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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

O mau humor, a magreza, o cigarro e a ironia fina

Por Fernanda Torres em 11/02/2014 na edição 785
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/2/2014; título original “Encantavam o mau humor persistente, a magreza de santo, o cigarro e a ironia fina”, intertítulo do OI

Conheci Eduardo Coutinho em 2003, no laboratório de roteiros que o Festival de Sundance promoveu no Brasil em parceria com o Sesc São Paulo. O “Redentor” (2004) não teve a sorte de contar com ele como analista, mas o sistema de imersão tratou de nos aproximar. Convivíamos nas horas vagas, nos longos jantares onde todos disputavam a sua atenção.

Eduardo Coutinho já era o autor de “Cabra Marcado para Morrer” (1985) e “Edifício Master” (2002), mas o que encantava eram o mau humor persistente, a magreza de santo, o cigarro inseparável e a ironia fina.

Uma noite, a conversa evoluiu para Tchékhov. Contei que havia feito uma adaptação de “A Gaivota” que jamais funcionou a contento, depois de levantada a cortina. Nossa melhor apresentação, confessei, foi um ensaio geral, antes de botarmos os pés no teatro. “Tchékhov não foi feito para estrear”, disse ele cheio de razão.

“Jogo de Cena” explorava a fronteira entre o falso e o verdadeiro, ficção e realidade. Nele, atrizes e mulheres reais se alternam narrando umas as histórias das outras.

Duvidei da minha capacidade de chegar a um resultado aceitável desde o dia em que recebi o material. Era uma batalha perdida, chegar a uma interpretação convincente de um depoimento que se mostrava tão fresco na boca de quem o viveu.

O fato de ser uma atriz conhecida depunha contra. Era falso porque partia de mim, que vivo de fingir.

Mesmo descrente, me empenhei na tarefa. No dia marcado, me dirigi até o teatro onde Coutinho filmava.

Esperei concentrada no camarim, ele disse que me chamaria com a câmera já valendo. Subi as escadas imbuída da personagem.

Equilibrada no delicado fio, me sentei na cadeira em frente à câmera em estado de representação.

Coutinho soltou uma exclamação em tom alto: “Nossa, você falou igual a ela”. Eu tentei continuar, mas ele insistiu em me chamar pelo meu nome. Fui tomada por um pânico e tive vergonha de estar ali.

Coutinho não percebeu e continuou a me perguntar onde ele deveria se posicionar, falou da sua falta de jeito, pediu que eu dissesse a hora de começar, mas a hora já havia passado. Esfriei por completo. Não teve volta.

Tentei atacar a fala, mas um diabo insistente sussurrava ao meu ouvido: “Está escrito na sua cara que é mentira!”. Parei. Foi melhor parar, admitir que eu não acreditava no que estava dizendo.

Realidade delirante

Como velho comunista que era, acho que Coutinho, embora carinhoso, tinha muitas reservas com relação a pessoas como eu. Ele usava palavras como “estrela” e “celebridade” para me definir. Era muito sedutor, apesar de tímido, e muitas vezes cruel nos comentários.

Ele me mostrou o material com muita ansiedade, tinha receio de que eu não liberasse, que ficasse ofendida, ou tivesse problemas de me mostrar frágil. Reagiu aliviado e surpreso quando viu que eu não criaria problemas.

Fiel ao que ouvi dele no laboratório do Sundance, aceitei tornar pública a amarelada histórica. Coutinho eternizou o torturante ensaio. Na maior parte do tempo, é naquele estado em que vivem os atores, na infinita busca.

Eu sempre achei que a trava dele com o mundo, a inadequação confessa, a dedicação ao fumo, o olhar severo, embora humorado, fosse herança da esquerda. Como também achei que o cigarro o mataria.

Nem uma coisa nem outra. A delirante realidade, como nos seus melhores filmes, superou a ficção.

******

Fernanda Torres, atriz e escritora, é colunista da Folha de S.Paulo

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