Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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A maior angústia de um repórter

Por Clóvis Rossi em 05/08/2014 na edição 810

Já são cinco décadas de jornalismo, a maior parte delas sob fogo, não no sentido literal, mas por envolver coberturas que o jargão profissional define como “quentes”.

É natural, nessas circunstâncias, que o estresse devore o repórter, ainda mais um repórter inseguro como sou, apesar do tempo de estrada. Mas, terminada a cobertura, entregue e publicado o texto, o estresse cede, pelo menos até uma nova missão.

Uma única vez, no entanto, o estresse se prolongou por uns três meses. Foi em abril de 2002. A Folha me deslocou para Israel para cobrir a invasão dos territórios que o Estado judeu devolvera um tempo antes aos palestinos. Eles caçavam terroristas, como afirmam fazer agora em Gaza.

Nessas ocasiões, as IDF (sigla em inglês para Forças de Defesa de Israel) bloqueiam completamente o acesso aos territórios palestinos, o que impede o trabalho de campo dos jornalistas.

Um dado dia, ao centro de imprensa que o governo israelense montara ao lado do hotel Holiday Inn, na entrada de Jerusalém, chega a informação de que houvera um violento combate no campo de refugiados de Jenin, 103 km ao norte dali.

Tentei chegar a Jenin pegando carona com uma equipe da TV italiana. Ao sair da estrada principal, por um caminho de terra que levaria ao campo, fomos parados. Só deu para ver ambulâncias levantando poeira na pressa de levar feridos para algum hospital.

No dia seguinte, no entanto, com um companheiro belga e outro holandês, conseguimos chegar ao campo. O resultado (uol.com/bydPr6) foi considerado “antológico” pelo ombudsman da Folha na época, Bernardo Ajzenberg.

Um alívio

Por que, então, o estresse não se desfez? Lembro-me bem de ter chegado ao hotel e corrido para o banheiro para vomitar copiosamente, abalado pelas cenas vistas e incomodado com a perspectiva de descrever um conflito que eu não vira ocorrer.

Havia uma pressão (aliás permanente quando se trata de Israel e Palestina) para que o caso fosse tratado como “intenso combate” –versão israelense–, ou como “massacre” –versão palestina.

A destruição que eu vira no campo e o cheiro de morte que o permeava mesmo dois dias depois do evento podiam tanto ser produto de um forte confronto como de um massacre.

Meu texto ficou mais perto do “massacre” do que do “forte combate”, mas não chegou ao limite.

Nos dias e meses seguintes, fiquei me cobrando intimamente se não havia sido condescendente com Israel, ao não rotular como massacre o que ocorrera.

Ou se não fora influenciado demais pelas fontes palestinas, a ponto de rejeitar a hipótese de um intenso combate.

Uns três meses depois, saiu um relatório da Cruz Vermelha/Crescente Vermelho, insuspeito de inclinação por um lado ou outro e impecável no seu trabalho humanitário. Sem a ligeireza inevitável em uma reportagem apurada e escrita em poucas horas de um único dia, o relatório basicamente coincidia com a minha versão do que ocorrera –mais perto de massacre, mas sem chegar a tanto.

Suspirei aliviado. Mais ainda por que, por incrível coincidência, um jornalista inglês (do “Guardian”, se a memória não me falha) escreveu um texto em que confessava a mesma angústia que eu alimentara silenciosamente, desfeita, a dele e a minha, pelo relatório da Cruz Vermelha.

******

Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo

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