Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

Daniel Coutinho e seu gesto trágico

Por Claudia Corbisier em 11/02/2014 na edição 785

Eduardo Coutinho, nosso genial cineasta, morto a facadas pelo filho Daniel no dia 2 de fevereiro de 2014, no apartamento onde moravam juntos, na zona sul do Rio de Janeiro. Choque. Perplexidade geral. Muitas perguntas. Como um filho pode matar o próprio pai?

Para que possamos digerir esta tragédia, proponho algumas reflexões psicanalíticas, baseadas na clínica winnicotiana acerca do pouco, mas muito significativo testemunho da tragédia, pelo próprio autor.

“Libertei meu pai, tentei libertar minha mãe e me libertar” palavras nada desconexas pra quem conhece o obscuro universo da psicose. Foi certamente imerso nesse pântano trágico que o filho de Coutinho o esfaqueou até a morte. Depois esfaqueou a mãe nos seios e na barriga. E esfaqueou a si próprio, tentando finalizar a tragédia começada. 

Muito provavelmente, Daniel encenou na realidade algo de sua história com seus pais. Algo que ele não pôde dar sentido. Algo que, na lógica de sua experiência como filho, não pôde ser representado psiquicamente. Não pôde ser posto em palavras. 

Viver o momento

Coutinho, na convivência, não mencionava sua família. Nem mulher, nem filhos. Reserva, discrição, pode ser. Agora diante do que seu filho Daniel expôs ao mundo, sabemos que havia um não-dito. Um “não podia ser dito”. 

Aos olhos da lei é um crime hediondo. Mas é importante, por mais que as consequências sejam as mesmas, diferenciar este crime daqueles cometidos por psicopatas. Crimes planejados. Meticulosamente calculados. Com motivos claros e definidos. Como, por exemplo, o de Suzane vonRichthofen, que assassinou seus pais para ficar com o dinheiro deles. Lúcida, sem culpa, conectada com a realidade, Suzanne mostrou exatamente o que a psicopatologia descreve como psicopatia.

Por mais estranho que pareça aos leigos, Daniel matou seu pai para realmente tentar salvá-los de uma trama familiar que, até os seus 42 anos, não ganhara sentido para ele. Mergulhado no universo delirante que o tornou assassino, Daniel podia estar fazendo o que os neuróticos, ou seja, todos nós, fazemos no plano da fantasia. Matamos o pai simbolicamente para resolver nosso complexo de Édipo, segundo Freud.

Na psicose não é assim. A pessoa não chega a ter acesso ao momento do Édipo, porque algo aconteceu antes, interrompendo o desenvolvimento emocional. A repetição reiterada de acontecimentos invasivos, como diz o psicanalista inglês, Donald Winnicott, interrompe o sentimento de continuidade de ser do bebê.

Segundo a teoria do desenvolvimento de Winnicott, essa continuidade do ser não pode ser assegurada pelo bebê por si só, mas depende de um meio ambiente facilitador. A falha básica do ambiente inicial perturba o desenvolvimento, barrando o crescimento emocional da criança. Nesse sentido, o que constitui a etiologia das psicoses, em particular da esquizofrenia, é uma falha do processo de maturação e integração. Para Winnicott, “a psicose é uma doença de deficiência do ambiente”, Ambiente para ele entendido como a díade mãe-bebê, indissociável, nos primeiros meses de vida. Isso não deve ser entendido como a presença de experiências traumáticas graves ou a ocorrência de eventos turbulentos durante a primeira infância. O determinante aqui é que essas falhas são imprevisíveis. E é a repetição delas que causa o sentimento de intrusão do ambiente, sentido pelo bebê. O resultado clínico das falhas do ambiente é um sentimento permanente de aniquilamento e pânico que toma conta do bebê.

A localização das facadas, dadas na mãe por Daniel, é tragicamente indicadora de alguma coisa que diz respeito ao seu nascimento e o pós-parto e amamentação: seios e barriga. Algo da relação com a mãe (mãe ambiente), que não pôde ser consertado ao longo do seu desenvolvimento como criança, adolescente e adulto. Importante assinalar aqui que não se trata de culpabilizar a mãe, nem o pai, quando citamos a deficiência do ambiente. São processos nos quais todos os protagonistas são importantes. Há sempre um componente imponderável, portanto de singularidade em cada história.

Como psicanalista quero ressaltar a importância do tratamento para pessoas como Daniel, que apresentam quadros psicóticos. Ao contrário do que muitos pensam, é possível tratar psicanaliticamente esses transtornos. A medicação é importante para aliviar a angústia dos sintomas. Mas é a análise que proporciona a possibilidade de reconstrução do ambiente que falhou, por intermédio do acolhimento, de um setting suficientemente bom, e da regressão ao momento em que a pessoa sucumbiu às invasões do ambiente. Viver o momento em que houve a ruptura e poder construir uma subjetividade a partir de uma relação de confiança com o analista.

Nas sombras

Vale ressaltar que quanto mais cedo o tratamento começar, melhor. Mas, também, antes tarde do que mais tarde. Há uma tendência por parte das famílias de negar a situação da doença mental. Alguns fatores são responsáveis por isso: a noção consciente ou inconsciente de que há uma implicação dos familiares na história do transtorno. A atitude ainda preconceituosa da sociedade com relação a esse tipo de problema. A fantasia de que o que não é falado não existe.

No seu delírio, Daniel mata o pai, tenta matar a mãe e se matar na tentativa de libertá-los todos. Essa ideia delirante não vem do nada. Ela se origina na história dele com sua mãe e seu pai. De que libertação Daniel precisa? De que libertação estava convicto de que seus pais precisavam? Num segundo depoimento, fala que não queria deixar seus paisdesamparados” ao morrer. Muito provavelmente essa é uma afirmação na qual ele projeta nos pais uma experiência de desamparo precoce experimentada por ele, que sequer pôde ser pensada, que jamais pôde ser posta em palavras. Rompendo o canal da realidade compartilhada pela maioria, Daniel age em função de reparar alguma coisa com a nobre intenção, infelizmente delirante, de salvar a família.

Daniel, no seu gesto trágico, nos alerta para não que não tenhamos vergonha de falar de nossos dramas familiares com amigos e parentes. Para não termos vergonha de pedir ajuda. Para não hesitarmos em acreditar que o silêncio, o segredo sobre nossas vidas, é a arma mais letal que existe. Ela age sorrateiramente, corroendo as entranhas, construindo estranhas existências. Vivendo nas sombras, Daniel precisou matar o pai para vir à luz nesse mundo.

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Claudia Corbisier é psicanalista

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