Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MEMóRIA > JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014)

Que falta você fará, João Ubaldo

Por Ignácio de Loyola Brandão em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido do Estadão.com, 18/7/2014; intertítulo do OI

João Ubaldo Ribeiro partiu. O maior talento de minha geração. Nenhum de nós igualou o Viva o Povo Brasileiro, um clássico. Bastaria esse para eternizá-lo. João, o cientista político, o homem que traduzia para o inglês seus próprios livros. Como sua voz de baixo, sua risada contagiante, escaldante, era uma figura soberba. Contava casos e mais casos da Bahia. Nunca vi alguém mais baiano que ele. Passou anos exilado na Rua Barão da Torre , Ipanema, Rio de Janeiro. Morava ali mas não era dali. Era, foi e será sempre itaparicano. Itaparica era presença constante no imaginário dele. Não sei se vai ser sepultado lá.

Na única vez que estivemos juntos em Itaparica, ele me recebeu como um príncipe, preparou uma moqueca de ostrinhas de entontecer. Me deu até raiva. Um sujeito que escrevia tão bem, falava tão bem, encantava a todos, era sedutor, engraçado e ainda um cozinheiro de mão cheia, como dizemos aqui na terra.

Escrevo soltando palavras ao léu. João provocará saudades. Se fui o primeiro escritor brasileiro a ganhar uma estada em Berlim, patrocinada pelo DAAD, Serviço Alemão de Intercâmbio Cultural, João foi o segundo. Ele foi morar em uma rua próxima a minha, o que significa que vivemos no mesmo bairro. Escrevi um livro sobre Berlim, ele escreveu outro. Duas visões diferentes da mesma cidade.

Sem saber…

Certa vez, em Colônia, saímos os dois em busca de produtos da Solingen, marca tradicional de navalhas, pinças, alicates para manicure. O que há de melhor. Era um pedido de Berenice, mulher dele. No nosso alemão precário, pedíamos: Solinji, carregando no S, que valia – em português, por dois SS – e acentuando o aspirado do J.

Ninguém nos entendia. Falávamos como falavam os barbeiros antigos no Brasil. Depois de uma hora de andanças e recusas, um senhor nos orientou na pronuncia exata: Zólingue. Ele comprou feliz. E a inveja que provocávamos em Lygia Fagundes Telles quando, em alguma das muitas viagens, voltávamos para o hotel cheios de canetas e cadernetas de anotação? E as toneladas de vitaminas germânicas que você trazia para o Brasil, garantias de longa vida?

Minha geração está se despedindo. João Antônio, Vander Pirolli, Moacyr Scliar, Osvaldo França Júnior, Roberto Drummond e a nossa incomparável Ray-Gude Mertin, tradutora, intérprete, professora de literatura brasileira em Frankfurt, nossa agente. João Ubaldo foi se juntar a Glauber Rocha, seu ídolo maior, ao lado de Jorge Amado (este ídolo de todos nós que fomos seus amigos, com ele convivemos, degustamos sua experiência). João Ubaldo e Antonio Torres eram os representantes de nossa geração na Academia Brasileira de Letras. Agora, João, você deixou o Torres sozinho. Não podia fazer isso.

João, quando vamos terminar aquele dicionário maluco de alemão-português que iniciamos certa vez, cheio de nonsense, completamente surreal? Onde eingang (entrada) era a gangue do ein, enquanto ausgang (saída) era a gangue do aus, einfarth (também entrada) era o local para se sofrer enfarte (porque alemães são organizadíssimos, dizíamos), flut (maré) era pum, nicht rauch (Não fume) era proibido rachar, kartofell (batata) era carteiro, machen (fazer) era macho Um dia, pediram a Marilia Gabriela que comentasse a morte de Tom Jobim. E ela: “Pois eu nem sabia que Tom Jobim também morria”. Também eu nem pensava que João Ubaldo pudesse morrer.

João, que falta você fará.

******

Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor

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