Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

MEMóRIA > JOE McGINNISS (1942-2014)

O jornalista que colocou a ética no banco dos réus

Por Guilherme Meirelles em 18/03/2014 na edição 790

A esmagadora maioria dos profissionais de imprensa no Brasil pode não ter a menor ideia de quem foi o jornalista e escritor americano Joe McGinniss, morto aos 71 anos, no dia 10 de março, em Massachusetts. McGinniss não era nenhum Gay Talese ou John Hersey, mas deixou o seu nome no jornalismo literário americano tanto pelas suas obras recheadas de realidade e ficção como pelas encrencas em que se envolveu. Nos portais, os parcos obituários se limitaram a citar seus trabalhos de cunho político, como The sellling of the President (lançada no Brasil com o título Vende-se um Presidente, há anos fora de catálogo), que lhe deu fama nacional, sobre a campanha de Richard Nixon à Presidência, e o mais recente, a controversa The Rogue: searching for the real Sarah Palin, no qual traça um perfil surpreendente da conservadora líder republicana, em que não faltam situações de uso de drogas e até um caso extraconjugal, negado de forma enfática por ela.

No Brasil, o nome de Joe McGinniss ficou conhecido como personagem do livro O Jornalista e o Assassino (Companhia das Letras, 1990), de autoria da jornalista Janet Malcolm, colaboradora da prestigiosa revista New Yorker. No final da década de 70, quando estava meio em baixa, McGinniss fechou um contrato com uma editora para escrever um romance jornalístico, mediante um adiantamento de US$ 300 mil, nos moldes do new journalism, sobre o assassinato de Colette MacDonald, então grávida, e suas duas filhas, Kimberly e Kristen, de cinco e dois anos de idade. As vítimas foram brutalmente assassinadas em fevereiro de 1970 por meio de pauladas e facadas, em Fort Bragg, na Carolina do Norte. O principal suspeito era o médico Jeffrey MacDonald, que negou o crime desde o início, apesar de várias evidências reveladas pela polícia.

Médico de sucesso e bem visto pela comunidade local, alegou que estava presente na residência e que teria visto quatro homens chacinando sua mulher e suas famílias e, ao tentar defende-las, foi nocauteado e ficou levemente ferido. A história jamais convenceu as autoridades, mas em um primeiro julgamento MacDonald foi absolvido por falta de provas. Inconformada, a Justiça americana reabriu o processo e MacDonald viu-se novamente obrigado a provar a sua inocência. Foi quando manteve contato com McGinniss, que se apresentou ao réu disposto a escrever um livro contando a sua inocência. Meses após o primeiro encontro, MacDonald foi novamente julgado e condenado à prisão perpétua pelos três assassinatos.

Ética jornalística e liberdade de imprensa

Graças à legislação americana, o jornalista e o assassino continuaram mantendo contatos presenciais e trocando correspondências. Em todas elas, o tom proposto por McGinniss era sempre de colaboração e garantia que a obra seria uma ferramenta que o ajudaria a alterar a decisão da Justiça para uma pena mais branda.

Porém, no decorrer das entrevistas e da apuração dos fatos, McGinniss reformulou a sua convicção e passou a enxergar MacDonald como um psicopata frio e cruel, sem jamais revelar ao réu sua nova versão sobre os crimes. Lançado em 1983, Fatal Vision tornou-se um best-seller e provocou uma reviravolta no caso junto à opinião pública. Nas correspondências, a promessa era que MacDonald seria apresentado como “pai e marido extremado”, “médico dedicado” e “realizador esforçado”. Mas, o que se lia em Fatal Vision eram termos como “sedento de publicidade”, “mulherengo” e “homossexual latente”. Com a repercussão do livro, nos anos posteriores, todos os recursos apresentados pela defesa do médico para reabertura do caso foram negados pela Justiça.

Na prisão, revoltado com o que considerava uma traição e um gesto antiético, MacDonald moveu um processo contra McGinniss e, em 1987, após diversas audiências, optou-se por um acordo no qual McGinniss pagou (por meio da seguradora da editora) US$ 325 mil a MacDonald. As provas apresentadas (cartas e gravações) pelo assassino demonstravam de forma cabal que McGinniss havia lançado mão de meios antiéticos para poder concluir seu livro. O desfecho do caso abalou a reputação de McGinniss e provocou um questionamento sobre a Ética nas práticas do Jornalismo. Afinal, como jornalista, ele foi correto ao fechar um acordo com o biografado mediante a promessa de um livro que lhe fosse favorável? Ou deveria ter rompido o acordo (e consequentemente o contrato com a editora) a partir do momento em que deixou de acreditar na inocência do réu?

Em O Jornalista e o Assassino, Janet Malcolm disseca profundamente a ética no jornalismo ao entrevistar advogados envolvidos no caso e reproduzindo fartos trechos das cartas e gravações dos dois principais personagens. Fora de catálogo há anos, o livro pode ser encontrado em sebos e é uma leitura fundamental a todos que se interessam em desvendar os limites entre ética jornalística e a liberdade de imprensa. Passados 27 anos do acordo judicial, Jeffrey MacDonald permanece preso na Carolina da Norte e tem perdido todos os recursos para obter a liberdade condicional.

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Guilherme Meirelles é jornalista

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