Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > ARIANO SUASSUNA (1927-2014)

O porta-voz da cultura do Nordeste

Por Gonçalo Junior em 29/07/2014 na edição 809
Reproduzido do Valor Econômico, 24/7/2014; título original “Aos 87, morre Ariano Suassuna, porta-voz da cultura do Nordeste”

Por um bom tempo, deverá ser difícil existir mais um autor e prosador tão relevante para a cultura do Nordeste quanto o paraibano e quase pernambucano Ariano Vilar Suassuna, que morreu ontem [23/7], aos 87 anos. Em boletim médico, o Real Hospital Português do Recife, onde estava internado, informou que ele teve parada cardíaca provocada por hipertensão intracraniana. Na segunda-feira, o escritor sofreu um AVC hemorrágico.

Suassuna foi o último nome expressivo de uma linhagem nobre formada por mestres da cultura regional, como José Lins do Rego (1901-1957), Gilberto Freyre (1900-1987), Jorge Amado (1912-2001), Patativa do Assaré (1909-2002), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Luiz Gonzaga (1912-1989). Personalidades que, com sua vigorosa obra, deram identidade a uma região marcada por valores culturais, éticos e morais próprios que romperam as fronteiras de seus territórios e uniram todo um povo – tão singular, capaz de fazer dos nove Estados quase uma nação dentro do Brasil.

Foram eles que enfatizaram peculiaridades, como a religiosidade reverenciadora, a tradição das festas juninas de largo e do interior, a resistência e a simbologia do cangaço, a tradição dos presépios, as comidas típicas, a música rica – frevo, xaxado, forró etc.

Suassuna o fez por meio de dois clássicos do teatro e da literatura: “Auto da Compadecida” e “A Pedra do Reino”. A primeira, uma peça em forma de auto, com três atos, no gênero comédia, foi escrita em 1955 e chamou a atenção por misturar de forma imaginativa e original uma série de elementos da tradição da literatura de cordel como narrativa, de modo a dar ênfase à cultura regional. Um dos traços marcantes também aparece nas características do barroco católico brasileiro, em uma mistura de tradições populares e religiosas. O texto ousado e inovador projetou o autor em todo o país e foi considerado pelo crítico teatral Sábato Magaldi, em 1962, como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.

Publicado em 1971, em formato de romance, “A Pedra do Reino” foi inspirado em um episódio ocorrido no município pernambucano de São José do Belmonte em 1836. Ali, uma seita tentou fazer ressurgir a lenda da ressurreição de d. Sebastião, rei de Portugal – a tradição ainda hoje é lembrada durante a Cavalgada da Pedra do Reino, manifestação popular que ocorre anualmente no mesmo local onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei.

Muito da obra do escritor veio da vivência pessoal e do seu talento em tirar dessas experiências obras-primas da cultura popular. Como a tragédia familiar de ter o pai assassinado no Rio por motivos políticos.

Cadeira 32

Desde 1942, vivia no Recife, onde chegou com 15 anos para estudar direito. Na faculdade, tornou-se amigo de Hermilo Borba Filho (1917-1976), com quem fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu a primeira peça, “Uma Mulher Vestida de Sol”. No ano seguinte, seu texto “Cantam as Harpas de Sião (ou O Desertor de Princesa)” foi encenado, seguido de “Os Homens de Barro”.

Bacharel em 1950, Suassuna advogaria por apenas seis anos, depois de acumular prêmios no palco, curar-se de grave doença pulmonar e criar três peças marcantes: “O Castigo da Soberba” (1953), “O Rico Avarento” (1954) e “Auto da Compadecida”. Em 1959, ainda com Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste e montou “Farsa da Boa Preguiça” (1960) e “A Caseira e a Catarina” (1962).

De 1958 a 1979, se dedicou também à prosa ficcional. Da experiência nasceram “A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, ambos de 1971; e “História d’o Rei Degolado nas Caatingas do Sertão/ Ao Sol da Onça Caetana” (1976), que descreveu como “romance armorial-popular brasileiro”.

No início dos anos 1960, Suassuna interrompeu a bem-sucedida carreira de dramaturgo para dar aulas de estética na Universidade Federal de Pernambuco. Na mesma instituição, defendeu em 1976 a tese de livre-docência “A Onça Castanha e a Ilha Brasil: uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira”. Aposentou-se como professor em 1994. Com nome bastante conhecido no Recife, tornou-se um dos fundadores do Conselho Federal de Cultura (1967) e foi nomeado diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE (1969).

Não deixou de lado, porém, sua militância cultural. Em 1970, no Recife, fundou o Movimento Armorial para defender a difusão de uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina. Isso deveria ser feito de todas as formas de expressão artísticas possíveis, como música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, arquitetura etc. Com o sucesso de seus textos, vieram muitas outras narrativas que o consagraram no mundo das letras.

Na idade madura, a partir da década de 1990, Ariano Suassuna transpôs esse status de autor e intelectual e se tornou quase um porta-voz da cultura regional do Nordeste. Como patrimônio vivo, atravessou também as fronteiras da política. Seria exaustivamente chamado a dar entrevistas e a opinar sobre problemas diversos da política e da vida social da região.

Foi assim até há pouco. A saúde do escritor e dramaturgo começou a se fragilizar em meados do ano passado. Em dezembro, quatro meses depois de sofrer dois infartos, foi internado às pressas no Recife para tratar de um aneurisma cerebral. Segundo suas palavras, pulou três fogueiras durante as enfermidades. “Mexeu com o físico, mas com a cabeça boliu não”, afirmou à “Folha de S. Paulo”, pouco depois de deixar o hospital. Na ocasião, revelou ter acabado, finalmente, de concluir, sob o impulso dos problemas de saúde, um romance no qual trabalhou ao longo de 33 anos. O título seria “O Jumento Sedutor”. Fora dividido em sete volumes e definido por ele como a obra de uma vida. Contou ainda que teve uma ajuda divina para pôr um ponto final.

Desde 1990, Suassuna ocupava a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Manuel José de Araújo Porto Alegre, o barão de Santo Ângelo. Foi o terceiro imortal a morrer em apenas três semanas – depois de Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro.

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Gonçalo Junior, para o Valor Econômico

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