertar por horas entre os seus. Mas se um dia tal monólogo filosófico aconteceu, certamente ficou nos bastidores. Diante das câmeras, o escritor comentara apenas uma vez – “desculpe, não gosto de cachorros” –, fortuitamente, no desenrolar descontraído de uma entrevista ao Le Monde. Dá para imaginar a cena: topete levemente rebelde, tez pálida, óculos embicando no nariz, gestos distintos, expressivos olhos azuis, ar confessional na voz elegante e por vezes apressada, como bom francês, misturando inquietações intelectuais sobre a política e o futuro do jornalismo com faits divers como cães e hobbies. “No tempo livre, minhas paixões são a neve, a montanha e o esqui. J’adore.” Suas outras paixões já eram mais famosas: o jornalismo e a economia.

Nascido na comuna francesa de Estrasburgo, na Alsácia, Erik Izraelewicz era um homem discreto, moderado, quase misterioso. Atraiu a imprensa internacional, porém, com notas biográficas e obituários elogiosos nessa semana, quando um enfarte agudo inesperadamente lhe beliscou o coração: Izraelewicz, de 58 anos, estava no boulevard Auguste-Blanqui, no 13º arrondissement de Paris, na noite de 27 de novembro. Sentava na mesma cadeira, na mesma mesa repleta de livros e jornais, na mesma sala em que passava horas a fio na labuta diária. Morreu no próprio bureau, na redação do Le Monde, que dirigia desde fevereiro de 2011.

Políticos, jornalistas e intelectuais lamentaram mundo afora a morte de Erik Izraelewicz – “Erik” para uns, “Izra” para outros. “Erik era um companheiro extremamente caloroso, mas reservado e tímido”, conta ao Aliás o jornalista e médico Franck Nouchi, que tentou socorrer o amigo na redação na bendita terça (inconsciente e sem pulso, o diretor ainda foi levado ao Hospital Pitié-Salpêtrière). “Nós nos encontramos pela primeira vez no antigo endereço do Le Monde, na Rue des Italiens, nos arredores de L’Opéra. Lembro-me de seus paletós de tweed e de seus óculos redondos. Desde aqueles tempos, isso lhe dava um ar diferente, mais um intelectual que um jornalista”, recorda.

Sem despedida

Bacharel em economia aos 22 anos, diplomado em jornalismo aos 24, Ph.D. em economia internacional aos 25, Izraelewicz debutou na imprensa francesa em 1981. Passou por L’Usine Nouvelle, L’Expansion e La Tribune até estrear no Le Monde, em 1986. Foi correspondente do jornal em Nova York, entre 1993 e 2000, quando retornou à França para assumir as rédeas do Les Echos, como redator, editor e finalmente diretor.

No fim de 2007, porém, posições fortes deram uma guinada na trajetória do jornalista: “Izraelewicz se opôs à aquisição do jornal pelo milionário Bernard Arnault, o homem mais rico da França”, conta o historiador Patrick Eveno, da Sorbonne, autor de Histoire de la Presse Française (2012) e Histoire du Journal ‘Le Monde’ (2004). Na época, Izraelewicz não quis se curvar a Arnault, o poderoso chefão do luxuoso conglomerado LVMH, pois temia que isso comprometesse a independência editorial do periódico. Peitou Arnault, mas perdeu a batalha – no fim, saiu do jornal (ressalva seja feita: o editor perdeu a batalha, mas conquistou respeito entre jornalistas dentro e fora da redação do Les Echos por essa resistência).

De volta ao mercado, Izraelewicz dirigiu as páginas de La Tribune entre 2008 e 2010, até retornar ao Le Monde, no ano passado. “Depois de uma longa jornada, Erik voltou para casa. E estávamos muito felizes de tê-lo de volta”, lembra Franck Nouchi. À frente do jornal, fundou a revista M e tentou aproximar as versões impressa e digital da tradicional gazeta francesa. Paralelamente ao jornalismo, apostou fichas nas rodas intelectuais, com publicações como Ce Monde qui nous Attend (1997), Le Capitalisme Zinzin (1999) e L’Arrogance Chinoise (2011).

Nos últimos dias, a trilha profissional de Erik Izraelewicz foi revisitada, revirada, reeditada diversas vezes, pontilhada com suas principais conquistas. Sua trajetória pessoal, por outro lado, continua nos bastidores. Um mistério, dizem os amigos. “Mesmo se nos reuníssemos em cinco ou em dez para descrever quem era esse homem, todos nós diríamos a mesma coisa: Izra era um segredo”, escreveu a antiga editora Sophie Gherardi, com Serge Marti, Marie-Beatrice Baudet e Francoise Fressoz. “De sua vida pessoal, sabemos só fragmentos.” Amava a família, as irmãs e os irmãos, os sobrinhos, mas detalhes outros eram mantidos a sete chaves. Tinha filhos? Vivia só? Já tinha o coração fragilizado há tempos? Tímido e modesto diante dos companheiros de letras e de cafés, Izra nitidamente preferia questionar mais e responder menos. Não mostrava suas cartas.

Diferentemente de outras despedidas jornalísticas ilustres deste ano – como Arthur Sulzberger, do New York Times, aos 86, e Helen Brown, da Cosmopolitan, aos 90 –, Erik Izraelewicz ainda estava na casa dos 50. Foi sem dizer adeus. Talvez por isso, amigos antigos e jornalistas ainda estejam perdidos sem a sua presença no boulevard Auguste-Blanqui. Por enquanto, Alain Frachon assume a direção do Le Monde, que aos poucos tenta se acostumar com um mundo sem Izra.

***

[Juliana Sayuri, do Estado de S.Paulo]

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