Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

Vida e linguagem

Por Marcus Faustini em 11/02/2014 na edição 785
Reproduzido do Globo, 4/2/2014; título original “Eduardo Coutinho”, intertítulo do OI

Ao longo de 2013, sempre aos domingos, vi Eduardo Coutinho lendo jornal, acompanhado de uma xícara de café e cigarro, numa mesa de uma livraria, no Jardim Botânico. Ensaiei, por diversas vezes, uma aproximação, nunca executada. Limitei-me a mostrá-lo para minha filha e enteado e dizer o quanto aquele homem era importante para o nosso cinema e para minhas ideias, mesmo sem saber. Tem alguns meses que a livraria fechou e, neste último domingo, ficamos também sem ele.

Tive dois encontros importantes com sua obra, que dispararam encorajamentos de vida, de ativismo e estéticos. O primeiro deles foi entre 87 e 88, na videoteca da biblioteca pública criada por Brizola e Darcy próxima ao Campo de Santana, onde conseguia assistir a filmes, por não ter videocassete em casa. Eram tardes gratuitas nas cabines, depois de largar do trampo de boy no Banco do Brasil, junto com o parceiro Heraldo HB, que hoje, além de poeta, é um dos cabeças do cineclube Mate com Angu, em Duque de Caxias. Ali, entre outros, o filme “Cabra marcado pra morrer” marcou esses meus 16 anos e a longa amizade com o HB, que até hoje chama aquele momento de “chapante”, pois o filme nos mostrou “um Brasil, um mundo imenso dentro daqueles sujeitos”. Para mim, a voz do narrador que inventava um lugar entre o épico e o reflexivo latejou na cabeça, expandiu as ideias, confirmando a intuição de que eu queria estar perto de pessoas que lutavam pelas mudanças sociais, democráticas, mas pensavam isso através da arte.

A ideia do documentário de organizar o que havia acontecido com as pessoas, o lugar e o próprio filme anterior inacabado firmaram o laço daquele jovem que eu era com o universo da arte e da política. Entrementes, era um caminho difícil a ser trilhado por um jovem de origem popular sem nenhum membro da família forjado no fogo e martelo desse universo. Um lugar, um aço a ser criado. Onde o filme foi uma das fornalhas desta vida que inventei.

Ao longo do tempo, toda vez em que precisava recuperar forças para manter a trajetória, criei a estratégia de me recolher com livros e filmes, em momentos de adversidade, para retomar forças. O “Cabra” também sempre estava lá. Uma bússola, “um goleiro, uma garantia” (como diz a canção), uma marca afetiva.

Arma afetiva

O segundo encontro foi em 2002, quando peguei uma câmera HI 8 e comecei a filmar conversas com pessoas. Estava disposto a reconfigurar os caminhos estéticos que tinham marcado minhas primeiras ações como artista, parar de falar para escutar pessoas, organizar discursos. Sempre generoso, o então crítico Rodrigo Fonseca imediatamente apresentou a liga disso com os recentes filmes daquele momento, do mestre Coutinho. Ali fui introduzido às ideias de um cinema de dispositivo, que através de regras formais dispara uma relação do autor/criador com a vida, sem inventar um mundo-síntese. Os filmes “Babilônia 2000” e “Edifício Master” eram a demonstração próxima dessa possibilidade. Em “Master”, por exemplo, a escolha de um prédio como regra formal através das conversas do diretor com os moradores expande a ideia de humanidade de Copacabana para além e esgarça os clichês.

Estava diante do núcleo duro de um pensamento estético que nos encorajou a inventar diversas ações. Demos um F5, um copia e cola inspiração de nossas estratégias estéticas. Tanto na criação da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, onde os primeiros exercícios foram com os jovens coletando imagens, conversando com moradores do bairro sobre como “guardavam suas fotografias”, como também com a criação de pequenos filmes de autorretrato por adolescentes, sem que eles pudessem aparecer no filme. Mais adiante, a própria metodologia da Agência de Redes para a Juventude reoperou essas “regras” para o encorajamento de jovens na realização de suas ideias. Inventários, abecedários, guias, mapas são algumas das estratégias formais que brotaram, dentre outras influências, deste mundo introduzido pelo contato com a obra de Coutinho.

Como eu gostaria de ter dito isso pessoalmente para ele. Porém, a intensidade da experiência encorajadora com sua obra gerou uma curiosa imprecisão que me desencorajou a dizer isso pessoalmente. Não consegui. Imaginava conseguir um dia. Queria mostrar o quanto sua obra, apesar de mobilizar tantos corações e mentes como arma estética e afetiva na defesa do mundo do documentário, também potencializou outros mundos. Sua obra deu dobras, desdobramentos. Lendo a declaração do parceiro Fred Coelho nas redes sociais sobre seus encontros, também à distância, no Jardim Botânico com o mestre, percebi que somos muitos que de diversas formas misturaram vida e linguagem a partir de sua obra.

Obrigado, Eduardo Coutinho.

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Marcus Faustini é colunista do Globo

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