Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MEMóRIA > EDUARDO COUTINHO (1933-2014)

Viveu como operário e morreu como deus grego

Por Carlos Nader em 11/02/2014 na edição 785
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 4/2/2014; título original “Cineasta viveu como operário e morreu como deus grego”, intertítulo do OI

A mais longa conversa que eu tive com Eduardo Coutinho foi naquele gênero que ele cultuava e era cultuado, uma entrevista. Ali, os sinais estavam trocados. Eu fazia o papel de entrevistador, e ele, o de entrevistado.

Foi uma metaconversa, uma metaentrevista, que falou justamente sobre aquilo que estava acontecendo: o próprio encontro verbal de duas pessoas, mediado por uma câmera, para virar filme.

Num determinado momento do papo-cabeça, o desgrenhado destruidor de papos-cabeças, disse que mesmo acostumado a ser chamado de “mestre” por seus pares, sabia que à boca pequena era alvo de uma crítica pouco generosa de boa parte dos colegas: como é possível reverenciar alguém que faz filmes em que tudo o que acontece é uma pessoa falando, e “só”?

O ovo de Colombo que Coutinho botou na história do cinema mundial foi justamente o de mostrar que o simples encontro de dois corpos que falam é uma das coisas mais complexas que podem acontecer sob a luz do sol, da lua ou dos refletores.

E que a gema desses encontros pode resultar não “só” num filme, mas numa cinematografia inteira, numa potente mitologia contemporânea, numa reveladora teoria audiovisual sobre o próprio cinema.

Potências originais

Nesta época em que as mídias sociais regulam os toques das relações humanas enxugando caracteres e inflamando egos solitários, fazer filmes “só” com pessoas contando pequenas histórias em longas durações é um ato revolucionário.

A essencialização radical que Coutinho fez na sua arte, o cinema, é análoga à que João Gilberto fez no samba com a Bossa Nova ou ao que Malevich fez na pintura figurativa com o suprematismo. Não é pouco, este pouco.

Mesmo assim, o mestre não gostava que seu “quase nada que é quase tudo” fosse chamado de “arte”. E muito menos que ele próprio fosse chamado “artista”. “Sou um operário do cinema”, disse ele, “eu só entrevisto pessoas, é o meu trabalho”.

Aqui, o que parece “só” humildade é também uma postura essencialista, recuperadora de potências originais. Nela, o homem que viveu como operário e morreu como deus grego nos lembra que a palavra “trabalho” na Grécia antiga era “poeisis”, a mesma que deu origem à palavra “poesia”.

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Carlos Nader é cineasta, diretor de “Pan-Cinema Permanente” (2008) e “Eduardo Coutinho: 7 de outubro”, sem previsão de lançamento

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