Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MEMóRIA > EDUARDO CAMPOS (1965-2014)

O relato de uma repórter

Por Marina Dias em 19/08/2014 na edição 812
Reproduzido do UOL, 13/8/2014; título original “Repórter da Folha diz que sumiço de Campos foi ‘soco no estômago’”, intertítulo do OI

Acordei de sobressalto às 8h20 desta quarta-feira (13). O despertador não tinha tocado e eu estava atrasada. Era um dia comum. Deveria acompanhar o candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, como tenho feito desde maio.

Às 10h30, o ex-governador de Pernambuco estaria em Santos (SP) e ele não costumava se atrasar. Eu precisava correr.

Às 9h20, já a caminho da Baixada Santista, mandei mensagem no celular de Carlos Percol, assessor de imprensa do candidato. Perguntei sobre a “Praia do Mercado”, endereço que aparecia na agenda oficial de Campos como ponto de encontro da caminhada que, soube depois, ele decidiu de última hora fazer.

“Descobrimos onde é a Praia do Mercado? Acho que isso não existe em Santos”, escrevi. “Só o Pai sabe, estamos decolando”, respondeu. O bom humor era sempre dele. “Amém”, retruquei. Ah, se eu soubesse ali…

Na entrada de Santos, dezenas de caminhões formavam uma enorme fila na região do porto. Comecei a ficar inquieta. E, debaixo de chuva, cheguei perto das 11h à estação das barcas, onde pegaria a “catraia” para Vicente de Carvalho, no Guarujá (SP). Campos estaria na Casa do Norte para uma entrevista coletiva. Faltava pouco.

Estranhei Percol não ter mandado o tradicional “chegamos”. Ele sempre foi muito atento às movimentações durante as agendas e ficava em contato o tempo todo com os jornalistas via redes sociais. Já fazia mais de uma hora e meia que tinham decolando do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. “Bobagem”, pensei.

Foi então que recebi uma mensagem no celular: “Viu que um avião caiu em Santos?”. Não, não tinha visto, e confesso que não dei muita importância naquele momento.

Li a notícia em voz alta para outros dois colegas que estavam comigo fazendo a rápida travessia. Foram necessários alguns poucos segundos calados para que nos olhássemos e concluíssemos juntos: “Pode ser o dele”.

Silêncio

Meu primeiro impulso foi ligar para o celular de Eduardo Campos. Caixa postal. Resolvi tentar Pedro Valadares, seu assessor pessoal, e a telefonia dava o mesmo aviso: “deixe seu recado”. Não queria deixar recado. “Percol, me atenda ou me responda”, torcia mentalmente enquanto fazia todas as tentativas. Nada. Senti um soco no estômago. Podem realmente ser eles.

Desci da barca e me apressei em direção à Casa do Norte. Todos os jornalistas e militantes do PSB assistiam à TV apreensivos. Lá fora, uma kombi da campanha ainda tocava o jingle: “Coragem pra mudar o Brasil, eu vou com Eduardo e Marina”.

Tentei me aproximar do deputado Márcio França (PSB), candidato a vice na chapa à reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e um dos principais aliados de Campos. Ele não saía do telefone. O semblante era terrível. Resolvi esperar.

Com várias ligações, eu tentava checar se o prefixo da aeronave que havia caído era o mesmo do avião que saiu do Rio com a comitiva. “PR-AFA”. Nunca vou me esquecer dessa sequência.

Foi quando atendi à ligação de um número desconhecido. Do outro lado, uma fonte me dizia: “tive acesso à lista de embarque no Santos Dumont. Eram eles”. Mais um soco no estômago. Inacreditável.

Corri para perto de França, que ouvia cochichos de assessores e já se encaminhava mais uma vez à estação das barcas. Precisava voltar a Santos. “O avião era o do Eduardo”, pude ouvir o murmúrio de um deles.

Sem dizer uma palavra, o aliado de Campos entrava na barca com a notícia. Era possível ler seus olhos baixos. Com o celular na mão, já não tentava fazer nenhuma ligação.

Quando a Aeronáutica confirmou a lista das pessoas que estavam no avião e as emissoras de TV e portais na internet estamparam a notícia: “Morre Eduardo Campos”, ninguém mais falou. Veio o silêncio do entorno e o “amém” que mandei a Carlos Percol. Foi a única vez que ele não respondeu se Eduardo chegaria a tempo.

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Marina Dias, da Folha de S.Paulo

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