Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MEMóRIA > JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014)

Sobre João

Por ‘OG’ em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido do Globo.com, 18/7/2014; título original “‘A literatura brasileira perde um grande nome’, diz a presidente Dilma Rousseff em nota”, intertítulos do OI

Escritores, músicos, políticos, atores e outras personalidades lamentaram a morte de João Ubaldo Ribeiro. O autor de “Viva o povo brasileiro!” morreu na madrugada desta sexta-feira, vítima de uma embolia pulmonar. Em nota oficial publicada pelo Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff comentou o falecimento do escritor João Ubaldo Ribeiro.

A literatura brasileira perde um grande nome com a morte de João Ubaldo Ribeiro. Neste momento de dor, presto minha solidariedade aos familiares, amigos e leitores” diz o texto.

Diretor geral da Objetiva, atual editora da obra do escritor no Brasil, Roberto Feith escreveu que João Ubaldo era “homem de uma inteligência feroz e uma cultura vasta”.

– Seus livros chegavam à editora perfeitos, irretocáveis, mais que acabados. Era um mestre na musicalidade e na cadência do texto. Suas narrativas podiam ser lidas em voz alta, como se fossem poemas épicos.

Feith também falou sobre a grandeza do autor.

– Perdemos um grande criador e um grande brasileiro. João era radicalmente autêntico, na vida e no trabalho. Seu imaginário estava inexoravelmente ligado às suas raízes, sua obra era expressão de uma sensibilidade personalíssima e brasileiríssima. E, talvez por isso, tenha conquistado tantos leitores em todo o mundo.

Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, comentou a morte de João Ubaldo Ribeiro.

– O Rio de Janeiro perde um carioca de coração. João Ubaldo adotou a cidade – e o Leblon – para viver e nos presenteou com seus romances e crônicas. Os livros “Sargento Getúlio” e “Viva o povo brasileiro” são referências literárias e constam na lista dos cem melhores romances brasileiros. João Ubaldo deixará saudade. É uma perda para a literatura brasileira.

Jaques Wagner, governador da Bahia, divulgou uma nota sobre a perda de um dos maiores filhos do estado nordestino.

– A obra deixada por João Ubaldo Ribeiro nos auxilia, neste momento, a superar a dor pela sua perda. Imortal das academias de letras do Brasil e da Bahia, irônico e bem-humorado, soube como poucos desvendar as entranhas da epopeia brasileira. Sua crítica social muitas vezes incomodava, porém também apontava caminhos. Ubaldo é leitura essencial para quem quiser contribuir para a construção de uma sociedade melhor. Minhas condolências aos familiares e amigos.

A Secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, Adriana Rattes, foi outra a publicar uma nota de pesar sobre o falecimento do escritor.

– Perdemos um grande romancista, um cronista singular, um pensador do Brasil – e uma figura sem igual. João Ubaldo Ribeiro era um mestre das letras e da irreverência, um gigante da nossa cultura, merecidamente reconhecido mundo afora. Sentiremos muita falta dele.

Leve e sofisticado

O conterrâneo Gilberto Gil diz que nunca esquecerá da voz do homem e do escritor João Ubaldo.

“Tenho enorme admiração por João Ubaldo Ribeiro, desde muito cedo, já que ele foi meu professor da Faculdade de Administração, na Bahia. Acho “Viva o povo brasileiro” um dos maiores romances da língua portuguesa. Adorava o lado divertido dele como cronista, ensaísta… e o que dizer do texto teatral “A casa dos budas ditosos”? Não me sai da cabeça, não me sairá nunca, o tom de voz dele. Aquele barítono profundo!”

João Jorge, diretor do Oludum, disse que o grupo fará uma homenagem ao autor.

– Lamento profundamente. Fui aluno do pai dele, Manoel Ribeiro, no curso de Direito. Sou um leitor apaixonado de “Viva o povo brasileiro”. João Ubaldo é uma árvore da Bahia e do Brasil. Os seus frutos na literatura são permanentes. Nós, do Olodum, estamos em Amsterdã, na Holanda, pasmos com essa notícia. E vamos homenagear João no show que faremos amanhã aqui. Ele viverá entre nós para sempre.

Em entrevista a O GLOBO por telefone, o cineasta Cacá Diegues lembrou de quando trabalhou ao lado de seu amigo João Ubaldo.

– O João era um amigo próximo e muito querido. Ele era uma dessas pessoas que conquistam a gente antes mesmo de conhecê-lo direito. João era uma grande artista, um grande escritor. Não sei se exite outro escritor vivo maior do que ele, hoje, no Brasil. É um amigo que perco, um homem bem-humorado, inteligente. Trabalhamos juntos na confecção do roteiro do filme “Tieta do agreste” e, depois, no de “Deus é brasileiro”. Durante essas produções, ele esteve sempre por perto, o que tornaram essas experiências inesquecíveis, porque o João era um sujeito muito divertido.

Diretor da adaptação de “Sargento Getúlio” para o cinema, Hermano Penna ressaltou o profundo alcance da escrita de João Ubaldo.

– Sem dúvida alguma, é uma perda imensa. Estive dias na Bahia com João, antes de fazer “Sargento Getúlio”. Conversamos muito e nos tornamos amigos. Há dois anos, João esteve em São Paulo por ocasião das comemorações dos 30 anos de “Sargento Getúlio”, numa homenagem promovida pela Balada Literária. Foi uma noite gloriosa. Acho o livro “Sargento Getúlio” o livro mais perfeito de João Ubaldo, literalmente. Mas, o mais importante para o país é “Viva o povo brasileiro”, um mergulho profundo no que somos, com nossas grandezas e misérias. “Viva o povo brasileiro” devia ser a bíblia das casas brasileiras. Todo lar que se preze deveria ter um exemplar desse livro, que tem momentos sublimes de literatura, comparáveis ao que de mais extraordinário a literatura mundial concebeu.

A atriz Maitê Proença, que atuou na novela “O sorriso do lagarto”, de 1991, baseada no romance homônimo de João Ubaldo, lamenta a perda do escritor.

– A literatura fica mais pobre, já que perdemos também o Caio Fernando de Abreu e o Moacyr Scliar. O João nos deu um romance definitivo. Ele só tinha 30 anos quando escreveu ‘Sargento Getúlio’, romance que virou um clássico. Isso é muito raro. Ainda tem “Viva o Povo Brasileiro”, um best-seller. Irreverente, era um sátiro da moral católica e dava voz às camadas mais simples. Escrevia com humor para desmistificar a arrogância das elites.

Maitê também lembrou do sucesso da novela.

– Foi uma delícia. Vou guardar com carinho para sempre este trabalho. A adaptação de Walter Negrão e Geraldo Carneiro foi um grande sucesso. Tinha o Tony Ramos, o Raul Cortez e o diretor Roberto Talma em grande fase. Parei a minha vida durante quatro meses por causa desse trabalho. Gravamos em Paraty. Era o tempo em que ainda se gravava em locações.

O poeta, letrista e roteirista Geraldo Carneiro falou de sua amizade com o escritor.

– Só tive a alegria e o privilégio de me tornar amigo íntimo do João Ubaldo há 25 anos, embora tenhamos nos tornado à primeira vista amigos de infância. Costumávamos nos encontrar pelo menos uma vez por semana para rir das besteiras da vida e, nas horas vagas, trabalhar como dois mouros. Escrevemos muitos textos juntos e terei sempre o prazer de revisitá-los. Pena que não possa revisitar o parceiro. Mas posso reencontrá-lo em seus livros como “Viva o povo brasileiro”, que é um dos dez maiores jamais escritos no Brasil. Que a força do João Ubaldo continue iluminando todos nós, gregos e baianos.”

José Castello, escritor, crítico literário e colunista do O GLOBO, falou sobre o legado da obra do escritor.

– Eu acho que o João Ubaldo fica, antes de tudo, como um autor de lendas brasileiras. Nesse sentido, a literatura dele faz uma espécie de sucessão à literatura de Jorge Amado, de quem ele é o discípulo mais aplicado e mais atuante. A questão da sensualidade, dos maneirismos, da rua. O João Ubaldo segue nessa direção, mas em um estilo próprio, é claro.

– Ele sempre escreveu com muita leveza, sempre teve essa relação com a imprensa. Mas também é um escritor sofisticado, tem relação próxima com a Alemanha. Não dá para achar que ele é um escritor fácil. Não é qualquer escritor que consegue chegar a essa leveza. Não é fácil alcançar isso. Ele tem uma escrita quase falada, envolvente, que trata das coisas próximas da gente. Ainda que ele fale da Bahia, mesmo se você nunca colocou os pés lá, tem coisas em sua escrita que estão no imaginário brasileiro, da maneira como o Brasil sonha, como vive o povo brasileiro.

Obra original

Zuenir Ventura, escritor, jornalista e colunista do O GLOBO, se disse chocado com a notícia da morte do amigo.

– Recebi a notícia com uma reação de incredulidade. O João esteve doente, mas ele deu a volta por cima, estava ótimo. Depois veio o choque. É muito difícil de processar isso. Não só pela importância dele como escritor, com sua obra importantíssima, mas também pelo João amigo, o personagem, a figura carinhosa, engraçada, um grande contador de histórias. Quando ele chegava em um ambiente, não tinha para ninguém. Ele era muito engraçado, só fazia o papel de mal humorado.

Ele conta como conheceu o escritor, nos anos 1970.

– Eu ia entrevistar o Jorge Amado, e o Gláuber Rocha me disse: “ Vou te apresentar o maior escritor brasileiro”. Era o João. Ele tinha uma riqueza existencial e literária enorme. Não só escrivia como contava bem histórias. Ele era um erudito, conhecia muito literatura, história, era muito culto. Ele disfarçava bem isso com o jeitão dele meio largado. A gente se encontrava no Leblon, ele estava sempre de chinelo de dedo. Era um baiano daqueles bem típicos.

Para Zuenir, a literatura de João Ubaldo é única.

– A obra dele é muito original, no sentido que ele digeria toda essa cultura, mas ele não era dirigido pelos colegas, pelos contemporâneos. Ele se caracteriza pela originalidade do estilo. Era todo singular. É uma obra muito pessoal.

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