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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MEMóRIA > HERNÂNI DONATO (1922-2012)

Pode a plástica de uma baranga valer mais que um grande escritor?

Por Marcos Caldeira em 18/12/2012 na edição 725
Reproduzido de de O TREM Itabirano nº 88, dezembro/2012

Não causa mais espanto, por efeito de tanta repetição, o fato de o jornalismo brasileiro ignorar o trabalho cultural sério e o talento, que engrandecem o país, e perder com besteiras tela, tinta, papel, tempo e palavras. A futilidade é muito forte, incentivada pelos beneficiários econômicos do ramo, mas não pode ser capaz de anular o ímpeto de indignação em quem deseja um Brasil não-idiotizado.

Passou quase em silêncio no jornalismo brasileiro a morte em novembro, aos 90 anos, de Hernâni Donato, dos maiores escritores do país, autor do romance Selva Trágica, entre outras grandes obras. No dia da perda e seguintes, procurei notícias nos maiores jornais, portais e emissoras de TV. Encontrei silêncio e, nos raros órgãos em que o autor foi lembrado, notinha curtinha de cantinho.

Liguei a televisão – homens e mulheres discutiam o novo nariz, após cirurgia plástica, de Geisy Arruda, tal que ficou famosa por ter ido à escola com vestido curto. Peguei jornal de São Paulo – página inteira sobre um livro besta escrito por estadunidense. Acessei um dos maiores portais internéticos e vi títulos assim: “Ator da Globo bebe suco na praia”.

Hernâni Donato era paulista, pertencia à Academia Paulista de Letras, presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, morava em São Paulo e morreu em São Paulo. Repetindo: São Paulo. Mesmo assim, o jornalismo o tratou com indiferença. Imagine os bons escritores lá nos latifúndios do Acre, interior de Goiás, Rio Grande do Norte…

Escrevi nota na internet resumindo meu repúdio e recebi dezenas de e-mails de importantes escritores, compositores, poetas e jornalistas, de vários estados. Decidi publicar alguns, rodantes nos mesmos trilhos de indignação. Sei, é quebra do segredo epistolar, mas os missivistas hão de me perdoar. Erro maior eu cometeria se não fizesse chegar ao leitorado o que se segue.

>> De Aldir Blanc, compositor e escritor: “Marcos, você está coberto de razão. Recentemente, conversei com o jornalista Arthur Dapieve sobre a mediocrização do país. Um bobalhão como Sérgio Mallandro tem programa semanal no canal Multishow e também ‘julga’ jovens humoristas. Triste. Se houvesse alguém no MinC, Hernâni Donato receberia a merecida homenagem póstuma, com Selva Trágica distribuída pelo país. Abraço solidário – e que se foda o nariz novo de Geisy Arruda”.

>> Também de Aldir Blanc: “Daí a enorme importância do nosso amado TREM, Marcos! Piuí!!! Eu participava de um júri do JB que, se aproveitando das férias do Tárik de Souza, encheu o segundo CD do Guinga de bolas pretas, o equivalente a tirar zero em composição. Me demiti do júri assim que li. Hoje, Guinga é chamado internacionalmente de seguidor do Heitor Villa-Lobos”.

>> De Teócrito Abritta, cronista e físico: “A morte de Hernâni Donato é uma grande perda. Nossa cultura ficou um pouco mais pobre. A indiferença da imprensa, em geral, lembra-nos do conto ‘O Espartilho’, de Lygia Fagundes Telles, no qual a patroa passa a trancar uma estante onde ficavam os dicionários e livros, preocupada com a mania da empregada de consultar o ‘pai dos burros’, dizendo: ‘Essa menina já está parecendo uma intelectual. Quanto mais souber, mais infeliz será’”.

>> De Napoleão Valadares, cronista, contista e romancista: “É verdade. O autor de Chão Bruto, além de excelente romancista, era simples e simpático. Há uns 30 anos, mantive correspondência com ele, que me deu muito prazer. Sentimos. É isso”.

>> De Hermínio Prates, jornalista e escritor: “Outro dia, morreu o januarense Alcione Araújo, escritor e teatrólogo, autor de Nem Todo Oceano, livro bom de ler. E a mídia, o que fez? Preferiu divulgar que a fulaninha da novela foi vista numa casa noturna com o fulaninho. Para eles, mais importante que destacar o adeus a um intelectual morto é divulgar que a tal Geisy Arruda mandou fazer cirurgia entre as pernas. Com tristeza”.

>> De Roniwalter Jatobá, jornalista, contista, cronista e romancista: “Isso é o Brasil. Isso é a imprensa brasileira. Pena”.

>> De Joaquim Branco, poeta, jornalista e professor: “Fiquei triste com a morte do Hernâni Donato”.

>> De Ronaldo Werneck, escritor, poeta e compositor: “Caro Marcos, tem hora que a gente tem mesmo que ‘imprensar a imprensa’. Affonso Ávila, um dos maiores poetas brasileiros, também morreu há pouco tempo em BH, mas os jornais pouco ou quase nada falaram sobre ele. Não dá mesmo pra gente curtir o curto jornalismo que anda pelaí”.

>> De Jota Dangelo, ator e diretor teatral: “De acordo com você. Conheço o livro do Hernâni, referência na área. Perda lamentável”.

>> De Daniel Mazza Matos, poeta e médico: “Aconteceu algo semelhante com Bruno Tolentino, que pouco foi lembrado quando morreu! Trata-se do Brasil, isso diz tudo”.

>> De Ivan Marcos Gonzaga, jornalista: “Caríssimo e competente colega, compartilho com seu pensamento sobre o passamento no anonimato de mais um ilustre escritor e, por igual, lastimo as notícias fúteis em detrimento de fatos importantes. Mas o que se pode fazer se muitas redações do nosso país vivem ou sobrevivem apenas dos apoios publicitários, e nossos colegas são apenas empregados desses mesmos órgãos que se dizem noticiosos?”

>> De Antônio Torres, romancista, contista e cronista: “Isso é triste, caro Marcos. Fui amigo de um irmão dele, o Marcos Rey, ou seja, Edmundo Donato”.

>> De Rui Mourão, romancista, ensaísta e diretor do Museu da Inconfidência, de Ouro Preto: “Marcos, realmente, é lamentável o que ocorre com a grande imprensa no Brasil. Mas existem pessoas como você, que sabe usar o meio de comunicação de que dispõe”.

>> De Raquel Naveira, poeta, professora e apresentadora de televisão: “Concordo plenamente, Marcos, com sua indignação. É inacreditável o desprezo da imprensa pelos nossos grandes escritores. E o nível de certos cadernos literários é péssimo e de mau gosto. Hernâni Donato fazia parte também da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, justamente pelo Selva Trágica, ambientado na fronteira de nosso Estado, retratando o drama dos ervateiros. Intelectual generoso, historiador brilhante, romancista, humanista, homem bom e amigo. Vai fazer muita falta”.

>> De Waldir Ribeiro do Val, poeta e ensaísta: “Lamento também a morte do escritor Hernâni Donato, e a indiferença da chamada grande imprensa, mais interessada em escândalos e assuntos que dão ‘ibope’. Era admirável como escritor e animador cultural”.

>> De Zé Roberto Graúna, cartunista: “Não entendo o que acontece com a imprensa brasileira. Não sou contra as informações sobre celebridades criadas pela mídia. Sempre tivemos espaço para todos os tipos de bobagens, basta ler edições antigas de revistas como Radiolândia, Revista do Rádio, Amiga e outras, mas em outros tempos, pelo menos, a imprensa não deixava passar os fatos realmente importantes de nossa cultura. A formação de parte de nossos jornalistas é que não deve ser mesmo das melhores. Conheço jovens jornalistas que não sentem o menor constrangimento ao afirmar que nunca leram um livro. Paciência… Tive a mesma sensação que você, Marcos, quando o desenhista Aylton Thomaz faleceu”.

>> De Evaldo Balbino, escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais: “Meu caro, o fato de o jornalismo não cobrir um fato como esse, no Brasil, não me espanta. De longa data, os brasileiros e a mídia brasileira não ‘olham’ como deveriam para a cultura e para a literatura”.

>> De Luis Avelima, poeta, compositor e jornalista: “Apoiado. Este país não é sério. Estive no velório de Hernâni Donato. Tristeza. Era, além de bom escritor, um ser humano maravilhoso”.

De Carlos Trigueiro, poeta, contista e cronista: “Mais um bom escritor que partiu. O site G1 da Globo deu pequena notícia, foi só o que li a respeito do óbito. Quanto ao jornalismo prestigiar escritores, só mesmo exceções como O TREM Itabirano e outros pouquíssimos”.

***

[Marcos Caldeira é jornalista, editor de O TREM Itabirano]

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