Cineasta é assassinado no Rio | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

Cineasta é assassinado no Rio

Por Luiz Ernesto Magalhães em 04/02/2014 na edição 784

Reproduzido do Globo.com, 2/2/2014; título original “Cineasta Eduardo Coutinho é assassinado no Rio”

O cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi morto neste domingo, em seu apartamento no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio. O delegado Rivaldo Barbosa, titular da Divisão de Homicídios, confirmou que um dos filhos de Eduardo, Daniel Coutinho, de 41 anos, foi o responsável pelo crime. Daniel, que sofre de esquizofrenia, tentou também matar a mãe e se matar. Ferido, ele está sob custódia numa das enfermarias do Hospital Miguel Couto e será encaminhado para a prisão quando se recuperar.

O velório de Eduardo Coutinho será realizado na Capela 3 do Cemitério São João Batista, em Botafogo, a partir das 10h. O enterro está marcado para 16h.

Detalhes da tragédia

Quando os bombeiros chegaram, por volta das 9h, o cineasta já estava morto. Daniel foi encontrado ferido com duas facadas no abdômen. A mulher do cineasta e mãe de Daniel, Maria das Dores de Oliveira Coutinho, também estava ferida – ela levou duas facadas na altura dos seios e três no abdômen, sendo que uma delas provocou lesões no fígado.

Segundo informações da Secretaria municipal de Saúde (SMS), mãe e filho foram operados no Hospital Miguel Couto (Gávea), onde permanecem internados. O quadro clínico de Daniel era considerado estável, mas Maria das Dores está em estado grave, de acordo com as informações divulgadas até o começo da noite.

Na coletiva de imprensa realizada às 19h deste domingo, o delegado Rivaldo Barbosa afirmou que Maria das Dores só conseguiu se salvar porque se desvencilhou do filho e correu para o banheiro, onde se trancou. Segundo os vizinhos, Eduardo Coutinho chegou a interfonar para o porteiro para pedir ajuda, mas Daniel atendeu a porta e disse que estava tudo bem. Depois de cometer o assassinato, ele teria batido na porta de um vizinho e teria dito que “libertou o pai”. (Leia a cobertura da coletiva de imprensa aqui).

Uma ex-vizinha de Eduardo Coutinho, que pediu para não ser identificada, descreveu Daniel Coutinho como uma pessoa muito fechada:

– A gente suspeitava que ele tivesse algum problema mental. Ele entrava e saia sem cumprimentar ninguém. E volta e meia soltava gritos no apartamento.

Uma vida dedicada aos documentários

Nascido em São Paulo em 11 de maio de 1933, Coutinho era considerado um dos maiores documentaristas do Brasil. Entre seus filmes de maior sucesso estão “Cabra Marcado para Morrer”, “Edifício Master”, “Jogo de Cena” e “Babilônia 2000”. Em 2007, o cineasta foi premiado com o Kikito de Cristal, no Festival de Gramado, pelo conjunto de sua obra.

Seu amor pelo cinema começou nos anos 1950, quando se começou a se interessar por roteiro. Após abandonar a faculdade de Direito, ele foi para Paris estudar Cinema. Voltou ao Brasil em 1960. Dois anos depois, em viagem com caravana da UNE, conhece a viúva do líder camponês João Pedro Teixeira. Dois anos depois, filmou “Cabra Marcado para Morrer”, sobre a vida de Teixeira, que acaba sendo interrompido pelo Golpe Militar. O projeto só seria retomado em 1981, quando ele reencontra a família de Teixeira, volta a filmá-los e lança, em 1984, o filme completo.

Em 1971, ele acabou se afastando do cinema para trabalhar como redator e crítico no “Jornal do Brasil”. Cinco anos depois, assinou o roteiro de “Dona Flor e seus dois maridos”, recorde de bilheteria nacional na época. A partir daí, nunca mais abandona o trabalho com a produção audiovisual. Em 1975 foi trabalhar na TV Globo, em uma equipe que marcou o programa “Globo Repórter”. Lá, abriu caminho para o estilo de documentário que viria marcar sua carreira, sempre preocupado em mostrar as peculiaridades e as complexidades do ser humano.

Já premiado por “Santo Forte” e “Babilônia 2000”, dirige “Edifício Master” e “Peões”. “Jogo de Cena”, de 2007, foi descrito pelo crítico JC Bernardet como “um movimento sísmico de 7 graus no cinema documental”.

Em junho passado, Coutinho foi convidado, junto com José Padilha, a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela premiação do Oscar.

Veja os filmes de Eduardo Coutinho, por ordem cronológica:

– “O Pacto” (Episódio do longa “ABC do Amor”) (1966)

– “O Homem que comprou o mundo” (1968)

– “Faustão” (1971)

– “Cabra marcado para morrer” (1985)

– “Santa Marta – Duas Semanas no Morro” (1987)

– “Volta Redonda – Memorial da Greve” (1989)

– “O Fio da Memória” (1991)

– “A Lei e a Vida” (1992)

– “Boca de Lixo” (1993)

– “Os Romeiros do Padre Cícero” (1994)

– “Seis Histórias” (1995)

– “Mulheres no Front” (1996)

– “Santo Forte” (1999)

– “Babilônia 2000” (2000)

– “Porrada” (2000)

– “Edifício Master” (2002)

– “Peões” (2004)

– “O Fim e o Princípio” (2005)

– “Jogo de Cena” (2007)

– “Moscou” (2009)

– “Um Dia na Vida” (2010)

– “As Canções” (2011)

***

Eduardo Coutinho interfonou pedindo ajuda e mulher só se salvou porque fugiu para o banheiro

Luiz Ernesto Magalhães e Mauricio Peixoto

O delegado titular da Divisão de Homicídios (DH), Rivaldo Barbosa, contou que a mulher do cineasta Eduardo Coutinho, Maria das Dores, só se salvou porque conseguiu se desvencilhar do filho e correr para o banheiro, onde se trancou. O documentarista foi morto na manhã deste domingo, a facadas, em seu apartamento na Lagoa, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O responsável pelo assassinato foi Daniel, seu filho de 41 anos, que sofre de esquizofrenia.

Em entrevista coletiva, Rivaldo disse que, após esfaquear o pai e tentar matar a mãe, Daniel saiu do apartamento e bateu na porta de vizinhos, ensanguentado e falando palavras desconexas.

– Ele disse aos vizinhos, muito nervoso: ‘Eu libertei meu pai, tentei libertar a minha mãe e não consegui. E também tentei me libertar com duas facadas no abdômen, mas não consegui’.

Segundo o delegado, um vizinho foi até a porta da sala do apartamento, que estava aberta, e viu o corpo do cineasta caído e ensanguentado. Teria sido ele quem ligou para os bombeiros para pedir ajuda.

Rivaldo Barbosa afirmou que a rapidez na chegada dos bombeiros ao apartamento foi crucial para a sobrevivência da mulher de Eduardo Coutinho. Na chegada dos profissionais, Daniel não esboçou qualquer reação.

O ataque aconteceu por volta de 11h. O casal foi atacado pelo filho com uma faca grande usada em churrascos. O delegado informou que somente nesta segunda-feira, com o resultado da perícia de local e dos exames em Daniel, a polícia poderá saber o que aconteceu, se ele estava drogado, a que horas ele chegou, como ele chegou, se houve briga. Quatro vizinhos já foram ouvidos. Eles disseram que escutaram muitos gritos vindos do apartamento.

Cineasta interfonou pedindo ajuda

Segundo relato de um morador do prédio, que preferiu não se identificar, para o GLOBO, na manhã deste domingo o porteiro do prédio recebeu uma ligação por interfone do cineasta, pedindo socorro. O porteiro foi até o apartamento, Daniel abriu a porta e disse que estava tudo sob controle.

Cerca de meia hora depois, o próprio Daniel tocou a campainha do apartamento de outro vizinho pedindo ajuda. Ele estava ensanguentado.

– Esse vizinho chamou as ambulâncias, mas Coutinho já estava morto, caído na sala. A esposa do cineasta estava escondida em um cômodo. Havia alguns sinais de luta no apartamento. O fio de um dos telefones estava arrancado – relatou esse morador.

***

Amigos e admiradores lamentam morte de Eduardo Coutinho

 

O assassinato de Eduardo Coutinho deixou admiradores, amigos, cineastas e colaboradores em choque. Grandes nomes do cinema brasileiro, como Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos e Silvio Tendler se manifestaram com pesar e homenagearam o amigo, considerado um dos maiores documentaristas do país.

O crítico Carlos Alberto Mattos esteve com o diretor há três dias, durante a gravação do seu depoimento para os extras do DVD de “Cabra marcado para morrer”, que será lançado pelo Instituto Moreira Salles ainda este ano. O filme, sobre as histórias em torno do assassinato de um líder camponês na Paraíba, começou a ser realizado por Coutinho no início da década de 1960, mas retomado quase 20 anos depois e foi lançado em 1984.

– Ele estava frágil fisicamente, mas de muito bom humor, brincando e falando bastante. Nos comentários para o DVD, ele falou bastante sobre a época da ditadura e das torturas do governo militar. E ele também lembrou das tragédias pelas quais a família da Dona Elizabeth (viúva do camponês assassinado de “O Cabra…) passou – diz Mattos, para quem o filme “sintetiza todos os ideais de um documentário no Brasil, que é trabalhar a história do país, a intimidade das pessoas e o cinema, tudo numa amálgama só”. – Um fato que ele fez questão de tratar foi em relação à história de um filho que matou o irmão. Ele estava muito interessado em sublinhar essa tragédia, é como se alguma coisa sensorial estivesse antecipando a tragédia que iria acontecer.

O crítico cinematográfico José Carlos Avellar, que também esteve com Coutinho na quinta-feira, gravando a faixa comentada do DVD, relembra:

– Nos conhecemos desde a época do “Cabra”. Ele foi redator no Jornal do Brasil na época em que eu era crítico. Ele se renovou muito. Depois de ter feito um filme fundamental para o cinema, o “Cabra Marcado para Morrer”, ele se renovou com o “O fio da memória”, mais uma vez com o “Santo forte”, e depois com o “Edifício Master”. Ele tinha uma relação de pessoa com pessoa, um exemplo de tratamento que influenciou não só o documentário brasileiro, como de vários países. Por exemplo, no “As canções”, há um momento em que um personagem chora. Não vemos o choro. Só ouvimos, e depois vemos o homem indo embora. O Coutinho resolveu não expô-lo, porque não era o que buscava. Ele ficava parado, esperando até a pessoa começar a falar. Não é preciso contar nenhuma história por trás da filmagem para ver que existia uma confiança recíproca. Nos filmes dele, o que interessa é o outro, a pessoa que está sendo filmada. Essa generosidade do Coutinho é única.

O diretor Nelson Pereira dos Santos vê Eduardo Coutinho como “um caso único na história do cinema brasileiro e no cinema do presente”.

– É uma produção magnífica, muito própria do Coutinho e criada por ele. Ele não era filiado a nenhuma escola. Ele criou o cinema Eduardo Coutinho. É uma pena, essa perda tem uma dimensão enorme. Não dá nem para fazer considerações teóricas sobre a produção dele.

Para o diretor Cacá Diegues, que conheceu Coutinho no CPC da UNE em 1962, quando produziu com ele o filme “Cinco vezes favela”, ele era “o maior documentarista que o Brasil já teve”.

– Ele já tinha uma certa idade, mas se renovava sempre. Estou chocado, pois ele era uma pessoa absolutamente calma e tranquila. É uma perda muito grande para o cinema brasileiro.

O documentarista Silvio Tendler ressalta outras qualidades em Coutinho:

– Seus filmes e suas lições de vida irão permanecer. Antes de ser documentarista, ele foi um grande roteirista, como por exemplo do “Dona Flor e seus dois maridos”, de 1976. Sem sombra de dúvidas, foi um dos grandes cineastas que esse Brasil teve. Vai deixar uma grande saudade e lacuna. A violência com que ele morreu é o que me deixa mais chocado.

Produtor de “Dona Flor”, Luiz Carlos Barreto ficou abalado com a morte do amigo de mais de 50 anos.

– Ele frequentava muito minha casa e discutimos ideias do Cinema Novo. Essa foi uma perda muito grande para o cinema de documentário, não apenas do Brasil mas do mundo. Foi um choque muito grande, ele não merecia esse fim

Assistente de Eduardo Coutinho em “Santa Marta, duas semanas no morro” (1985), o diretor Sergio Goldenberg é um dos que mais se emocionaram com a morte do documentarista.

– Trabalhei todos os dias, horas a fio, em ilhas de edição e filmagens como colaborador do Coutinho. Ele foi meu primeiro chefe. Vida longa à suas idéias e aos seus filmes. Obrigado, Coutinho, pela honestidade, pela coragem como artista e por tudo que me ensinou, possivelmente sem perceber.

Miguel Conde, curador da Festa Literária de Paraty (Flip) em 2013, quando Coutinho foi um dos participantes, guarda boas memórias:

– O Coutinho tinha aquela fama de ranzinza, mas ele era uma pessoa com um senso de humor muito divertido, muito irônico. Nós já tentávamos levar ele à Flip há algum tempo, tentando convencê-lo. Demorou um pouco, porque ele falava que não tinha nada para dizer. Ele não gostava desse papel de comentar os próprios filmes. No dia, ele deu uma entrevista brilhante para o (diretor de cinema Eduardo) Escorel. Ele tinha uma fala não ensaiada, com observações super inteligentes. Ele era cheio dessas brincadeiras. Antes de entrar, ele perguntou se podia falar palavrão à vontade. Eu disse que claro.

Para o documentarista Renato Terra, de “Uma noite em 67” e “Fla-Flu”, Coutinho era a maior referência para os estudantes de audiovisual:

– O Coutinho é a primeira referência para todo jovem que topa com documentário brasileiro. Elevou o documentário a algo que os jovens aspiram fazer. Criou uma assinatura, uma maneira de fazer filmes, que inspira e motiva as novas gerações a buscarem novas linguagens.

Leia também

Cabra marcado para viver – Alberto Dines

******

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem