Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

O cineasta que documentava as pessoas comuns

Por Talita Bedinelli e Francho Barón

Reproduzido do El País Brasil, 2/2/2014; título original “Morre Coutinho, o cineasta que documentava as pessoas comuns”, intertítulo do OI

 

Um dos documentaristas mais importantes do Brasil, Eduardo de Oliveira Coutinho foi morto a facadas na manhã deste domingo [2/2] em sua casa, no bairro da Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, aos 80 anos.

A suspeita inicial da polícia civil é que seu filho, Daniel Coutinho, de 41 anos, que sofre de esquizofrenia, tenha sido o autor das facadas. Ele também teria atacado sua mãe, Maria Oliveira Coutinho, 62, que está internada no hospital Miguel Couto em estado grave, após ter recebido cinco facadas. A polícia acredita que o filho tenha tentado se matar após as agressões. Ele também está hospitalizado com ferimentos na região do abdome, no mesmo centro médico que sua mãe. Quando os bombeiros chegaram às 9h na residência da família, Eduardo Coutinho já havia falecido.

O Instituto Médico Legal (IML) confirmou que o corpo do cineasta deu entrada às 14h40, mas a necropsia ainda não havia sido realizada.

Coutinho trabalhou como jornalista no Jornal do Brasil, onde chegou a escrever críticas de cinema. Depois, atuou como repórter da TV Globo, no programa Globo Repórter, que tem um formato mais documental. Lá, produziu uma de suas mais famosas reportagens, Teodorico, o imperador do Sertão, de 1978, que por meio da história do coronel Teodorico Bezerra retratava o coronelismo brasileiro.

Fumante inveterado

Enquanto trabalhava na Globo, ele conseguiu concluir um de seus principais filmes, o documentário Cabra Marcado para Morrer, que conta a história de João Pedro Teixeira, um líder camponês assassinado em 1962 pelas suas lutas sociais no campo. As filmagens, que haviam sido interrompidas pelo golpe militar de 1964, foram retomadas em 1981, quando ele conseguiu recuperar os negativos da filmagem que haviam sido escondidos pelo governo. Ele localizou, então, a mulher de Teixeira e narrou o que havia acontecido com a família entre o início das filmagens e a retomada. O documentário recebeu o prêmio da crítica internacional do Festival de Berlim, em 1985, além do prêmio do Festival do Novo Cinema Latino-americano de Cuba, em 1984.

Outros de seus principais filmes são Edifício Máster (2002) e Jogo de Cena (2007). Em 2007, ele recebeu a principal premiação do cinema brasileiro, um Kikito de Cristal, pela importância de sua obra, no festival de Gramado.

A busca por anônimos era mesmo o grande prazer de Eduardo Coutinho. “Eles são os bons personagens, que contas as histórias verdadeiras”, costumava dizer. Se eram totalmente verdadeiras, nem ele questionava. O fato é que se tornavam verídicas ali em frente à camera. Num país de 190 milhões de pessoas, sua preferência era por captar a realidade de pessoas do Norte, do Nordeste, das favelas do Rio de Janeiro, e até dos lixões, onde os personagens muitas vezes não são só anônimos, como muitas vezes invisíveis.

Fumante inveterado, celebrou para uma fã que estava reduzindo o cigarro – agora eram só três maços diários. Ficava mal humorado em compromissos muito longos que não lhe permitissem atender ao vício pelo tabaco. Mas, num recente encontro com estudantes da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, nem sentiu o tempo passar, quando viu o auditório lotado de estudantes, querendo conhecer mais sobre este diretor cult.

No ano passado recebeu muitas demonstrações de reconhecimento pela sua obra. Foi homenageado na Mostra Internacional de Cinema, realizada todos os anos em São Paulo, e também foi um dos integrantes da Feira Literatura internacional de Parati (Flip), no Estado do Rio de Janeiro. Também foi tema do livro Eduardo Coutinho, de quase 700 páginas, da editor Cosac Naify, que reuniu ensaios, entrevistas e críticas escritas por ele. “Coutinho estava envolvido em um projeto que seria apresentado este ano, mas não dava detalhes, pois era supersticioso, e não gostava de contar nada antes que estivesse pronto”, lembra Nathalie Hornhardt, mestranda que escreve uma dissertação sobre um dos seus documentários, Santo Forte, que trata sobre a religiosidade dos anônimos. Ele mesmo não se julgava um religioso. Mas, se dizia um materialista que acreditava na magia.

Bem disposto, apesar do vício e da idade, tinha espaço para o bom humor. Questionado durante a Flip se não deveria parar de fumar, ele respondeu: “Fumar ajuda a pensar. Fumar é um troço budista: tem que aceitar”. Concluiu seu pensamento de uma maneira realista. “Eu torço para ser imortal, mas não contribuo para ser imortal”. (Com informações de Frederico Rosas e Marina Rossi)

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Talita Bedinelli e Francho Barón, do El País

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