Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > RODOLFO KONDER (1938-2014)

Penoso, irremediável

Por Judith Patarra em 06/05/2014 na edição 797

Permanecerão a expressão do olhar, o tom da voz, as anedotas, a compaixão, o afeto risonho, a ironia marota, o raciocínio arguto a contrastarem com o clima soturno de sua obra literária, marcada pelo inconformismo ante a arbitrariedade e a hipocrisia da ditadura militar, a tortura no antro de sadismo da Rua Tutóia, o bárbaro assassinato do amigo Vladimir Herzog cometido pelos torcionários, como Jacob Gorender os denominava.

“Soube logo que era ele sob o capuz. Pelos sapatos. Compramos juntos.”

Rodolfo gostava de comprar roupas, sapatos. Garantia ouvir uma vozinha fina a chamar da vitrine:

– Rodolfo, Rodolfooo.

Mas recusava-se a usar um chapéu ou boina que fosse, para proteger-se do frio congelador durante um inverno em Nova York, exilado político que chegara do Canadá. Era rijo. Também enfrentou o câncer com vigor, disse em uma entrevista Silvia, sua mulher há quase 40 anos. Tratamentos sofridos.

Escolha política

Valente fé na força dos frutos da vida. Ione, a mãe de sorriso aberto, forte e acolhedora, já dissera:

– Coisa boa a gente aprende depressa.

Falava de democracia e dos frutos da vida.

Tão amada a mãe que Leandro, o filósofo de criatividade irradiante, irmão mais velho, desenhara um pássaro no seu ombro, em uma foto. Ione, a encantadora de pássaros.

Leandro protegia Rodolfo desde pequeno. Valério Konder, o pai, médico sanitarista e dirigente do PCB, que deixou de herança disciplina, destemor, dignidade e preocupação social, exigia dos filhos que tomassem um copo de leite durante a refeição. Leandro fingia não perceber que devagar, sem ruído, seu copo vazio era substituído pelo cheio de Rodolfo, que detestava leite. A caçula Luiza, que foi a mais protegida e sempre deu proteção e generosidade à família e aos amigos, fechava o trio.

Não tem mais Rodolfo.

E fica a amiga que não conseguiu pedir desculpas pela estúpida intolerância a uma escolha política que é nada, nada, muito menos do que nada, quando se pensa no valor do afeto e da fraternidade que Rodolfo tanto ofereceu.

Em tempo: A jornalista Norma Couri relata que, certo dia, em um evento na Hebraica (SP), Rodolfo Konder sentou-se ao seu lado e disse-lhe:

– Sinto-me um leproso, as pessoas me evitam.

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Judith Patarra é jornalista

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